5 vezes que o patriarcado atrapalhou o nosso bem-estar
Nossa relação pouco íntima com a menstruação, a vulva e o clitóris é reflexo de uma sociedade que nos afasta do nosso próprio corpo, como Luisa Micheletti mostra na peça "A origem do mundo"
Vulva. Quantas vezes você usou essa palavra no seu vocabulário corriqueiro? Sabe a que parte do corpo ela se refere? Qual é o tamanho do clitóris? É clitóris ou clítoris? Como a ciência tratou e retratou o corpo da mulher ao longo dos séculos?
A atriz e dramaturga Luisa Micheletti percebeu que desconhecia a resposta para várias dessas perguntas quando, em 2020, atraída pela capa, leu a história em quadrinhos A origem do mundo (Cia das Letras), da escritora sueca Liv Strömquist – e ficou chocada com o possível tamanho da nossa ignorância sobre o próprio corpo.
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A HQ tem um humor ótimo e narra fatos históricos sobre como a medicina, a psicanálise, a filosofia e a ciência inviabilizaram o corpo e a representação do corpo da mulher ao longo dos séculos, sobretudo a vulva. E, dessa forma, nos privaram de conhecimentos importantes. “É por isso que me tocou tanto. O feminino é o meu assunto para a arte e eu não sabia que o meu clitóris tem dez centímetros. Pelo amor de Deus, onde estamos?”
Obcecada pelo que tinha lido, Luisa se juntou à atriz e roteirista Julia Tavares para transformar a HQ em peça de teatro (que está em cartaz no Sesc Ipiranga, com direção de Maria Helena Chira). O desafio era contar uma história muito narrativa, cheia de dados e informação, sem deixar a apresentação enfadonha.
“É como se o prazer da mulher não fosse necessário, nem importante”
A solução foi uma montagem intimista, em que duas atrizes contam essas histórias para o público, brincando com as linguagens e gêneros da dramaturgia, entrando e saindo de personagens diferentes em diversas cenas e provocando gargalhadas deliciosas (em mim e em grande parte dos meus 31 companheiros de platéia).
A partir do mergulho que a atriz fez na história, pedi à Luisa que enumerasse cinco vezes em que o patriarcado atrapalhou o nosso bem-estar:
1. O clitóris
“O prazer feminino é o maior bem-estar que a gente pode ter fisicamente. Essa desinformação histórica em relação ao órgão é um grande desserviço, porque a única função do clitóris é nos dar prazer. Ele não é apenas aquele pontinho, ele tem até 10 centímetros. E talvez, por isso, tenha sido tão negligenciado. É como se o prazer da mulher não fosse necessário, nem importante. Então, para mim, o primeiro ponto é esse: o patriarcado nos tirou a consciência de que o clitóris existe única e exclusivamente para que a gente tenha prazer. E passamos o século XX inteiro (sim!) sem olhar para o clitóris na anatomia humana. Seu tamanho só foi descoberto em 1998”.
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2. Orgasmo clitoriano x orgasmo vaginal
“Está claro que Freud é maravilhoso e tem imensas contribuições para a humanidade. Mas essa fase em que ele resolveu falar sobre o orgasmo feminino como se mulheres imaturas tivessem orgasmos clitorianos e as maduras vaginais confundiu todo mundo. Isso está a serviço de uma dependência do falo, sabe? Como se uma mulher só fosse validada se ela tem um pênis ali para complementá-la na sua maturidade. Essa ideia foi derrubada a partir do momento em que o clitóris foi entendido como um órgão maior, que é capaz de te dar prazer de várias formas.”
3. Jean Paul Sartre e o buraco
“No livro O Ser e o Nada, Sartre diz assim sobre a genitália feminina: antes de tudo, o sexo é um buraco. Ele fala que a mulher tem crise de autoestima porque precisa de uma carne que a penetre para só assim ser um ser integral. Quer dizer, quando chama a nossa genitália de buraco, ele nos faz acreditar que esse buraco precisa ser completado. Se você levar isso às máximas consequências emocionais e sociais, é a mulher sempre precisando de um cara. É uma ideia muito limitada do que a gente pode ser. E digo limitada para não dizer agressiva.”
A ignorância sobre a vulva fez com que a gente a achasse a meio feia
4. Vulva x vagina
“Quando li o livro, não sabia a diferença. Hoje já está mais difundido, mas essa ignorância sobre a parte externa do órgão feminino fez com que a gente achasse a nossa vulva meio feia, né? Muitas mulheres têm crise, o Brasil é campeão em cirurgia plástica de vulva para mudar a estética, porque a gente não se aceita. Isso também se deve à falta de representação dela. Por exemplo, a Nasa mandou para o espaço o desenho de uma mulher nua e ela não tem o risco no meio da vulva: assim como bonecas, assim como vários desenhos, têm só um triângulo. O risquinho é o sinal de que existem coisas fora, os lábios”.
5. Menstruação
“A menstruação ser tratada como tabu é puramente patriarcal. Em sociedades mais antigas, em que a mulher tinha um status mais elevado de poder e de influência, ela era mais normalizada. A minha geração, pelo menos, cresceu com muita vergonha, com muita necessidade de esconder o absorvente, de não poder falar sobre isso. As meninas mais novas já estão tirando de letra isso, muito melhor. Mas, de alguma maneira, a gente carrega essa vergonha, um medo de vazar, de alguém ver uma mancha vermelha. Isso para mim, quando garota, era o pior pesadelo.”