Minha história com a dislexia não é de sofrimento, mas de como aprendi a aprender
Quando a escola insiste num único jeito de ensinar, muita gente cresce achando que o problema está nela — não no sistema. A apresentadora Ana Paula Xongani fez um caminho diferente. Neste relato, ela conta como acolhimento de um lado e desigualdade do outro impactaram afetaram a sua dislexia.
Sei que isso pode soar estranho, porque o mundo gosta de narrativas apelativas, atreladas à dificuldade extrema, à superação heroica, à dor que legitima; especialmente quando se trata de uma mulheres negras. Mas não é assim que me reconheço. Fui diagnosticada disléxica aos oito anos, na 2ª série. Antes, na 1ª, eu já vinha me percebendo fora do ritmo, especialmente na sala de aula. Pela primeira vez, algo que parecia simples para todo mundo não era para mim. Isso poderia ter virado uma ferida, culpa ou sensação de que havia algo errado comigo. Mas não foi o que aconteceu.
Sempre me senti um ser completo, o diagnóstico só me ajudava a me entender melhor.
Minha mãe foi quem percebeu primeiro. Ao escutar sobre dislexia no Programa do Jô na TV, ela se reconheceu. A partir desse autorreconhecimento, ela – que já desconfiava que havia algo comigo – passou a olhar para mim com atenção redobrada. Em seguida, veio o acolhimento, o movimento de investigação e a readaptação familiar à nova realidade.
Talvez, por isso, o diagnóstico não chegou como falta, mas como explicação ou mais uma peça de um quebra-cabeça que, para mim, sempre foi inteiro. Afinal, sempre me senti um ser completo, aquilo só me ajudava a me entender melhor.
É importante dizer que a experiência positiva que tive durante a construção do diagnóstico não foi obra do acaso. Essa memória linda – que guardo até – é resultado de privilégios pouco nomeados quando se fala de saúde mental: do diagnóstico precoce, do acompanhamento especializado e adequado e do acolhimento familiar. Foi com muito esforço financeiro que meu pai garantiu os exames necessários, enquanto minha mãe inventava formas de me ensinar com o que tinha (barbantes, pregadores, o cotidiano) e, meu irmão foi estimulado a me ler e respeitar meu ritmo.
Foi esse ambiente que me sustentou. Ocorre que esse mesmo ambiente também era atravessado por ausências que não eram nossas, mas estruturais. Apesar de ter crescido em uma família preta, potente, presente, inventiva, o inglês não fazia parte das nossas ferramentas. Não era uma linguagem do nosso cotidiano e estava fora das nossas possibilidades naquele momento. Não porque faltasse interesse ou capacidade, mas porque o Brasil organiza o acesso às coisas de um jeito muito desigual.
Então, de um lado, eu tive tudo o que era essencial para me entender, me desenvolver, me sustentar. De outro, havia mundos que não estavam disponíveis – e isso diz muito sobre como a gente constrói o que, distraídos, chama de “preparo”. A escola não estava preparada para mim. E, honestamente, ainda não está para muita gente. Existe uma precariedade flagrante na forma como entendemos a diversidade, seja ela cognitiva, racial ou social. O sistema educacional e o ambiente corporativo ainda operam dentro de uma lógica única de inteligência, de ritmo, de desempenho. Quem não se encaixa, precisa correr atrás. Eu corri, mas não sozinha.
Muito cedo, eu entendi que precisaria aprender a aprender. Sabia que, dentro da sala de aula, talvez não absorvesse tudo. Mas aquilo que eu capturava precisava ser suficiente para que, depois, construísse o restante do meu jeito, com os meus. Pensando bem, a dislexia até me trouxe faltas. Mas, ao mesmo tempo, me treinou em um processo constante de compensação. Minha oralidade se fortaleceu. Minha capacidade de comunicação, de interação, de leitura de mundo sempre estiveram em crescente aprimoramento. Fui desenvolvendo outras formas de me fazer inteligente.
E, ainda hoje, o mundo insiste em não estar preparado. Hoje, aos 38 anos, estudar inglês tem sido um novo desafio, e também um ponto de virada. Outro dia, durante uma das aulas, me vi emocionada ao perceber que tinha encontrado um jeito só meu de entender algo que sempre me pareceu complexo demais. Foi nesse momento que decidi compartilhar essa experiência.
Não sou eu que estou fora do padrão, é o padrão que continua excluindo muita gente
Porque o inglês virou uma régua de validação, especialmente no mercado de trabalho. Uma exigência que, muitas vezes, não tem relação direta com a função, mas que serve como filtro. E a gente sabe quem costuma ficar de fora desses filtros. Para pessoas negras, isso pesa ainda mais. Para nós, não é só sobre aprender uma língua, mas também sobre correr atrás de algo que, historicamente, não esteve disponível nos nossos ambientes de formação. É acessar, na vida adulta, uma ferramenta que nunca foi tratada como básica para nós.
Estudar inglês, para mim, é também atravessar essa estrutura. Criar estratégias, lidar com frustrações, reorganizar o aprendizado mais uma vez. Mas agora com uma consciência mais nítida: não sou eu que estou fora do padrão, é o padrão que continua excluindo muita gente.
A minha relação com a dislexia nunca foi sobre falta. É sobre linguagem: foi e segue sendo meu desafio pessoal de aprender e encontrar caminhos próprios, aqueles que eu reconheça como válidos e que possam me levar à inteireza. Da mesma forma, o Brasil precisa encontrar esses mesmos caminhos para fazer das diferenças seu bem mais valioso.