O uso de canetas emagrecedoras pode afetar prazer e motivação? - Mina
 
Suas Emoções / Reportagem

O uso de canetas emagrecedoras pode afetar prazer e motivação?

As canetas emagrecedoras prometem silenciar a fome. Mas algumas mulheres relatam que, junto com ela, parecem desaparecer também o prazer, o desejo e a vontade de quase tudo — como se a vida entrasse num modo “tanto faz”. Investigamos o que a ciência já sabe e o que ainda tenta entender sobre esse possível achatamento emocional.

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Há algum tempo a vida anda “sem gosto” para Suelen Roman, de 38 anos. E ela demorou a se convencer de que esse não era um sentimento passageiro ou influenciado por contratempos pontuais. Suelen vive assim, “meio tanto faz”, há pelo menos um ano. “É como se uma chavinha tivesse virado dentro de mim. Sinto um desânimo estrutural. Quase nada me instiga, me pego me arrastando para fazer coisas cotidianas. Se antes carregava um brilho no olhar para as coisas que amo, hoje nem elas me emocionam mais.”

Um conjunto mais sutil de experiências tem vindo à tona com a expansão do uso das canetas emagrecedoras

Os sinais a fizeram buscar respostas médicas. Primeiro uma investigação de possível perimenopausa. Havia fadiga, havia certa depressão, a idade poderia colaborar (é mais raro, mas mulheres podem entrar nessa fase antes dos 40). Será que tudo em seu corpo estava respondendo como deveria? Os exames disseram que sim. Ao menos, não havia nada que explicasse a falta de graça pela qual tudo passava.

Foi quando a endocrinologista que a acompanha sugeriu que o Wegovy – medicamento com foco em perda de peso e controle de apetite – que Suelen aplica desde o início de 2025 poderia estar gerando o mal-estar. Segundo a médica, outras pacientes já tinham reclamado de sensações parecidas, de sentirem um “achatamento emocional”. Ainda segundo ela, apesar dos relatos em sua clínica, nenhum estudo trouxe até agora que os medicamentos agonistas de GLP-1, ou seja, Ozempic e Wegovy (Semaglutida), Saxenda e Victoza (Liraglutida) e Mounjaro (Tirzepatida), possam ser responsáveis pelos sintomas. 

“Nesse dia cheguei em casa e pesquisei na internet histórias como a minha. Descobri mais mulheres que tomavam essas medicações com queixas de desânimo agudo”, conta Suelen. “Foi um alívio por um lado e uma prisão por outro. Então se eu quisesse devolver a alegria para o meu humor, bastava tirar a semaglutida da rotina? Fiz o teste por duas semanas e, juro, comecei a me sentir outra”, compartilha.

Uma busca no TikTok pelo termo em inglês “ozempic personality” confirma a fala de Suelen. Outro termo é “anedonia”, ou a perda da capacidade de sentir interesse em atividades que antes eram agradáveis. Na plataforma, o resultado para ambos são conteúdos que relatam uma espécie de embotamento emocional, e não apenas à comida, mas também a outros prazeres, como ler, ouvir música, dançar — e até sexo – por quem usar esses medicamentos para emagrecimento.

Com Agnes*, de 34 anos, foi assim. “Como explicar que passei a sentir uma desconexão com as coisas? É fácil confundir o que eu sentia com falta de vitaminas ou depressão, mas nenhuma coisa e nem outra foi confirmada para mim. Quando me vi sem libido por meses a fio, fiquei assustada. Tinha perdido 10 quilos, estava mais à vontade com meu corpo, por que logo agora o sexo era algo que eu não fazia questão nenhuma?”.

Depois de uma bateria de exames – que não entregaram nenhuma irregularidade –, Agnes foi consultar o endocrinologista que prescreveu a ela o Mounjaro. O médico foi categórico: ela definitivamente não era a primeira paciente a reclamar de uma apatia generalizada.

Ainda não há evidência científica

A classe de medicamentos GLP-1, baseada em compostos que imitam hormônios envolvidos na regulação do apetite e da glicemia, é geralmente considerada segura. Seus efeitos metabólicos foram minuciosamente analisados, mas seu impacto psicológico é muito menos compreendido. Com a expansão do uso das chamadas canetas emagrecedoras, um conjunto mais sutil de experiências tem vindo à tona. 

A endocrinologista Maria Edna Melo, do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, pondera que o cenário que domina sua clínica não compreende as apatias. “De modo geral, os efeitos sobre a autoestima são mais positivos do que negativos. E essa melhora costuma se desdobrar em hábitos mais saudáveis, menos compulsão por comida, mais disposição para se exercitar.”

Ainda assim, a médica não descarta o que dizem Suelen e Agnes. “Quando medicamentos começam a ser usados em larga escala, é comum que apareçam experiências individuais que fogem do padrão”, diz ela. Para esses casos, a orientação é tratar cada quadro de forma singular, investigando quais outros fatores da vida podem contribuir para o mal-estar. 

Existe uma plausibilidade biológica para o fenômeno: a medicação age em regiões do sistema nervoso central ligadas à recompensa. É o que explica um dos efeitos mais relatados por quem usa as canetinhas: o silenciamento do chamado “food noise”, o barulho mental constante em torno da comida — o que comer, quanto, quando. Com os GLP-1, esse ruído simplesmente some. E as mesmas vias que explicam esse efeito são as que levaram estudos a comprovar reduções no consumo de álcool e nicotina.

Essa relação entre os GLP-1 e a diminuição de comportamentos compulsivos é, aliás, um dos campos de pesquisa mais promissores da área. Mas é também onde a fronteira entre o que se sabe e o que se especula começa a ficar tênue.

“A disseminação dos relatos nas redes sociais cresce, mas isso não é o mesmo que evidência científica”, pondera Luciana Verçoza Viana, endocrinologista do Departamento de Medicina Interna da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Para ela, os relatos existem e merecem atenção, mas precisam ser lidos com método. “Para que um sintoma se torne evidência, são necessários estudos que o avaliem com rigor. Os relatos podem ou não se traduzir em sintomas clínicos. Por ora, não podemos afirmar que exista um perfil de pacientes mais suscetíveis a esse embotamento.” É uma distinção importante, especialmente num momento em que vídeos no TikTok constroem narrativas que parecem consenso.

Um estudo publicado na revista Brain Science em 2024, feito justamente a partir de relatos coletados em redes sociais, investigou o impacto dos análogos de GLP-1 em comportamentos compulsivos, uso de substâncias e libido. Os próprios autores foram enfáticos ao apontar os limites desse tipo de dado: escuta ampla, mas sem o controle necessário para isolar causas.

Isso não significa que os casos de Suelen e Agnes sejam invenção ou exagero. Significa que a medicina ainda não tem instrumentos suficientes para dizer, com precisão, o que pertence à medicação e o que pertence ao contexto de vida de cada paciente. 

“Acredito, sim, que exista relação com o mecanismo farmacológico de ação dessas medicações no cérebro”, diz Luciana. “As áreas de recompensa são muito próximas, e existem receptores para os análogos de GLP-1 em regiões adjacentes.” Mas ela também aponta que, em sua prática clínica, a maior parte das interrupções do tratamento ocorre por efeitos gastrointestinais ou pelo custo da medicação, não por anedonia. 

Se identificou? 

A primeira resposta fazer é: não interrompa a medicação por conta própria. A segunda é: fale com quem te prescreveu, sem minimizar o que sente. “Se o prescritor acredita que esse possa ser um efeito colateral da medicação, a primeira coisa a fazer é reportá-lo”, orienta Luciana. No Brasil, isso pode ser feito pelo sistema de farmacovigilância da Anvisa (o VigiMed), que recebe notificações de suspeita de reações adversas a medicamentos diretamente de pacientes e profissionais de saúde. Quanto mais relatos qualificados chegam, mais robusto fica o banco de dados que, no futuro, pode ajudar a estabelecer ou descartar essa associação.

Por enquanto, o que existe é uma lacuna e, dentro dela, mulheres tentando nomear algo que sentem mas a ciência ainda não registra. Suelen voltou a usar a semaglutida em dose menor. Agnes pausou o Mounjaro e mantém o peso que perdeu cuidando da alimentação e fazendo exercício. Nenhuma delas encontrou até agora a resposta para o que sentiram.

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