Antes de abrir a relação, vale se perguntar: existe mesmo uma para abrir? - Mina
 
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Antes de abrir a relação, vale se perguntar: existe mesmo uma para abrir?

Para a psicóloga e terapeuta sexual Ana Canosa, o verdadeiro teste é saber se ainda há vínculo, confiança e desejo suficientes para sustentar novos arranjos afetivos como os da não monogamia

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Quando um casal decide abrir o relacionamento, é porque descobriu que faz sentido viver uma relação não monogâmica ou porque espera que uma terceira pessoa resolva problemas que já existiam entre os dois?

Essa é uma conversa importante. Não porque a não monogamia tenha virado moda, mas porque ela convida a questionar ideias que durante muito tempo pareceram naturais: a de que uma única pessoa deveria dar conta de todas as nossas necessidades afetivas, sexuais e emocionais; a de que amor e exclusividade são sinônimos; a de que o casal precisa funcionar como uma unidade fechada.

“Não basta que um dos parceiros ache a ideia interessante. É preciso que ambos compartilhem uma compreensão parecida sobre fidelidade, exclusividade, desejo e compromisso

Autoras como Geni Núñez lembram que essas crenças não nasceram do acaso. Elas também serviram para sustentar modelos de família, propriedade e controle sobre os corpos, especialmente das mulheres. A não monogamia, portanto, não é uma invenção contemporânea. Relações não monogâmicas sempre existiram — algumas construídas de forma ética e consensual, muitas outras vividas às escondidas, como mostram as inúmeras histórias de infidelidade. A diferença está menos na existência de outros vínculos do que na forma como eles são compreendidos e negociados.

Mas uma coisa é considerar a não monogamia um valor coerente com a maneira como se enxerga o amor. Outra, bem diferente, é conseguir vivê-la. Para isso, não basta que um dos parceiros ache a ideia interessante. É preciso que ambos compartilhem uma compreensão parecida sobre fidelidade, exclusividade, desejo e compromisso.

O que significa ser fiel? É possível amar mais de uma pessoa? O desejo precisa terminar quando começa uma relação? Essas respostas não são universais, mas quando um casal responde de maneiras muito diferentes, fica difícil construir um projeto comum.

E mesmo quando existe concordância, há outro desafio: entre aquilo que faz sentido para a razão e aquilo que o coração consegue elaborar existe uma grande distância. Posso acreditar que minha parceria tenha o direito de amar outras pessoas e, ainda assim, descobrir que não suporto vê-la se arrumando, passando perfume e saindo feliz para encontrar alguém.

Ou perceber que dói imaginá-la assistindo a um filme francês numa terça-feira à tarde com outra pessoa, quando, depois de quinze anos de casamento, ela torce o nariz para ver qualquer filme hollywoodiano ao meu lado num domingo. Porque compreender uma ideia é muito mais rápido do que conseguir habitá-la emocionalmente.

É aqui que mora o perigo: intimidade, confiança, segurança, a sensação de ser importante para alguém, de perceber que a outra pessoa continua curiosa sobre nós, interessada em compartilhar a vida e feliz por estar naquela relação não são coisas que acontecem por decreto. Tudo isso leva tempo para ser construído e exige manutenção constante.

Então vale a pergunta: por que tantas pessoas imaginam que abrir o relacionamento vai restaurar justamente aquilo que já não existe entre elas?

Às vezes o casal acredita que o problema é a falta de desejo. Mas nem sempre é. Muitas vezes, o que desapareceu foi a admiração, a conexão, a disponibilidade emocional, a vontade de investir naquele vínculo. E isso não costuma reaparecer porque novas pessoas entraram na história.

É claro que abrir uma relação pode fazer sentido para quem valoriza a pluralidade dos vínculos, gosta da variação sexual, aprecia a sedução e se encanta pela possibilidade de viver diferentes experiências afetivas e eróticas. Nesse caso, a abertura faz parte de um projeto de vida compartilhado.

Outra coisa, bem diferente, é quando um dos parceiros deseja abrir e o outro aceita por medo de perder a relação, para evitar uma separação ou na esperança de recuperar um desejo que já se perdeu. A abertura deixa de ser uma escolha livre e pode se transformar em mais uma forma de renúncia.

Esse talvez seja um dos dilemas mais universais das relações humanas: suportar que o desejo do outro nem sempre aponta para nós. Não é apenas aceitar que o parceiro tenha desejo por outra pessoa. É conviver com a pergunta silenciosa que aparece quando ele deseja alguém, mas já não deseja você.

Nessas situações, abrir a relação pode ampliar as possibilidades sexuais de quem fez o pedido. Mas dificilmente aliviará o sofrimento de quem continua esperando reconhecimento, desejo e escolha dentro da própria relação.

Nem todo casamento é sustentado pelo desejo. Há casais cuja principal cola é a amizade, a parceria, a história compartilhada, os filhos, o projeto de vida ou até a conveniência. E isso não é, necessariamente, um problema — desde que ambos reconheçam esse pacto.

Talvez a pergunta nunca tenha sido se abrir o relacionamento salva um casamento. A pergunta é outra: existe casamento suficiente para sustentar uma abertura?

Quando um casal decide viver a não monogamia porque compartilha valores, conversa sobre seus limites, reconhece seus medos e constrói confiança ao longo do tempo, a abertura pode ser apenas mais uma forma possível de amar.

Mas quando ela surge como tentativa desesperada de recuperar um desejo perdido ou evitar dores que pertencem à própria relação, dificilmente fará esse trabalho.

Porque ninguém encontra do lado de fora aquilo que deixou de existir entre duas pessoas. Antes de abrir a relação, talvez seja preciso perguntar se ainda existe uma.

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