A guerra contra o sofrimento fracassou
Vivemos em uma época que promete soluções para quase todo desconforto, Mas algumas dores não são problemas a serem eliminados, e sim, experiências a serem atravessadas. Especialistas contam como.
“Precisamos reaprender a sofrer”. É assim que Daniel Martins de Barros, psiquiatra e escritor, abre o livro “Sofrimento não é doença: nem todas as dores precisam de remédio, mas todas precisam de cuidado”. A proposta pode soar estranha em um tempo que valoriza a produtividade, a felicidade constante e as respostas rápidas, fazendo qualquer dor ser encarada como algo que precisa ser eliminado o quanto antes, mas justamente por isso é relevante.
“Tentar evitar a dor a todo momento elimina a própria vida”
“Quando nos iludimos achando que o sofrimento foi resolvido pela ciência, tecnologia e medicina, começamos a achar que ele não tem lugar em nossa vida, que é um intruso”, aponta. Para o autor, porém, o sofrimento não é um erro do sistema nem algo necessariamente patológico. Muitas vezes, ele funciona como um sinal de alerta de que algo está nos desgastando e precisa de atenção.
É natural tentar se proteger. O problema surge quando qualquer sofrimento passa a parecer insuportável e o esforço para evitá-lo começa a orientar as decisões. Nesse cenário, o desconforto deixa de ser apenas uma experiência humana e passa a ser tratado como algo que precisa ser corrigido imediatamente. “Tentar evitar a dor a todo momento não elimina a dor da vida. Pelo contrário, elimina a própria vida”, defende Marcela Bohn, psicóloga especialista em Terapia da Aceitação e Compromisso.
Isso porque muitas das experiências que dão sentido à existência envolvem algum grau de vulnerabilidade. Dar um novo passo na carreira exige conviver com a possibilidade de fracassar. Entrar em um relacionamento implica correr o risco da rejeição. Defender uma ideia pode trazer críticas.
Quando o objetivo passa a ser não sofrer, a tendência é evitar justamente as situações que poderiam levar ao crescimento, ao afeto ou à realização. O resultado é uma vida cada vez mais restrita que, veja só, também produz sofrimento. Por isso, Marcela propõe refletir: “Qual dor vale a pena em prol do que é importante para mim?”.
A mesma lógica aparece em situações cotidianas. Sabe aquela sensação de esgotamento depois do trabalho? Você percebe que está no limite, mas, em vez de escutar o que aquele mal-estar está tentando comunicar, busca algum alívio imediato para seguir funcionando — como um remédio, por exemplo.
O desconforto até diminui por algumas horas, mas a causa continua ali. Dar atenção a esse sofrimento pode ser justamente o que permite identificar um problema antes que ele se torne maior. “Precisamos aprender a lidar com o sofrimento, enfrentá-lo e reconhecê-lo, não porque seja bom, mas porque queremos que ele vá embora o mais rápido possível”, afirma Daniel no livro.
Nem sempre existe um diagnóstico
Se todo sofrimento passa a ser encarado como algo que precisa desaparecer imediatamente, surge outro risco: interpretar qualquer mal-estar como sinal de uma doença. Afinal, se a dor não deveria existir, então ela deve indicar que algo está errado.
Burnout, TDAH, depressão. Em um momento em que a linguagem da saúde mental se popularizou, ela também passou a ser usada para explicar experiências muito diferentes entre si. Isso não significa que transtornos mentais não existam ou que diagnósticos não sejam importantes. A questão é que nem todo sofrimento tem origem em uma doença. Às vezes, ele é uma resposta compreensível a condições de vida difíceis, jornadas de trabalho excessivas, relações desgastantes ou expectativas impossíveis de sustentar.
No livro, Daniel cita o caso de um paciente que acreditava ter TDAH por não conseguir manter o mesmo ritmo de produtividade de antes. O problema, porém, não estava em um contexto que exigia mais do que uma pessoa consegue entregar. “Ficamos inadaptados, não por falha nossa, mas porque a demanda está fora do normal. Isso gera um sofrimento que achamos ser patológico”, explica. Por isso, antes de perguntar apenas qual é o diagnóstico, talvez seja preciso perguntar o que aquele sofrimento está tentando dizer. Um profissional pode ajudar nesse processo.
Como sofrer “melhor”?
Não vai dar pra eliminar totalmente o sofrimento da vida, mas dá para lidar de forma mais funcional e saudável.
. Aceitar que o sofrimento existe: Muitas vezes, o sofrimento não vem apenas da situação difícil em si, mas também da resistência a ela. Além da dor, existe a frustração de estar sofrendo, a sensação de que aquilo não deveria estar acontecendo. “Uma das maneiras de diminuir essa camada extra de sofrimento é resgatar a ideia de que sofrer faz parte da vida”, escreve Daniel. Quando entendemos que o sofrimento é uma experiência humana inevitável — e não um sinal de fracasso ou anormalidade —, ele tende a se tornar mais suportável.
. Dar sentido ao sofrimento: Lembra da pergunta da Marcela: “Qual dor vale a pena em prol do que é importante para mim?”. Para a psicóloga, ter clareza sobre o que realmente importa para você ajuda a não organizar a vida apenas em torno da busca por conforto. “É importante definir bem os seus valores para que a vida não gire apenas em torno de evitar o sofrimento, mas para que esses valores se tornem protagonistas”, afirma. Afinal, nem toda dor é um sinal para recuar. Algumas são consequência natural de perseguir aquilo que faz sentido para nós.
. Dividir o sofrimento: “Sofrer é ruim, mas sofrer sozinho é muito pior”, destaca o autor. As relações têm um papel essencial no processo de aceitação do sofrimento. Seja um terapeuta ou uma rede de apoio, é importante ter pessoas que te escutem, validem sua dor e estejam ao seu lado para elaborar esses sentimentos. “A psicoterapia vai ajudar a entender de que forma a pessoa está se relacionando com as próprias emoções, para planejar intervenções em direção a valores e coisas significativas para ela, desenvolvendo flexibilidade psicológica”, esclarece a especialista.
. Cuidar da mente e do ambiente: O sofrimento não surge apenas de dentro para fora. Ele geralmente está relacionado aos contextos em que vivemos, às relações que construímos e às cobranças que enfrentamos. Por isso, cuidar da saúde mental envolve tanto olhar para si quanto para o ambiente ao redor.