Elas não querem ser cientistas - Mina
 
Nosso Mundo / Reportagem

Elas não querem ser cientistas

O que o Brasil perde ao não incentivar suas meninas a ingressarem nas áreas de ciência e tecnologia (STEM)

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O Brasil tem mais de 19 milhões de meninas entre 10 e 19 anos, mas será que estamos realmente aproveitando o potencial dessas jovens? Com as rápidas mudanças no mercado de trabalho, a participação feminina nas profissões do futuro é mais importante do que nunca. No entanto, o que vemos é que essas meninas estão se afastando das áreas que mais irão crescer, como Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM, na sigla em inglês).

O aumento da participação feminina no mercado, pode aumentar o PIB em até R$ 2 trilhões em 2028

A psicóloga Carol Dweck, renomada por suas pesquisas sobre a formação de mentalidade de crescimento, explica que nossas crenças sobre nossas próprias habilidades começam na infância. Para muitas meninas, essas crenças são moldadas por estereótipos de gênero que as afastam de carreiras tecnológicas e científicas. O que a sociedade diz, direta ou indiretamente, é que áreas como engenharia, ciência e tecnologia são “coisas de homens”, criando uma barreira psicológica para que as meninas considerem essas profissões como viáveis para elas.

Essa realidade impacta não apenas o desenvolvimento pessoal das meninas, mas também o futuro econômico do Brasil. De acordo com o McKinsey Global Institute, a automação poderá eliminar até 20 milhões de empregos no Brasil até 2030, sendo muitos deles em áreas de baixa qualificação. As profissões de alta qualificação, principalmente nas áreas de STEM, são as que mais crescerão. Se o Brasil aumentar a participação das mulheres no mercado de trabalho dos atuais 43,5% para 49% até 2028, poderíamos ver um aumento de até R$ 2 trilhões no Produto Interno Bruto (PIB). A chave para isso está em preparar mais meninas, especialmente as de comunidades vulnerabilizadas, para profissões de alta demanda e alto impacto.

Mas, a realidade das escolhas profissionais das meninas no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) não aponta para esse caminho. Apesar de as mulheres representarem 51,9% dos candidatos no Enem de 2023, suas escolhas de carreira estão distantes das áreas que mais crescerão. Apenas 18% das mulheres optaram por Engenharia e 12%, por Tecnologia. Enquanto isso, mais de 70% se inscreveram em cursos de Saúde e Ciências Sociais. Para essas áreas, essenciais, é prevista expansão mais modesta, quando comparada à das áreas de inovação, que estão moldando a economia global.

Esse padrão não reflete falta de interesse ou capacidade das meninas, mas sim uma falha estrutural. Nas escolas, muitas vezes as meninas não são incentivadas a explorar as possibilidades oferecidas pelas ciências e pela tecnologia. Elas crescem em um ambiente onde as ciências são vistas como um campo masculino. É aí que a mudança precisa começar.

O que dizem as meninas? 

Em 2023, a Força Meninas conversou com mais de 1.400 garotas de todas as regiões do Brasil. A pesquisa Meninas Curiosas, Mulheres de Futuro* revelou dados alarmantes: 60% das meninas se sentem desmotivadas a seguir carreiras em STEM, e 45% acreditam que essas profissões são “predominantemente masculinas”. O abismo entre o que elas desejam e o que a sociedade delas espera começa na escola, justamente onde os professores têm um papel crucial para moldar o futuro dessas meninas. 

A conscientização dos educadores é essencial. Muitas vezes, até sem perceber, os professores reforçam estereótipos de gênero, limitando o horizonte das meninas. É urgente capacitar os educadores para reconhecer e combater esses vieses, criando um ambiente onde as meninas sintam que as profissões científicas e tecnológicas são para elas assim como são para os meninos. Isso é ainda mais determinante para meninas de comunidades vulnerabilizadas, que raramente têm acesso a modelos de sucesso feminino nessas áreas.

A falta de referências femininas dentro da rotina das crianças também é um agravante. O estudo de Força Meninas revela ainda que 62% das meninas dizem desconhecer pessoas que trabalham nas áreas de STEM, indicando que a falta de representatividade, encorajamento e oportunidades são as principais barreiras enfrentadas pelas garotas hoje.

O Brasil não pode mais se dar ao luxo de excluir as meninas das áreas de maior impacto econômico. O futuro do país depende da capacitação de suas futuras gerações para as profissões que dominarão o mercado de trabalho. A inclusão das meninas nas áreas de STEM não é apenas uma questão de igualdade de gênero, mas também de crescimento econômico. O momento de agir é agora. Ao investir na formação dessas meninas, o Brasil estará investindo no seu próprio futuro.

O verdadeiro impacto virá quando tivermos a articulação de  uma política pública nacional, que compartilhe a responsabilidade com todos: com governo, empresas e organizações da sociedade civil. O modelo de colaboração entre diferentes setores já mostrou bons resultados em países como a Coreia do Sul e a Índia. Na Coreia, 30% dos engenheiros são mulheres, um número muito acima da média global. O Brasil deve seguir esse exemplo e criar políticas públicas que integrem a educação em STEM desde a infância.

Como garantir oportunidades para meninas em vulnerabilidade?

Garantir que meninas em situação de vulnerabilidade social ingressem nas áreas de STEM não é apenas uma questão de inclusão educacional, mas de dar a elas uma oportunidade real de ascensão social e mobilidade econômica. As carreiras em tecnologia e inovação oferecem as melhores condições de trabalho e salários. Ao integrar mais meninas nessas áreas, o Brasil estará não só combatendo a desigualdade de gênero, mas também criando condições para o crescimento econômico sustentável do país.

Mudar essa história é possível — eis algumas ações comprovadas que podem mudar essa realidade:

  • Criação de políticas públicas robustas e parcerias público-privadas: integrar iniciativas como a Expedição Meninas Curiosas, Mulheres de Futuro e Futuras Cientistas em políticas públicas nacionais para gerar resultados a médio e longo prazo.
  • Promover parcerias entre o setor privado e Estados e municípios: Empresas devem investir localmente, onde atuam, para fomentar o desenvolvimento da população. Com esta perspectiva,  programas de mentoria, estágios e bolsas de estudo direcionados podem promover  acesso real  a oportunidades transformadoras para meninas de comunidades vulneráveis. Mas para isso, não podemos importar soluções; é preciso colaborar, pensar e criar programas que falem com elas e para elas.
  • Implementar um programa federal para incentivar a inclusão feminina em STEM: criar incentivos fiscais, como a Lei do Bem, para estimular empresas a investirem na educação de meninas em STEM é uma ótima opção para alavancar uma força de trabalho para mudar essa realidade.
  • Investir na formação de professores em inclusão de gênero: capacitar educadores para reconhecerem e combaterem os vieses de gênero nas escolhas de carreira também é uma estratégia chave. É preciso uma rede de aliados para mudar de maneira eficiente o sistema.

A mudança também pode partir de nós mesmos. No momento mais crítico da vida estudantil de tantos jovens, quando é feita a escolha do curso para o aproveitamento da nota do Enem, devemos incentivar nossas meninas e mulheres a trilharem um caminho em carreiras STEM, capazes de  ampliar possibilidades de futuro, mais promissoras e estratégicas para elas, para o país e para o mundo.

*A plataforma de impacto social Força Meninas realiza desde 2022 a expedição itinerante Meninas Curiosas, Mulheres de Futuro, que já impactou mais de 65 mil alunos em 27 cidades e 23 estados brasileiros.

Fontes:

IBGE (2023) – Taxa de Desemprego por Gênero e Raça.

McKinsey & Company (2020) – Women in the Workplace.

Tech Women, Índia.

Força Meninas – Pesquisa Meninas Curiosas, Mulheres de Futuro.

Ministério da Educação (MEC) – Programa Mulheres na Ciência.

Google e Microsoft – Programas Educacionais em STEM para Meninas.

Inep (2023) – Estatísticas do Enem.

OIT (2022) – Women in Technology – Relatório Global.

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