Verônica, do Faxina Boa: “Sempre me perguntei porque ser eu mesma gerava tanto incômodo nos outros”
A vida de Verônica Oliveira teve pontos de reviravolta e, nessa jornada, se aceitar foi um dos grandes desafios. Através de oito fotos ela conta como tem sido habitar esse corpo
Nascida na Bahia, mas paulistana raiz, Verônica Oliveira, conhecida pelo seu perfil Faxina Boa, cresceu na região central de São Paulo, entre os bairros de Santa Cecília e Vila Buarque. Sempre muito moleca, nunca entendeu o incômodo das pessoas com seu estilo de vida autêntico.
Rockeira de primeira, na adolescência, sustentava seu look todo preto mesmo em um calor de 40º graus. E ela confessa que sempre deu trabalho para a mãe. “Aos 15 anos, eu já tinha piercing no nariz, mas tirei quando minha mãe disse que ia arrancar ele fora”, conta.
A vida de Verônica teve alguns pontos de reviravolta: uma gravidez aos 18 anos, que trouxe 35 quilos a mais; uma demissão que a levou ao fundo do poço, quando quis, inclusive, acabar com a própria vida e uma faxina na casa da amiga que a colocou no trilho que do sucesso na internet. Altos e baixos que, hoje, ela entende fazerem parte do processo. Por meio de oito fotos, a criadora de conteúdo, escritora e palestrante conta como foi habitar seu corpo e sua mente ao longo desses 43 anos.

“Dei alho para minha irmã comer e disse que era chocolate branco”
Mais velha de quatro irmãos, Verônica nunca disfarçou seu gênio forte. “Minha avó sempre me dava as coisas que eu queria”, diz. Na infância, lembra de sempre brincar em uma praça na frente de casa e frequentar uma biblioteca local. “Lá tinha atividades culturais, como peças de teatros, eventos e workshops de fazer origami”, diz. A menina Verônica não deixava barato para os irmãos. Com ela, não tinha essa de ser a mais velha e ser o exemplo. “Bagunçava geral e botava a culpa neles. Uma das piores coisas, foi quando dei um pedaço de alho para minha irmã comer e disse que era chocolate branco”.

“Alisei o cabelo pra ficar igual as outras meninas”
Verônica estudou a vida toda em uma escola de freiras, mas nunca se encaixou nas normas rígidas da instituição. “Minha mãe foi chamada para falar sobre meu comportamento porque sempre tive um jeito mais de moleque mesmo, e ela respondia a altura, com deboche, piadas”, diz.
Nesse colégio, havia poucas pessoas negras. “Eu me sentia diferente por não ter uma franja igual as outras meninas. Era bem difícil, e acabei alisando o cabelo por conta disso”. Filha de mãe branca, Verônica reconhece que, na época, sua mãe tentou ao máximo que ela entendesse que não precisava querer ser outra pessoa para se sentir bem.

“Piercing no umbigo nem pensar, eu era rock’n’roll”
Na adolescência, Verônica já tinha alisado o cabelo e ansiava por um piercing na língua. “Aos 15 anos, eu já tinha colocado piercing no nariz, tirei quando minha mãe disse que arrancaria ele fora. Mas como na época não precisava de autorização, fui lá e coloquei o piercing na língua”. Ela conta que, só não considerava colocar piercing no umbigo. Rock’n’roll que era, precisava se opor à moda da Carla Perez, musa do axé.
Nessa idade, ela não esperava por ninguém para mudar de visual. “Pintava e alisava tudo sozinha porque meus pais não iam dar dinheiro para fazer essas artes no cabelo”, diz. Verônica conta que seu desejo pela mudança sempre foi para se manter fiel a si mesma. Mas isso não a livrava dos mais variados comentários. “Sempre me perguntei porque ser eu mesma gerava tanto incômodo nos outros”, conta.

“Tinha certeza que iria morrer sozinha e foi aí que engordei 30 quilos”
Aos 22 anos, Verônica viveu uma fase Otaku, morria de amor por animes e mangás. “Estava aprendendo japonês, estava entrando no mercado de trabalho e morava sozinha em uma casa que era do meu pai”, diz. Com essa idade, Verônica já era mãe. “Tive que encarar os olhares na escola, porque engravidei aos 18 anos. Mas minha família me deu todo suporte quando minha filha nasceu”.
Verônica sempre amou esporte, adorava se exercitar. Mas na gravidez manter a rotina foi impossível. “O pai da minha filha terminou comigo, eu tinha certeza que iria morrer sozinha, foi aí que engordei 30 quilos”, diz.

“Eu só comia salgados e ultraprocessados”
Por usar cabelo curtinho, Verônica teve sua sexualidade questionada várias vezes. “Meu cunhado falava que queria ser homem. Eu só ria”, diz. Quando começou a trabalhar com telemarketing, aos 28 anos, não tinha uma rotina de alimentação e nem de atividades físicas. “Eu comia só salgados e ultraprocessados. Percebi que precisava mudar quando precisei correr uma curta distância para não ser atropelada e fiquei ofegante”, conta.
Para reverter essa situação, Verônica acabou recorrendo a uma cirurgia bariátrica. Após a operação, sentiu a diferença de forma muito rápida. “No primeiro ano, emagreci 35kg. Mas demorei muito para me reconhecer mais magra, passei muito tempo indo em lojas de plus size”, conta.

“O mais difícil foi lidar com as sobras de pele”
Após anos de cirurgia, Verônica confessa que, por mais que haja todo um preparo psicológico dos pós-cirúrgicos, ela não estava preparada para um fator: “É muito difícil lidar com as sobras de pele, até hoje é algo que me incomoda bastante. São nove quilos de pele pendurados e, como ela dobra, acaba ficando toda machucada”, conta.
Hoje, o envelhecimento é encarado com mais naturalidade, mas nem sempre foi assim. “Quando apareceu o primeiro fio branco, cheguei no trabalho no dia seguinte com o cabelo pintado de preto”, conta. Ela também já se rendeu ao botox, mas foi só arrependimento. “Apliquei em volta da boca e fiquei com um sorriso travado. Foi ali que entendi o quanto minha risada é uma característica minha. Conseguimos remover e voltei a sorrir”.

“Foi quando fiquei internada que me permiti ser cuidada”
Conhecida por seu perfil Faxina Boa, Verônica entrou nesse ramo após ficar desempregada. “A empresa em que eu trabalhava faliu e minha vida mudou. Fui morar em um cômodo numa pensão e foi ali que tentei o suicídio”, conta. Depois disso, Verônica passou um tempo internada e percebeu o quanto era bem tratada na Clínica. “Me permiti ser cuidada. E ali, entendi como eu não tinha tempo para cuidar de mim, para comer cinco refeições por dia”, conta.
Após sair da clínica, um dia Verônica foi visitar uma amiga, depois de bastante papo, ela, despretensiosamente, começou a fazer uma faxina. “Ela quis me pagar pelo serviço e perguntou se eu ficaria ofendida. Foi aí que tudo começou a mudar”, conta.

“Hoje, sei que me comparar com outras pessoa é muito injusto comigo”
Aos 41 anos, Verônica conta que está em um momento de paz com seu corpo e sua cabeça. “Essa foto foi uma quebra de paradigma, foi aí que parei de tentar ser o que eu era antes de engravidar, porque não tem como. Não dá pra voltar no tempo”, diz.
A exposição na internet trouxe oportunidade e sucesso, mas também fez com que começasse a ver um monte de defeitos em si mesma. Entender que a comparação não é saudável, foi um processo. “Tudo influencia no que sou hoje, e me comparar com uma pessoa com estilo de vida totalmente diferente, é muito injusto comigo”, conta.
“Hoje, quando falo das questões do meu corpo, recebo comentários das pessoas se aceitando e se amando, isso me deixa muito feliz”, diz.



