Como se conectar no amor - Mina
 
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Fast Food do amor

Você sabe diferenciar conexão de vínculo? Entenda o que é intimidade artificial e como ela tem nos dado a falsa sensação de preenchimento, enquanto ficamos cada vez mais solitárias

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Se você se sente sozinha mesmo tendo quatro grupos de amigas, a turma do spinning e uma família numerosa, não se sinta só. Vivemos hoje uma epidemia da solidão. Um estudo realizado em 2023 pela Meta e pela Gallup em 142 países revelou um dado alarmante: uma em cada quatro pessoas no mundo se sente sozinha. E a solidão não é apenas um desconforto emocional, é uma questão de saúde pública: Segundo pesquisa realizada em 2023 pelo médico americano Vivek Murthy a desconexão social tem um impacto na mortalidade semelhante ao de fumar 15 cigarros por dia. Ou seja, de nada adianta termos campanhas anti tabagistas se não tivermos iniciativas pró vínculos de qualidade.

Conectar-se é ter acesso ao outro, vincular-se é aprofundar-se nessa relação

A solidão que vivemos hoje é, de certa forma, um produto do modelo de vida contemporâneo: individualista, autocentrado, hiperfocado no trabalho e amplamente mediado pela tecnologia. Nunca estivemos tão conectados e, paradoxalmente, tão solitários.

A terapeuta belga Esther Perel fala sobre a era das “intimidades artificiais” onde mesmo em uma sociedade que supostamente valoriza as conexões emocionais profundas, as relações se tornaram cada vez mais superficiais, marcadas pela falta de compromisso, vulnerabilidade e disposição para o desconforto e a alteridade.

Em uma de suas palestras no SxSW ela provoca: provavelmente você tem centenas de amigos no instagram e na lista de whatsapp, mas se precisar pedir pra alguém alimentar seus gatos durante a semana em que você viaja, para quem você pediria? Ao ver a fala da terapeuta me lembrei de um leitor de minhas colunas que me parou num bloco pré-carnaval para fazer um desabafo da mesma natureza. Ele havia se divorciado em outubro após 16 anos de relacionamento e, surpreendentemente, estava vivendo bons meses da nova vida ainda que não tivesse sido ele a ter decidido se separar. A tal “nova vida” era repleta de amigos de amigos, rotinas de esportes, viagens, baladas… até que ele precisou fazer uma colonoscopia agora em fevereiro. Sua família mora no interior de SP e ao longo dos últimos 16 anos a ex-mulher era sua companheira de laboratórios. Nesse momento percebeu que de todos os novos amigos, não havia um com quem se sentisse à vontade para falar sobre o exame e pedir companhia. Sim, ele estava vivendo na pele a intimidade artificial.

Na raiz desses conceitos está a diferença entre conexão e vínculo. Conectar-se é ter acesso ao outro; vincular-se é aprofundar-se nessa relação. Hoje, estamos criando conexões, mas não vínculos.

Percebo que parte da dificuldade da criação de vínculos vem do medo que temos de pesar nas relações. Já falamos aqui na Mina sobre anorexia afetiva e recebo relatos frequentes no consultórios de pessoas que se sentem envergonhadas em pedir ajuda ou colo pra amigos em momentos onde estão passando por divórcios, depressão, doenças na família, dificuldade financeira e assuntos do tipo, que não fazem parte daquele papo de whatsapp em que vocês têm a falsa sensação de estar fazendo a manutenção do afeto (sem perceberem que esse é um tipo de fast food do amor – pode até ser gostoso mas não alimenta nem nutre de verdade).

Essa postura está ligada à produtivização no amor. Em tempos de consumismo afetivo estamos querendo ser ótimas mercadorias também para nossas amigas, familiares, namorados e afins. Sabe a lógica do funcionário padrão que já te pergunta na entrada da loja “o que eu posso fazer por você?”? Pois bem… incorporamos esse raciocínio e passamos a acreditar que a força de um vínculo está na nossa capacidade de ser relevante para o outro de maneira prática, servil, funcional. E aqui, a palavra relevância, usada no universo das redes sociais não vem por acaso.

Pra mulher é sempre pior 

Desde cedo entendemos que somos amados pelo que fazemos e não pelo que somos e, aprendemos que para sermos queridos precisamos ser eficientes, transformar o afeto em utilidade. Assim, nos conectamos cada vez mais pelo que fazemos, e menos pelo que sentimos. Confundimos controle com cuidado, amor com performance.  E, para muitas mulheres, isso se traduz em cuidar como forma de amor, em servir. 

E nessa ânsia de otimizar o tempo juntos, acabamos por produtivizar as relações a ponto de não conseguirmos desfrutar delas. O jantar entre amigas precisa ter uma pauta. O primeiro encontro tem que ser incrível. Fazer nada junto parece um desperdício. E, claro, precisamos sempre pensar em algo impactante para impressionar. Entramos numa lógica performática e arrasamos no papel da “nossa melhor versão”: a divertida, a sedutora, a envolvente…

O problema é que a síndrome da impostora vem com força: O desejo de arrasar e impressionar faz com que você ouça menos porque já está formulando o que vai falar em seguida. Isso faz com que você jogue no seguro, construindo uma versão que imagina ser mais interessante – uma mulher independente, inteligente, descolada… Quando, na verdade, o encantamento pode estar justamente na forma como conto sobre o Alzheimer da sua avó.  

Nos esforçando cada vez mais para acertar e garantirmos a manutenção das conexões, estamos errando na construção de vínculos. Vínculos que vem do erro, do vulnerável, do silêncio, do humano.

Dá pra recuperar intimidades reais

O primeiro passo é compreender que intimidade é construída no mundo real. Se queremos relações mais profundas, precisamos nos permitir estar presentes, errar, sentir e nos expor. Isso significa menos edição e mais vulnerabilidade, menos ghosting e mais diálogo, menos likes e mais presença.

Devemos resgatar o hábito de ouvir verdadeiramente. A prática da escuta ativa é essencial para criar vínculos reais. Quando ouvimos o outro sem a intenção de responder ou impressionar, abrimos espaço para um encontro autêntico.

Também é fundamental ressignificar o silêncio e o desconforto. Nem toda conversa precisa ser fluida ou perfeita. A presença, por si só, é um gesto de intimidade.

Finalmente, precisamos lembrar que a vulnerabilidade é a base de qualquer relacionamento significativo. Relacionamentos reais exigem coragem: coragem para se mostrar, para sustentar o olhar do outro, para pedir ajuda, para estar presente.

As intimidades reais não são instantâneas, não são editáveis e não podem ser substituídas por conexões virtuais. Elas são construídas no tempo compartilhado, na escuta verdadeira e na coragem de sermos, de fato, vistos.

A professora Sheila Liming, do Champlain College, em Vermont, escreveu Hanging Out: The Radical Power of Killing Time, um ensaio onde fala sobre como a incapacidade de simplesmente sair para estar com outras pessoas tem alimentado a crise da solidão nos Estados Unidos. “Há uma epidemia de solidão porque não nos atrevemos a passar tempo com os outros sem fazer nada”, diz ela.  

E talvez seja esse o ponto: estamos esquecendo que podemos simplesmente estar. Que o amor não precisa ser uma moeda de troca. Que ele pode existir sem performance, sem agenda, sem estratégia. Apenas porque sim.  

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