Como ativar a sua energia feminista - Mina
 
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Como ativar a sua energia feminista

Há muitas mulheres defendendo que devemos ativar a energia feminina. Nossa colunista, Tatiana Vasconcellos, cutuca essa tendência e explica por que a energia a ser ativada é outra

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Com o avanço de ideias extremistas e conservadoras no mundo, “feminista” voltou a ser um palavrão. Nada como viver tempo suficiente para, ainda adolescente, olhar para o feminismo como algo “radical”, depois entender os tipos diferentes e se reconhecer como feminista e, agora, voltar a ver a palavra e o conceito serem demonizados na sociedade.

E se você acha que estou exagerando, dê uma volta pelo instagram das esposas troféu, ou das tradwifes, como chamam nos estados unidos, e das inúmeras palestrantes que prometem vender o segredo para ativar a tal “energia feminina” que elas juram que perdemos. Desconfio que não tenha perdido nada, a não ser o momento exato em que os anos 50 voltaram mais conservadores do que nunca.

Meu feminismo adora homens dispostos a compreender a disparidade 

Então, neste glorioso Dia Internacional das Mulheres, venho trazer a palavra daquelas que me ganharam para mostrar por que vale a pena ativar nossa “energia feminista”. bell hooks em “Comunhão” diz que o feminismo nos levou a lugares de maior poder e mais ganho financeiro, mas não resolveu o problema do amor romântico em sociedades patriarcais. Ela dedica um capítulo inteiro a um dilema cuja ideia principal vou tentar resumir aqui: os homens que apoiavam as mulheres na luta por igualdade de direitos não se engajaram quando a reivindicação era para uma transformação cultural que propõe uma mudança no que se entende por masculinidade. Eles teriam de se empenhar em mudar de comportamento, se reformar. E aí fica muito complicado pra eles, né? Ainda que essas mudanças os beneficiem também.

“Nossa mágoa vinha de encarar o fato de que, se os homens não estavam dispostos a abraçar a revolução feminista integralmente, então não chegariam a um lugar emocional em que poderiam nos oferecer amor. Não pode haver amor sem justiça”, escreve ela. Então, sem os homens como aliados, a transformação completa só poderia acontecer se as mulheres estivessem dispostas a sacrificar o desejo de se relacionar sexualmente com esses homens.

“As mulheres que anseiam conhecer o amor sentem com frequência que não têm escolha a não ser retornar ao entendimento convencional sobre relacionamentos e romance”. 

Ela também diz que os movimentos feministas falharam em tocar os corações dos homens.  

“O silêncio feminista sobre o amor reflete um lamento coletivo por nossa incapacidade de libertar todos os homens do domínio que o patriarcado exerce sobre a mente e o coração”. Vejo jovens mulheres brancas, loiras e lindas vendendo cursos para ativar a energia feminina como uma espécie de lamento coletivo. Mas não é irônico pensar que o amor talvez seja nosso maior empecilho?

Embora busque a igualdade, entendi muito cedo que a diferenciação entre homem e mulher é intrínseca ao funcionamento do mundo. É como respirar, acontece naturalmente e ninguém bota reparo. Pois bote! Enxergo nitidamente essa estrutura que coloca mulheres em desvantagem, mas procuro me comportar como uma igual, como se mulher também fosse um ser humano e tivesse direitos.

Sendo uma mulher, no entanto, percebo que meu corpo é mais exposto ao risco no espaço público, por exemplo. Então, embora me veja como uma igual, não posso me comportar como uma igual sem correr o risco de ser lembrada da pior forma de que não sou. Me recordo de uma viagem de carro em que paramos para dormir em uma cidade no interior de Minas e um dos homens do grupo saiu, tranquilamente, pra dar uma volta a pé na cidade às 10 da noite. Percebe? Nem passa pela cabeça dos caras risco de violência sexual. Eles no máximo se preocupam com o celular e a carteira. Então, embora me veja como uma igual, não posso tomar a decisão de sair para caminhar sozinha numa cidade estranha numa noite aprazível. E isso não é sobre mim e nem sobre as mulheres: violência sexual é principalmente sobre demonstração de poder. 

Ativar a energia feminista não é sair pra caminhar porque “sim, precisamos ser iguais de qualquer jeito”. Mas entender a complexidade do contexto que me faz temer esse risco. Sigamos no exemplo: eu não vou caminhar, mas sei exatamente por que não vou, sei que a culpa não é minha e também sei que se o mundo fosse justo eu poderia sair pra caminhar numa noite aprazível, tranquilamente. Como um homem faz. 

Meu feminismo também olha pra dentro e está bem relacionado ao amor-próprio. Ele me parece um ótimo termômetro para grandes decisões na vida, seja a que for: casar, ser mãe, não casar, não ter filhos, se separar, trair, abrir a relação, ter mais um filho, não trair, desistir de um projeto, mudar de trabalho, de carreira, de país. Autoconhecimento, ser íntima das próprias emoções e desejos para ser capaz de diferenciar o que queremos e o que desejamos do que o que é esperado de nós. O amor próprio pode nos libertar de procurar a felicidade fora da gente. Nos liberta de condicionar a felicidade a um casamento, à presença de um homem. “Vou te fazer feliz”, deus me livre dessa tarefa. Eu venho feliz de casa, mas gosto de ser feliz junto também.

É a minha energia feminista ativada que me dá outra perspectiva do mundo

Meu feminismo valoriza as conexões femininas. Ativar a escuta, ouvir as mulheres. Ter amigas, comadres, colegas de papo melhora demais a nossa vida. Conversar sobre nossas dores, incômodos, alegrias, dinheiros, dilemas faz com que a gente não se sinta sozinha, mesmo quando temos certeza de que ninguém mais no mundo está sentindo o que sentimos. Amigas pra quem podemos pedir ajuda, por quem somos acolhidas e com quem podemos celebrar. Mulheres juntas são uma força inacreditável. Não por outro motivo o patriarcado vive tentando nos separar. Claro que isso não quer dizer que vamos amar todas as mulheres à nossa volta e que tá proibido desgostar. Sejamos maduras e razoáveis, algumas de nós são bem detestáveis. 

É a minha energia feminista ativada que me faz observadora dos comportamentos. Ela me dá outra perspectiva do mundo. Me faz entender melhor quais são os pesos e valores que regem nossa sociedade e o que nos cabe nessa engrenagem. É ela que me faz perguntar por que homens se sentem afrontados quando simplesmente nos comportamos como eles? Quando não agimos como se fôssemos um outro diferente, e inferior? 

Me reconheci feminista quando passei a ter contato com mulheres e teorias que explicavam, davam nomes a situações que eu vivia, a sensações que tinha, a absurdos que ouvia. Mas, embora encontre base na teoria, meu feminismo entende que muitas vezes as condições da vida real não cabem no conceito. Quase tudo é sobre gênero, mas nem tudo.

Foi quando ativei minha energia feminista que passei a defender ativamente a busca por salários mais justos e a autonomia financeira. Que passei a reparar no gênero dos profissionais que escolho, dos prestadores de serviço, pra quem dou meu dinheiro. São infinitas as histórias de mulheres que, depois de anos no papel da esposa troféu, ou algo do tipo, foram abandonadas com uma mão na frente e outra atrás. Veja bem, a energia feminista não é aquela que faz você seguir em uma carreira contra a sua vontade, mas sim a que se preocupa em deixar tudo organizadinho para ter amparo se (ou quando) o casamento desandar. Sei que posso parecer pragmática demais. Mas autonomia é ter escolha para viver como achar melhor, inclusive junto com alguém. E se mudar de ideia, ter condições financeiras e emocionais de poder começar uma vida diferente. Fácil não é, sabemos todas. Nem sempre a vida cabe no conceito. 

Meu feminismo adora homens dispostos e comprometidos a enxergar, a entender essa discrepância. Homens que não se sentem ou pelo menos não se portam como seres superiores por serem homens. Homens que tentam verdadeiramente se comportar de outra maneira. Homens que, por compreenderem essa disparidade, agem para colaborar com a nossa existência e segurança, respeitando a nossa integridade. Gosto, tenho até amigos que são.  

Meu feminismo me faz olhar para a política e para o funcionamento do mundo pelo prisma de gênero. Por que tão poucas mulheres no Congresso? Por que tão poucas mulheres na suprema corte de justiça do nosso país? Por que tão poucas mulheres compondo o governo federal? Por que tão poucas mulheres nas mesas e nas rodas de poder? Que tipo de decisões são tomadas sobre as mulheres se há tão poucas mulheres participando das decisões?  

As respostas estão longe da meritocracia ou de algum dom que não temos e, acredite, ativar a energia feminista pode nos ajudar a fazer as perguntas certas.

Para ler:
“Comunhão – a busca das mulheres pelo amor”, bell hooks, Ed. Elefante.

“Feminismo para não feministas – como o machismo machuca todo mundo”, Milly Lacombe e Paola Lins Oliveira, Ed. Planeta.

Para ver:
Os ótimos vídeos que a Milly tem feito no @mlacombe, no instagram, interpretando os acontecimentos do mundo pela ótica do feminismo. Um pensamento melhor do que o outro. 

Para ouvir:
“Na Morada – ep 8: Dinheiro bom é dinheiro nosso”

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