A busca para ser melhor está nos deixando pior
A enxurrada de conteúdos sobre autoaperfeiçoamento promete ajudar, mas, no fim do dia, o que marcamos no check-list é a ansiedade, a exaustão e a sensação de nunca sermos o suficiente. Como escapar desse ciclo?
“O algoritmo entendeu que eu estava grávida e passou a me bombardear com conteúdos sobre maternidade para que, no final, eu comprasse cursos sobre ciclos de desenvolvimento do bebê, depois uma consultoria do sono e, mais tarde, sobre introdução alimentar”, relata Natália Prado, 36 anos, analista de comunicação. “De repente, eu estava com uma lista de cursos para fazer e minhas inseguranças tinham sido acessadas para me vender coisas. Isso me gerou uma pressão enorme, porque é claro que quero ser o melhor para o meu bebê”, reflete.
Um pouco de autocuidado e aprendizado são válidos, mas buscar a “melhor versão” se tornou exaustivo
Após desabafar em seu perfil no Instagram, Natália descobriu que não estava sozinha. Outras mães relataram que também dedicavam grande parte do seu tempo para buscar mais conhecimento para serem cada vez melhores para seus filhos – e terminavam o dia com a sensação de que não estavam fazendo (ou sendo) o suficiente. Praticamente uma “formação acadêmica” para ser mãe, só que sem conclusão de curso ou diploma.
Antes fosse só a maternidade o único alvo da avalanche de informação que prometem nos “capacitar”. Hoje existem influenciadores, podcasts, coaches e cursos que, à base de algoritmos, aparecem para nos tornar cada vez mais eficazes: a rotina matinal precisa ser impecável, o corpo tem que ser perfeito, a casa organizada como nas revistas, o relacionamento sem falhas e por aí vai.
E tudo bem uma dose de autocuidado e um pouco de informação de quem tem mais experiência na hora de encarar novos desafios, mas a busca pela nossa “melhor versão” se tornou exaustiva. Uma missão sem objetivo final que nos faz reféns da autocobrança e traz a eterna sensação de que não estamos fazendo o suficiente.
Alerta perfeccionismo
“O perfeccionismo como característica da personalidade se manifesta na busca por padrões extremamente rígidos e elevados, acompanhada de uma autocrítica intensa e severa quando eles não são alcançados”, explica a psicóloga Marcela Mansur-Alves, professora do departamento de Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais.
Com a influência constante das redes sociais, essa tendência ao perfeccionismo se intensifica. Instagram e TikTok alimentam a busca incessante pelo autodesenvolvimento, que, em vez de trazer bem-estar, pode aumentar a ansiedade, a sobrecarga e a comparação social negativa. “A comparação com padrões irreais pode levar à insatisfação com a própria vida, à desesperança e até ao desenvolvimento de sintomas depressivos”, alerta a especialista.
É o caso da técnica bancária e designer Bruna Caldeira, de 41 anos, que sempre foi muito rígida consigo mesma. Para ela, fazer qualquer coisa bem feita significa buscar todas as referências possíveis para evitar a sensação de que deixou algo passar ou não acessou todo o conhecimento que deveria. O algoritmo soube explorar isso, mas Bruna percebeu o impacto e decidiu agir. “Hoje tento filtrar. Não atiro para todo lado e sigo menos pessoas nas redes”, relata.
Como mudar esse quadro?
Selecionar melhor as fontes de informações e focar na qualidade das referências é um caminho possível para reduzir essa pressão. “Busque inspirações reais, de pessoas que saibam falar das frustrações, do perrengue, de como lidaram com o trauma, de como passaram pelo luto. Se é para ter referências, que seja assim – afinal, não existe humanidade sem emoções difíceis”, defende Itana Torres, consultora de Segurança Psicológica e professora no Instituto Feliciência.
Ao invés de nos tornar impecáveis, que tal criar espaços de segurança psicológica? Que nos permitam correr riscos interpessoais, como pedir ajuda, dizer que não sabemos, falar das próprias emoções e admitir que erramos, sem medo de ser colocado em constrangimento ou isolamento: tudo aquilo que não cabe nas nossas melhores versões.
Estar bem consigo mesma não deveria ser mais uma meta inatingível
Natália tem estabelecido prioridades como uma das formas de se desviar da enxurrada de soluções prontas à venda online. “Estou com seis meses de gravidez, não adianta querer saber agora como proteger a casa para que o bebê aprenda a andar com segurança ou me preocupar com introdução alimentar. Estou aprendendo a identificar o que combina com o meu momento, realidade e valores”, afirma.
A curadoria pessoal, aliada ao autoconhecimento, faz toda a diferença para lidar com a frustração e a exaustão, orienta a professora Itana. “O que é melhor para mim? O que guia a minha vida? O que é inegociável? Se eu não tiver resposta, minha referência será o outro, porque não me conheço. Então, para pegar um atalho, vou usar um check-list de outra pessoa. Crie o seu”, aconselha Natália.
Em um mundo onde somos constantemente estimulados a buscar a versão mais eficiente de nós mesmas, talvez o real desafio seja aprender a definir o que, de fato, importa. Trocar a busca pela perfeição pela construção de um caminho possível – alinhado com nossas necessidades, limites e valores – pode ser a chave para um desenvolvimento mais saudável e sustentável. Afinal, estar bem consiga mesmo não deveria ser mais uma meta inatingível.

