Mari Palma: “Hoje, não tenho problema algum em dizer que gosto de sexo”
Conhecida por muito tempo como "menina das camisetas divertidas", a atual apresentadora da CNN Brasil está diferente: com visual mais maduro, ela faz um balanço sobre como sua vida mudou nos últimos 5 anos
Esta é uma conversa entre amigas. Não no sentido figurado, de que entrevistadora e entrevistada se conectam durante duas horas de entrevista, mas, sim, no sentido literal. É preciso dizer: eu e a Mari Palma trabalhamos juntas em duas emissoras. Se na TV Globo estávamos em diferentes setores, na CNN Brasil compartilhamos a mesma baia, as mesmas canetas, o mesmo prato e, é claro, muitas fofocas.
Foi num domingo bem quente, em 2020, pouco antes do lockdown da pandemia, que eu realmente me conectei com a “Paula” (é assim como eu a chamo, numa piada interna que ficarei devendo contar para vocês). Na época, fomos ler a mão com um cara que se dizia indiano, mas tinha um português impecável. Fazia calor e o tal indiano fez comentários sobre os nossos corpos logo na recepção.
Num acordo velado, decidimos não entrar na sala sozinhas e participamos das duas consultas: ora como consulente, ora como observadora. As previsões, confesso, pouco importaram. O que se concretizou foi o papo franco que tivemos em meu carro, na volta para casa. Na época, ela disse que não se sentia bonita (o quê?), achava o corpo dela estranho (oi?) e que tinha medo da vida adulta (tá, ok, as camisetas divertidas com as quais aparecia na Globo já denunciavam isso). Foi naquele instante que nossa relação foi promovida de colegas de trabalho à amigas.
De lá para cá, muita coisa aconteceu na vida dela: ela casou, se separou, foi muito criticada, muito aclamada, a sobrinha nasceu, o pai morreu. Mesmo com medo e enfrentando uma depressão, ela teve de reagir e, resgatando aquele meme, as camisetas tiveram de dar lugar ao cropped. Foi pensando esse episódio, de cinco anos atrás, que viemos aqui reviver alguns temas como corpo, carreira, luto e, claro, vida adulta. Vem, pega essa carona com a gente.

“Meus pais fizeram de tudo pra me proteger da vida até o momento que não deu mais”
Antes de falar o que aconteceu nos últimos cinco anos, é necessário voltar um pouco mais no tempo para entender quem, de fato, é a Mari Palma. Segundo a influenciadora, sua infância foi “comum”: brincava muito com todo tipo de brinquedo, principalmente com os irmãos e os primos. Aos finais de semana, ia para o sítio da família. “Minha mãe fez uma casinha de bonecas pra mim no sítio, superprincesinha da família, porque ela queria que eu fosse criança e eu brincasse até o máximo que eu conseguisse brincar”, relembra.
Como “princesinha da família”, Mari lembra que “sempre teve tudo o que quis”. “Meus pais nunca deixaram chegar problemas em mim, eles fizeram o possível pra me proteger da vida até o momento que não deu mais”, conta. Isso se deu pelo menos até os dez anos. “Meu pai perdeu a visão totalmente nessa época. Por conta disso, a gente teve uma crise financeira bem difícil em casa. Ele era autônomo e minha mãe teve de assumir as finanças da casa”, conta.

“Eu era a mais alta da minha turma, por isso me apelidaram de Tropeço”
Já na adolescência, a blindagem dos pais se mostrou ineficaz. Questões internas e externas foram ganhando forma e chegavam sem aviso prévio. “Fui uma adolescente tranquila, mas tinha muitas questões internas, principalmente relacionadas à estética. Eu era a mais alta da minha turma, por isso me apelidaram de Tropeço”, relembra. Isso fez com que ela desenvolvesse uma postura “torta”. “Sempre fui muito tímida e muito alta, entrava nos lugares com os ombros curvados. Odiava chamar atenção”, diz a apresentadora.
A questão da dificuldade de se ver como mulher germinou ali. “Minhas amigas eram todas magricelas e pequeninas, então me achava gordinha. Hoje eu vejo fotos e penso ‘como eu pude pensar isso?’. Era uma pessoa padrão”. Mari estudou na mesma escola que os irmãos mais velhos, Luiz e Leonardo, e, portanto, compartilharam o mesmo grupo de amigos. “Não fui rebelde, nem nada. A gente basicamente levava todo mundo para a casa e ficávamos lá conversando”, diz. O problema mesmo se deu aos 19 anos, quando entrou na faculdade, um pouco depois, passou no processo seletivo para estagiar na Globo. “Pensei ‘ai, que saco! Vou ter que ver como é o mundo lá fora’”, ri.

“A maior dor do mundo eu já senti. Agora preciso correr atrás da felicidade”
No entanto, o maior desafio de sua vida se deu muito depois dos milhares de fãs, da estreia em rede nacional ou do surgimento de uma nova emissora. Foi após a morte do pai, Luiz, que morreu em março de 2021 em decorrência de um câncer.
O processo de luto foi longo e ainda reverbera na vida da apresentadora, mas o momento mais crítico foram os seis meses seguintes à perda. “Foi uma depressão não diagnosticada. Eu não saia do quarto, exceto para trabalhar”, diz. Afastada dos exercícios físicos, seu escape para o sofrimento acabou sendo a alimentação. “Ele gostava muito de comer comigo, por isso fui me encontrar com ele na comida”. O resultado dessa fórmula foi o aumento de dez quilos.
“Um dia eu acordei e pensei ‘cara, a maior dor do mundo eu já senti. Eu não posso mais viver no automático, fazendo o que as pessoas esperam que eu faça. Agora preciso correr atrás da felicidade’”, conta. Fazer isso não é fácil. Por isso, o primeiro passo foi voltar a fazer exercício físico. “Eu comecei a me sentir bonita de novo, a me sentir poderosa de novo, a me sentir forte de novo”, diz.
O segundo foi iniciar o livro de cartas para o pai. O processo de escrita não auxiliou apenas o luto, como também aflorou o autoconhecimento. “Eu precisei descobrir quem eu sou sem ele. Por um lado, foi muito difícil, porque a saudade bate até hoje, mas por outro lado me surpreendeu positivamente. Vi que não podia viver no automático. Sempre tive medo de desagradar e esse processo me mostrou que isso estava impedindo a minha própria felicidade. Comecei então a me priorizar”, diz.

“Se eu desagradei algumas pessoas no caminho, sinto muito, mas essa sou eu”
O processo culminou em mudanças radicais para seus antigos padrões: mudou o círculo de amigos, começou a fazer terapia, refez contratos, tomou a dianteira da própria empresa e até pintou o cabelo de loiro – algo impensável cinco anos atrás, pois achava a coisa mais cool do mundo ter o cabelo virgem.
“No dia da mudança capilar, fui direto para um estúdio fazer umas fotos. Foi ideia do Will [Lopes, assessor, sócio e amigo desde os tempos de Globo] que viu nesse processo duas oportunidades: de levantar minha autoestima e de fechar uma publicidade”, ri. “Mas esse dia foi muito importante. Me senti tão linda! Me entreguei: fiz fotos sem a parte de cima, de maneira sensual, como nunca havia me imaginado. Foi aí que determinei que nunca mais pediria desculpas pelo meu sucesso. Se eu desagradei algumas pessoas no caminho, sinto muito, mas essa sou eu. Não vou ter mais vergonha”.
Então, seu Instagram passou por uma transformação repentina, repleto de fotos e textos sobre o universo feminino e estilo de vida. “Ainda tem minhas camisetas, tênis, universo nerd, mas vi que a minha vida não se resume a isso. Eu sou uma mulher de 35 anos, poxa! Quero aproveitar tudo que está disponível para minha felicidade”, resume.
“Mulheres mais maduras começaram a me seguir e a me escrever falando que meus textos as incentivavam. Isso encheu meu coração.” Não só, como o bolso também. Além do público, as marcas começaram a perceber que a “menina das camisetas” cresceu e virou mulher. A mudança impulsionou a procura da influenciadora por marcas que há cinco anos não tinham “muito a ver com ela”. “Agora me sinto mais sensual, mais mulher. Algumas marcas seguem comigo, porque a minha essência ainda é a mesma, mas outras não fazem mais sentido e, até por isso, outras apareceram”, diz. E o processo de descoberta segue também nessa seara: “É bacana pensar na estratégia que desenharei nas redes porque não deixa de ser um questionamento do que eu sou e do que eu quero para o futuro”, diz.

“Não tenho problema nenhum em falar que eu sou uma mulher que gosta de sexo”
Toda essa reviravolta fez com que Mari ficasse mais tempo na cama. Não por conta de uma depressão, comendo ou vendo série, mas sentindo prazer. “Hoje, não tenho problema algum em dizer que gosto de sexo”, diz. Mas nem sempre foi assim. “Quando iniciei a minha vida sexual, já com quase 20 anos de idade, demorei pra entender que aquilo não era errado. Tinha muito sentimento de culpa envolvido”, relembra.
No entanto, ainda não é momento para o fandom lésbico de Mari Palma comemorar. “Infelizmente, eu sou hétero, mas um dia quem sabe? Eu me sinto lisonjeada quando falam que eu sou lésbica, porque as mulheres xavecam muito melhor do que os homens”, diz. Sempre rodeada por meninos (ela é a única filha mulher de Luiz e Elenice Palma), foi só na idade adulta que Mari realmente compreendeu a importância de ter referências femininas próximas. “De uns anos pra cá, conversando com outras mulheres, percebi que gosto de transar e isso é perfeitamente normal”. Se antes ela dizia que “chocolate era melhor que sexo”, hoje a história mudou. “Eu adoro brincar com as possibilidades que o sexo oferece”, diz a influenciadora que incluiu a compra de lingeries como um dos hobbies favoritos.
“Percebi que gosto de ficar em casa vendo séries, mas gosto de ir para festas com meus amigos. Que eu sou caseira, mas não sou um ermitão. E dá para balancear as duas coisas”, diz. Próxima de fazer 36 anos, Mari Palma pensa, sim, na maternidade, porém sem pressa. “Às vezes, me pego assistindo a vídeos de bebês, recém-nascidos e roupinhas. Tudo é tão fofo, tão lindo. Mas agora, neste momento, o que quero é curtir! A vida tem tanto para me oferecer que eu só quero aproveitar”, conclui.