A série “Adolescência” deixa a dúvida: policiar ou educar?
Vamos precisar bem mais do que controle parental no celular para essa batalha, defende a head de conteúdo da Mina, Lia Bock
O impacto da série Adolescência, da Netflix, na sociedade foi extraordinário. Seus mais de 66 milhões de visualizações em poucas semanas mostram que o Brasil e o mundo estão cheios de dúvidas e preocupações sobre a construção da masculinidade. Sejamos sinceras: estamos todos apavorados com o potencial do conteúdo misógino e violento e chocados com sua capacidade de atrair nossos jovens.
Só que esse medo acaba borrando a fronteira entre soluções efetivas, que nos ajudam a longo prazo, e medidas desesperadas, que podem afastar (ainda mais) os jovens de conversas sinceras – essenciais quando falamos de vida online.
Quem está do outro lado oferece ferramentas específicas para despistar pais-investigadores
Vi muita gente insistindo na necessidade do controle parental nos celulares, de investigações no WhatsApp e de outras técnicas com pinta de espionagem para garantir que nossos filhos não sejam atraídos para esse lugar nefasto. Acho tudo válido, principalmente porque estamos desesperados e, no desespero, recorremos a todas as rezas, mandingas e atitudes que contradizem até nossa própria ideologia. #tamo.junto
Mas não posso deixar de expressar minha preocupação com táticas policialescas – principalmente quando estamos falando de jovens com 15 anos ou mais. O primeiro passo é reconhecer nossas limitações: esses adolescentes nasceram dentro do celular, dos apps, do TikTok. Qualquer verificação que possamos fazer, acreditem, será efetiva por pouquíssimo tempo, porque no dia seguinte eles já terão um atalho, um túnel, um código ou um link que esconderá ainda mais fundo justamente o que queremos ver. Cito aqui a tática de garotas que, sob a tutela do app de localização em tempo real, deixam o celular na casa da amiga e saem serelepes noite afora enquanto a família dorme tranquila. Jovens sempre deram seus pulos.
Não podemos entrar nessa batalha achando que ela acontece de igual para igual. Mais do que uma moçada esperta, quem está do outro lado oferece ferramentas e conhecimento específicos para despistar pais-investigadores. Esse movimento (que podemos chamar de incel, misógino, conservador ou delirante) é versado em tecnologia e, não tenham dúvida, está organizado para cooptar outros jovens. Se não fosse assim, não estaríamos vendo o aumento exponencial de homens e meninos alinhados a pensamentos conservadores de extrema-direita e tudo que vem nesse pacote.
Outro ponto é que, quando assumimos o papel do bad cop, podemos até encontrar algo suspeito (antes que eles deem um nó na gente), mas o que vai acontecer com toda certeza é um afastamento. Nenhum jovem, de Woodstock à dark web, gosta de ser revistado contra a própria vontade. E o que acontece quando ficam putos com a abordagem? Sentem-se incompreendidos e que só encontram acolhimento ali, nos grupos masculinistas. Nesse caso, ponto para Andrew Tate e seus comparsas violentos.
É preciso muito cuidado para que, na ânsia de afastar nossos filhos desse grande mal, não acabemos entregando-os de bandeja para o inimigo – e falo assim porque vejo isso como uma guerra mesmo. E, em guerras, mais do que força bruta é preciso estratégia.
Vamos precisar ensinar nossos jovens a se defenderem do assédio do universo misógino sozinhos
Não há controle parental que vença essa batalha. Até porque, além do domínio das ferramentas, alguns desses jovens têm o dobro do nosso tamanho e muito mais tempo livre. Sejamos sinceros: qual família, no mundo real, tem disponibilidade emocional e horas vagas para acompanhar tão de perto o passeio dos filhos pelo mundo virtual? (Mais uma vez, não estou falando de crianças que nem deveriam estar no celular, ok? Para essas, cortar o mal pela raiz e tirar o acesso é muito efetivo.)
Claro que tentamos e fazemos tudo que está ao nosso alcance, mas é preciso ter em mente que, sob as lentes policialescas, nosso alcance tem um limite.
Tudo isso para dizer que não há outro jeito: vamos precisar ensinar nossos jovens a se defenderem do assédio do universo misógino. Famílias e escolas precisam dar ferramentas ideológicas, discursivas e emocionais para que eles consigam se virar sozinhos diante do canto da sereia. E precisamos fazer isso de um jeito atrativo.
O mundo da igualdade de gênero tem coisas maravilhosas. E existem feminismos que celebram os aliados, dando a eles um papel relevante o suficiente para que desejem estar do nosso lado. Os garotos precisam ser versados na linguagem do amor, do acolhimento e do “nem tudo é para sempre”. Bullying, solidão, pé na bunda, sensação de inadequação: tudo isso passa, e eles precisam saber disso também.
Vamos precisar de estratégia para trazer esses garotos para o nosso lado e prepará-los para identificar e repelir discursos de ódio. Sozinhos. Ao meu ver, vamos mais longe emprestando o papel de terapeutas com quem eles possam se abrir do que o de policiais truculentos que revistam sem avisar. Precisamos abrir uma porta para que consigamos entrar e plantar outras sementes. E pra isso, é preciso cuidado, porque, se eles nos virem como o inimigo, já começamos mal.
