Ver como seria seu corpo gordo é engraçado? - Mina
 
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Ver como seria seu corpo gordo é engraçado?

O filtro que virou febre nas redes chama atenção por tratar o corpo gordo como objeto de humor — e reacende o debate sobre gordofobia.

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Um filtro viralizou nos últimos dias no Tik Tok: ele engorda os corpos. O efeito tem sido tratado como brincadeira, mas o que parece uma diversão momentânea, tem impactos bem sérios. Quando rimos da nossa imagem transformada, estamos, sem perceber, reforçando a ideia de que um corpo gordo é algo cômico, estranho ou indesejado. E isso é gordofobia.

Alguns gestos, de maneira sutil, ensinam que ser magro é a única opção aceitável

Explico: Quando a gente naturaliza o riso diante de um corpo maior, reforça um padrão que discrimina pessoas gordas em diversos aspectos da vida— do mercado de trabalho à forma como são tratadas no atendimento médico. Lembremos que a gordofobia não se manifesta apenas em ataques diretos, mas também nesses pequenos gestos que, de maneira sutil, ensinam que ser magro é a única opção aceitável – e não risível.

E o problema de alterar os corpos digitalmente não para por aí. Outro filtro recente viralizou ao mostrar como você seria se fosse “magra”, ele recorta a silhueta e transforma qualquer corpo no que convencionamos chamar de padrão: magro. Aqui entramos em outro problema grave, a distorção de imagem. Quando você vê uma versão mais magra de si mesma e gosta dela, a comparação com o espelho se torna inevitável. Essa insatisfação, somada à constante exposição a corpos irreais, pode ser um gatilho para transtornos alimentares.

Não é uma questão de estética, mas de saúde mental. De acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, o Brasil é o segundo país que mais realiza procedimentos estéticos no mundo. Muitas pacientes que antes levavam fotos de celebridades para os consultórios agora chegam com selfies alteradas por filtros, tentando transformar seus rostos e corpos em versões digitais irreais.

Esse ciclo de comparação não é novo. Lembro exatamente da sensação quando ouvi de uma vendedora, lá em 2011: “Querida, você é igual à manequim da vitrine, só que com cabeça!”. Eu estava no auge de uma depressão, com 15 kg a menos do que hoje, e ainda assim recebi aquele comentário como elogio. Me senti validada, bonita, quase uma Gisele Bündchen. O que eu não percebia na época é que, mesmo sendo magra, me via gorda. Essa insatisfação constante me levou à bulimia.

O mais assustador é que os padrões mudam, mas a pressão estética continua. A questão não é demonizar filtros ou dizer que ninguém pode usá-los, mas refletir sobre o que eles reforçam. Será que estamos normalizando mais um mecanismo que ensina mulheres a se sentirem erradas? O que parece apenas uma trend pode, na prática, alimentar inseguranças, comparações e preconceitos como a gordofobia.

Talvez o que a gente precise não seja um novo filtro, mas um novo olhar—mais gentil, mais consciente e mais real para os nossos corpos.

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