Talvez seja a hora de procurar propósito fora do trabalho - Mina
 
Suas Emoções / Reportagem

Talvez seja a hora de procurar propósito fora do trabalho

Atividades desconectadas da lógica da produtividade podem te oferecer um senso de propósito genuíno – e te preencher mais do que imagina.

Por:
4 minutos |

“O que você quer ser quando crescer?”. A resposta não é simples, mas dizem que, ao encontrar seu propósito, tudo se encaixa. Com o tempo, essa busca por sentido acaba se confundindo com conquistas profissionais. Espera-se que a carreira dê conta de oferecer realização, identidade e motivação. Mas será que o propósito precisa, necessariamente, estar ligado ao trabalho? É possível encontrá-lo fora da lógica da produtividade?

Ter um propósito está associado a menores níveis de estresse, depressão e ansiedade.

“Pesquisas mostram que o propósito faz bem para a saúde. Aqueles com essa percepção demonstram mais saúde mental, resiliência e funcionalidade”, explica a psiquiatra Maria Clara Silveira. Estudos recentes apontam que ter um sentido para a vida está associado a menores níveis de estresse, depressão e ansiedade.

Ainda assim, muita gente acredita que só há propósito quando há entrega, resultado ou utilidade. Para a psicóloga Sara Salvati, o problema não está em buscar sentido, e, sim, em acreditar que ele precisa, obrigatoriamente, estar a serviço de algo ou alguém. “No senso comum, propósito está muito relacionado ao ‘ser útil’”, comenta.

Com esse olhar, é fácil preencher os dias apenas com obrigações, deixando de lado tudo que não gere produtividade visível. Atividades prazerosas ou hobbies passam a ser vistos como perda de tempo. “É como se a gente olhasse para o tempo de lazer com o mesmo olhar do trabalho”, pontua Maria Clara.

É possível pensar diferente

Nas ilhas de Okinawa, no Japão, a ideia de encontrar seu Ikigai — sua razão de viver — é incentivada culturalmente. O tema é levado tão a sério que o Ministério da Saúde, Trabalho e Bem-Estar do país o incluiu em sua estratégia nacional de saúde. E esse sentido não precisa ser nada grandioso. 

Pode ser tão simples quanto cuidar da horta todos os dias. O importante é que faça sentido para você. “Para outras pessoas pode não parecer grande, mas se aos seus olhos é algo valioso, é isso que importa”, diz Sara.

E como encontrar o que faz sentido?

Propósito também é sobre escuta interna, conexão com desejos genuínos e abertura para o novo. Nem sempre ele se revela de forma imediata ou óbvia — e tudo bem. Em vez de buscar respostas prontas, o caminho pode estar em se fazer boas perguntas e se permitir experimentar.

  1. Reconecte-se com o que é seu

Muitas vezes, na tentativa de agradar ou corresponder a expectativas, nos afastamos de nós mesmas. “Estamos sempre observando o outro para nos comparar e entender o que esperam de nós. É preciso se distanciar para enxergar os próprios desejos”, comenta a psicóloga.

Além disso, seguir o que está na moda ou o que dá certo para os outros nem sempre leva a descobertas autênticas. Esse é um processo criativo e individual. “Você passa a ser alguém que está criando algo que te representa no mundo e isso é muito motivador”, completa Maria Clara.

ler mais

  1. Questionar-se pode mudar tudo

Interromper o piloto automático e se perguntar sobre suas vontades reais pode abrir novos caminhos. Algumas questões que ajudam nessa investigação:
– Quais são os meus valores e como posso me alinhar mais a eles?
– O que me faz sentir bem de verdade?
– O que ainda não me permiti experimentar?

As psicoterapias também podem ser grandes aliadas nesse processo. Por meio da escuta ativa, o profissional ajuda a trazer à tona questões que talvez não estejam tão claras para você, mas que podem te impulsionar a se reconectar com o que faz sentido.

  1. Experimente, erre e recomece

“É vivendo com esse olhar mais sensível e se dispondo a fazer coisas novas que você vai se transformando e se fortalecendo”, resume Maria Clara. Para ela, testar novos caminhos – e até falhar – faz parte da construção de um propósito genuíno. “Ao submeter seu corpo à experimentação, você começa a desenvolver uma relação significativa com novas práticas, e sente os efeitos positivos se espalharem até no sistema nervoso”, explica.

  1. Agindo apesar da culpa

Para quem vive imersa na lógica da produtividade, fazer algo apenas por prazer pode despertar culpa. Mas isso também pode ser ressignificado. “É importante se permitir ter esse momento, mesmo que a culpa apareça. Ela vai se dissolvendo à medida que você questiona essas cobranças e investe mais em você”, afirma Sara.

  1. Substitua a cobrança pela curiosidade

Trocar o clássico “o que você quer ser?” por “o que te enche de vida?” pode ser revolucionário. Maria Clara reforça que nosso cérebro tem uma quantidade limitada de energia, e, ao nos abrirmos para o que faz sentido, entramos em um ciclo virtuoso: “Você gasta energia para realizar a atividade, mas sente que se reabastece ao mesmo tempo”.

Mais lidas

Veja também