Nátaly Neri: “Tentei deixar de ser negra, e não consegui" - Mina
 
Seu Corpo / Arquivo Pessoal

Nátaly Neri: “Tentei deixar de ser negra, e não consegui”

Do sonho de ter “o cabelo balançando” ao ativismo negro, Nátaly Neri narra sua jornada de autoaceitação, consciência política e amadurecimento afetivo

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Apoiada pela psicoterapia, a influenciadora Nátaly Neri tem deixado de lado o modo ‘8 ou 80’ para construir um caminho do meio. “Eu sempre estava 100%. Quando eu não podia mais seguir assim, eu saía completamente. Isso foi com tudo: com a igreja, com meu trabalho, com os meus estudos e quando passei a me dedicar só à internet”, diz. “Estou, pela primeira vez na minha vida, entendendo o que é ser morna. O que eu posso fazer parcelado e o que eu posso entregar pouco para entregar sempre”.

A infância nômade, envolvendo mudar “mais de oito vezes de escola”, moldou uma criança ótima em se adaptar a diferentes cenários, mas com dificuldade em criar intimidade nas relações. Já na adolescência, as inseguranças com a autoimagem, em meio ao bullying e à falta de referências de negritude, fizeram com que ela tentasse “deixar de ser negra”. 

Nátaly alisou o cabelo, correu do sol e investiu em roupas claras, mas acabou entendendo que era impossível fugir das próprias raízes. No primeiro trabalho, em uma empresa de cosméticos, aprendeu a trançar o cabelo e sobre a importância dos penteados afro para a autoestima. Foi quando surgiu a vontade de se autoafirmar e se aprofundar nas questões de raça e gênero na faculdade de Ciências Sociais. 

A experiência acadêmica despertou sua consciência política, mas também trouxe desilusões e radicalismo. “Eu idolatrava muito professores universitários, achava que eles eram detentores da razão e da inteligência. E aí eu comecei a ver que não era bem assim.” A frustração a impulsionou a criar seu canal no YouTube, um espaço para compartilhar reflexões políticas e experiências pessoais envolvendo moda, beleza e sustentabilidade. “Eu achava que tava nas nossas mãos. ‘Nós, mulheres negras no YouTube, vamos fazer a revolução’. E foi bom ter acreditado nisso, me deu forças”, diz ela, ponderando que, depois, a realidade se mostrou menos romântica.

Hoje, aos 30 anos, Nátaly celebra um momento de maior serenidade e equilíbrio. “Aprendi a não me submeter a situações desconfortáveis só porque isso vai beneficiar de alguma maneira”, afirma, refletindo sobre a importância de respeitar os próprios limites. “Entendi que eu consigo encontrar meios termos que não me machuquem tanto.”

“Uma criança muito quieta”

Aos 6 anos, na festa junina em uma das muitas escolas que frequentou durante a infância. Foto: Arquivo pessoal

Dos 7 aos 12 anos, Nátaly mudou mais de oito vezes de escola devido a questões sobre sua guarda, disputada pelos pais, que eram separados e viviam em lugares diferentes. Mesmo assim, ela diz guardar “só boas lembranças” desse período, como a festa junina em uma escola onde ela completou a primeira série. 

“Apesar dos meus pais estarem passando por muitas dificuldades na época, eles conseguiram me blindar muito. Tudo parecia uma grande festa”, conta. “Tive que fazer um exercício difícil de buscar na minha memória como, na verdade, aqueles anos foram complicados — até para alcançar essa criança interior que eu nem sei se está ferida, porque não tenho a lembrança do sofrimento, mas sei que isso impacta a gente, lembrando ou não”. 

Na terapia, Nátaly descobriu que o período a influenciou a ser uma pessoa de poucos amigos e que demora a aprofundar as relações. “Me acostumei a laços um pouco mais superficiais para não doer tanto depois que eu mudasse de escola”, diz ela, que se descreve como uma “criança muito quieta”, que acabou focando mais nos estudos e na relação com os professores.

“Meu sonho era ter o cabelo balançando”

Aos 11, já com cabelo alisado. No pôster, Mia Colucci, do RBD, uma das referências na época. Foto: Arquivo pessoal

Chamada de “palito” e de “mãozão” por ter mãos grandes e braços finos, Nátaly passou a usar roupas de manga comprida para esconder o corpo no início da adolescência. “Construí muito meu desejo de imagem baseado em estereótipos racistas e objetificadores de mulher negra”, diz, sobre as dores de não corresponder ao estereótipo da “mulata” de cintura fina e quadril grande. “Foi o começo de uma insatisfação profunda com o meu corpo. Tanto é que eu luto constantemente até hoje com a ideia de colocar ou não silicone.”

Nessa mesma época, ela decidiu alisar o cabelo. A “progressiva de chocolate” era a sensação do momento em Perus, bairro periférico de São Paulo, onde vivia com o pai. “Implorei para ele para fazer. 100 reais era muito dinheiro”, conta. O pai a incentivava a aceitar o cabelo natural, mas não tinha tempo nem conhecimento para ajudar a filha nessa missão. Alisar o cabelo, então, se tornou a “saída mais fácil”. Nátaly fez a primeira progressiva aos 10 anos. “O meu sonho era ter o cabelo balançando”, diz.

“Parei de lutar contra quem eu era”

Aos 16 anos, maquiada, de dreads e com roupas de brechó customizadas por ela. Foto: Arquivo pessoal

Nataly e o pai se mudaram para Assis, no interior paulista, e para continuar alisando os fios sem depender dele, Natály começou a trabalhar. Em seu primeiro emprego, como vendedora em uma empresa de cosméticos, aos 16 anos, ela fez um curso sobre tranças e dreads. Ali, teve acesso ao contexto histórico dos penteados afro e sua importância na autoestima das mulheres negras brasileiras. 

“Aquilo me deu um estalo. Foi o início da mudança”, diz Nátaly. “Eu tentei deixar de ser negra, e não consegui. Então comecei a me perguntar: o que eu posso fazer agora?”, conta, sobre a reflexão de parar de alisar o cabelo. Em um ensaio fotográfico feito com um amigo da igreja, uma Nátaly de dreads se deu conta da beleza que, finalmente, começava a expressar.

“Foi o primeiro momento em que eu me senti bonita”, afirma ela, que começou a mergulhar na construção da própria identidade, aprendendo a costurar para customizar roupas de brechó, e trançando o cabelo. “Parei de lutar contra quem eu era e o que eu tinha. E comecei a entender como eu poderia usar isso ao meu favor da melhor forma possível”, diz. Apropriada de si, ela passou a identificar o racismo e a reagir a ele.

“As pessoas queriam ouvir uma mulher negra e LGBT”

Com 21 anos, após assumir o black e a bissexualidade Foto: Arquivo pessoal

Aos 21 anos, durante a faculdade de Ciências Sociais, o processo de “assumir sua negritude com orgulho” chegou ao ápice. Nátaly descreve essa época como o auge da sua autoestima, do seu black power e da sua consciência política. “Foi onde eu vi que o que eu tinha para falar importava. As pessoas queriam ouvir uma mulher negra e LGBT”, relembra ela, que acabava de sair do armário como bissexual. “O chato por lá era ser branca de cabelo liso. Foi um mundo invertido para mim.”

Foi ali que Nátaly passou a ver seu corpo como político e a entender que suas dores não eram individuais. O contato com as teorias sociais, porém, a levou a achar que “sabia mais do que todo mundo”. “Eu não conseguia conversar com a minha mãe, com meu pai”, diz. O relacionamento com Jonas Maria, com quem está junto até hoje e na época ainda não havia transicionado, também estremeceu. “Ele era uma mulher branca, que eu via como algoz.”

Porém, ao viver situações de violência psicológica, Nátaly deixou de ver a academia como única detentora da verdade e saiu em busca de um caminho mais autêntico. Consumindo conteúdo sobre cabelo crespo e cacheado na internet, criou seu próprio canal no YouTube para se expressar livremente, relacionando esses temas a questões sociais e políticas.

“Terapeutizada e medicada”

Com 30 anos, Nátaly busca se afastar dos radicalismos para viver com mais equilíbrio e autenticidade. Foto: Arquivo pessoal

“Hoje, eu tô muito mais livre. É isso: terapeutizada, medicada. Hoje eu tô ótima”, resume Nátaly sobre os 30 anos de uma trajetória em que conquistou mais equilíbrio. “Sou muito grata pela minha radicalidade naquela época. Ela me mostrou muitas coisas, mas eu também entendi que eu consigo encontrar meios termos que não me machuquem tanto.”

Após anos vivendo de extremos, impulsionada pela necessidade de provar seu valor, Nátaly percebe que não precisa mais ser “20 vezes melhor” do que ninguém. Após atravessar uma pandemia com apoio psicoterapêutico, ela aprendeu a respeitar seus limites, a se cuidar de forma constante e a não se submeter a situações desconfortáveis.

Nátaly diz que está trabalhando para ser um “banho morno”, entregando aos poucos e sempre, em vez de queimar a resistência tentando dar o máximo de si de uma só vez. Há 12 anos no relacionamento com Jonas Maria, ela celebra uma relação madura, em que o objetivo não é mais se adaptar ao outro, mas construir juntos. “Com o tempo, a gente entendeu que o relacionamento é um lugar no meio da ponte para os dois se encontrarem.”

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