Mariana Nunes: ‘Eu tinha duas opções: ter filhos sozinha ou não ter filhos. Escolhi a primeira’
Aos 44 anos, a atriz está grávida de gêmeos gerados por FIV e doação de óvulos. A decisão pela maternidade solo foi prática, mas não veio sem farpas do público e até de profissionais de saúde
Durante muito tempo, o sonho da maternidade veio acompanhado da ideia de uma família, onde o relacionamento era premissa para ter filhos. Mas essa e outras premissas vêm caindo por terra graças ao empoderamento feminino nas últimas décadas. Com cada vez mais espaço no mercado de trabalho, especialmente em cargos de poder, e autonomia financeira, muitas mulheres não estão dispostas a adiar ou abdicar da maternidade simplesmente porque não têm um parceiro ou parceira.
É o caso da atriz Mariana Nunes, atriz de Todas as Flores e Os Outros 2. Em março, ela anunciou que estava grávida pela primeira vez, aos 44 anos, graças a uma fertilização in vitro com doação de óvulos. “Tô desenhando a minha família do meu jeito”, escreveu, na ocasião. Mas diferente da jornada da heroína que imaginamos para esse tipo de mãe, a decisão do que (equivocadamente) costumamos chamar de “produção independente” é mais mundana do que parece.
“As pessoas me perguntam por que eu escolhi a maternidade solo, mas não sei se a palavra é escolher. Essa é a minha história. Muita gente espera que seja uma grande decisão, um ato de afirmação, porque é uma coisa diferente do tradicional. Mas na prática, eu tinha duas opções: ter filhos sozinha ou não ter filhos. Decidi pela primeira”, disse, em entrevista à Mina no início do sexto mês de gestação.
“Não escolhi a maternidade solo, é simplesmente a minha história”
Como a menopausa chegou cedo, aos 42 anos, Mariana viveu uma verdadeira peregrinação por clínicas de reprodução assistida. Primeiro, para investigar se realmente não poderia mais engravidar usando os próprios óvulos. Com a resposta negativa, tinha duas opções: a embriodoação (doação de um embrião já formado) ou ovodoação (doação de óvulos).
Percorreu clínicas do Brasil inteiro e fez dezenas de consultas médicas até decidir pela segunda opção – ela queria filhos pretos como ela e não encontrava embriões congelados formados por um casal de pessoas pretas. “É um processo muito caro e a maioria da população preta tem menos poder aquisitivo”, percebeu. A atriz, portanto, engravidou a partir de uma fertilização in vitro, com doação de óvulos. Implantou dois embriões e engravidou na primeira tentativa. Agora, espera gêmeos, previstos para nascer em agosto.
Em entrevista à Mina, Mariana compartilha as reflexões de antes, durante e depois da decisão de ser mãe sem ter um relacionamento. Compartilha, também, sua experiência com profissionais de saúde – que, segundo ela, não estão preparados para lidar com a maternidade fora de um contexto de casal. Ela inclusive questiona o termo “maternidade independente”: “Estou dependendo de muita gente. Da minha mãe, do meu pai, da minha madrinha, até da minha cachorra”.
O que te levou à decisão de ser mãe solo?
Quando eu estava na faculdade, me sentindo muito adulta e independente, coloquei um DIU de cobre que duraria dez anos. Na minha cabeça, dali a dez anos eu teria 30 e ia querer ter filhos. Mas, aos 30, eu comecei a trabalhar numa frequência muito boa, fazendo trabalhos dos quais eu me orgulho muito, e coloquei outro DIU de dez anos. A vida foi passando e não aconteceu, mas a vontade de ser mãe sempre me orbitou. Por volta dos 42 anos, veio a menopausa. Não estava esperando, foi uma rasteira. Pensei: “Fodeu”. Se eu quisesse gestar, não seria com meus óvulos – na menopausa, os óvulos envelhecem, mas o útero ainda consegue gestar até a faixa dos 50 anos. Então, comecei a passar por todo esse processo da reprodução assistida – primeiro, a investigação para entender se eu ainda poderia engravidar dos meus próprios óvulos, depois as buscas por doação de embriões, até me decidir pela doação de óvulos. Eu não sabia quanto tempo esse processo poderia demorar, mas foi tudo muito rápido. Apareceu uma doaora, eu quis colocar dois embriões e eles vingaram. Felizmente, engravidei de primeira.
Então, não é exatamente que eu tenha escolhido a maternidade solo. Apenas essa é a minha história. Muita gente espera que seja uma grande decisão, um ato de afirmação, porque é uma coisa diferente do tradicional. Mas na prática, eu tinha duas opções: ter filhos sozinha ou não ter filhos. Escolhi a primeira
Quando anunciou sua gravidez, você escreveu que estava “desenhando sua família, do seu jeito”. Por que é importante desvincular maternidade e relacionamento amoroso?
Nós estamos acostumados a pensar que a maternidade vai acontecer necessariamente junto com outra pessoa, seja homem ou mulher, mas dentro de um relacionamento. Cada uma sabe da sua história, dos seus desejos, mas para mim ter filhos não pode ser a finalidade de um relacionamento. Depois de muito pensar e muito viver, entendi que eu estava colocando a coisa na ordem errada porque, como eu sempre quis ser mãe, mal começava a namorar alguém e já me imaginava tendo filhos com aquela pessoa. Mas como é que uma coisa tão séria pode ser uma imposição para um relacionamento?
Você está chegando ao sexto mês de gestação e revelou ter passado por um quadro de depressão. Como está se sentindo hoje?
Eu estou muito recolhida, muito caseira, vivendo um momento de autoproteção. Tive um primeiro trimestre muito desafiador. A gravidez, por si só, gera uma enxurrada de hormônios. Sendo uma FIV, ainda mais, porque você toma hormônios externos. No meu caso, houve ainda um terceiro fator: eu já tomava estabilizadores de humor há alguns anos; quando soube da gravidez, a minha psiquiatra cortou a medicação imediatamente – não fui bem orientada neste sentido. Então, passei o começo da gravidez muito deprimida. Coloquei um colchão na sala e passava o dia todo deitada, vendo TV. Eu me alimentava, estava me cuidando, indo às consultas, mas sem energia.
Quando eu tive coragem e entendimento para assumir que eu não estava bem, que estava me sentindo deprimida, a médica simplesmente nunca respondeu. Até então, ela era muito solícita para os outros temas, como uma dor diferente, uma dúvida sobre um exame. Mas, quando contei que estava me sentindo deprimida, não tive respostas.
Por que você acha que isso aconteceu?
Ainda há muito tabu e preconceito para falar de saúde mental. E, quando é uma mulher grávida, é muito pior, porque a gravidez é endeusada, romantizada, vista como o máximo da plenitude. Como ela pode estar deprimida? Ainda mais no meu caso, que é uma gravidez planejada e tão desejada. Mas é uma transformação tão grande, tão radical, que o corpo vive uma espécie de luto. Por mais engrandecedor que seja, também é um pouco doloroso saber que você nunca mais voltará a ser quem era antes dessa experiência.
Como foi sua experiência com profissionais de saúde? Foi bem acolhida?
Eu flerto com a reprodução assistida há algum tempo, e cheguei a ir a consultas falar sobre isso estando em um relacionamento. Na minha percepção, é uma coisa muito encaixada quando você vai ao médico em casal, mas, quando você vai sozinha, eles ficam um pouco confusos. Durante o período em que estava entendendo o funcionamento e as possibilidades de bancos de doadores, fiz consultas on-line pelo Brasil inteiro. E, em geral, os profissionais são muito frios. Medicina reprodutiva e afeto emocional não se cruzam muito.
Como o público reagiu à notícia da sua gestação solo? E o que mais tem ouvido a este respeito?
Primeiro, eu fiquei muito feliz, porque recebi muitas mensagens de acolhimento no meu perfil. Me senti reconhecida e validada na minha escolha. Depois, outras pessoas começaram a reproduzir a notícia da minha gravidez e nesses perfis falaram muita coisa feia e atrasada. Em geral, as pessoas não sabem do que se trata ovodoação e começam a criticar. Alguém comentou: “Independente? Mas precisou de um homem para engravidar”. Outra pessoa falou: “Independente, mas só até o caldo entornar”.
Ao mesmo tempo, eu mesma questiono muito esse termo “independente” – produção independente, maternidade independente. É independente porque eu não sou um casal? Então, quando você está em dois, a maternidade é dependente? É importante dizer: eu estou dependente pra caralho! A minha mãe está aqui no Rio de Janeiro comigo, meu pai também. Minha irmã, que mora no Canadá, virá para o Brasil. Ainda não decidi quem vai me acompanhar na hora do parto, então minha família inteira – pai, mãe, madrinha e irmã – está participando das aulas de parto com a doula, por exemplo. Depois, vamos nos organizar para eles me ajudarem com os bebês. Eu estou dependendo de várias pessoas, até da minha cachorra.