Parecia amor, mas era controle
Os comentários do parceiro sobre a sua aparência afetam a sua principal relação: a com você mesma. Quando a crítica vem de quem deveria acolher, o impacto vai além da aparência — afeta sua autoestima e sua liberdade
“Você vai comer isso? Vai engordar mais ainda.” “Com esse biquíni dá pra ver todas as suas estrias.” “Preferia você antes.” Frases como essas, que muitas mulheres escutam dentro dos próprios relacionamentos, muitas vezes são disfarçadas de opinião ou preocupação com a saúde, mas têm o poder de minar algo muito mais profundo do que a vaidade: a relação com o próprio corpo, com o desejo e com a própria identidade.
Quando o afeto passa a ser condicionado à sua aparência, algo se rompe — inclusive a intimidade
Aprendemos desde cedo que ser desejada é uma conquista. Mas, quando o desejo vem carregado de críticas, o que deveria ser prazer vira julgamento — justamente vindo de quem gostaríamos que nos tratasse com afeto, não como um corpo a ser moldado. Como aponta a pesquisadora em saúde mental e gênero Valeska Zanello, a autoestima feminina foi sequestrada pela estética. Nas relações, isso acontece quando o parceiro se sente no direito de opinar sobre o que você veste, come, pesa ou depila.
Parece que ele está tentando controlar o seu corpo, o que já é muita coisa, mas acaba levando junto a sua autonomia. Nem sempre isso vem em tom agressivo. Às vezes, chega como piada, indireta, “sugestão” ou até disfarçado de saudade: “Você já foi mais vaidosa”, “Te achava mais bonita com o cabelo comprido”. Esse drible no discurso acaba fazendo com que essa violência penetre sutilmente. Sem um choque óbvio, fica mais difícil de compreender a gravidade.
O problema não é falar sobre atração. Tudo bem você falar pro seu parceiro que fica excitada quando ele sai do banho ou escutar dele que você fica sexy com aquele seu vestido. O que não pode é o desejo do outro virar uma exigência que você sente que precisa atender para ser amada. Quando o afeto passa a ser condicionado à sua aparência, algo se rompe — inclusive a intimidade.
“Sexo é vulnerabilidade. As mulheres já carregam inseguranças sobre barriga, estria, celulite. Quando quem deveria acolher é o primeiro a julgar, isso pode silenciar o desejo”, explica a terapeuta sexual e de casais Mari Williams. “A gente começa a achar que o próprio corpo não merece prazer — e só essa ideia já derruba a libido.”
Quando o papo sobre desejo e atração vira cobrança ou comparação — “você deveria se parecer mais com fulana” —, o efeito é tóxico. Em vez de fortalecer a relação, empurra a outra pessoa para um lugar de insegurança e culpa, quando tudo o que ela queria era ser amada como é, destaca Mari.
Se o que você escuta do outro te faz se sentir inadequada no seu próprio corpo, vale a pena fazer uma pausa e refletir. A opinião de quem está ao nosso lado pode ter peso, mas não pode definir a forma como nos enxergamos. Nosso corpo não é um projeto a ser corrigido por ninguém. É um território que merece cuidado, presença e, acima de tudo, respeito — inclusive o nosso. Não tem relacionamento amoroso que compense passar por cima disso.
