Cadê o GG que estava aqui?
A magreza medicada e o sumiço dos tamanhos grandes das araras. Letícia Vidica questiona: é pedir demais encontrar um jeans onde caiba minha autoestima?
Outro dia, minha estilista na TV com tristeza e um misto de indignação, a dificuldade de encontrar tamanhos grandes – eu uso 46, mas algumas marcas estão com coleções que vão só até o número 42. Parecia desabafo, mas era também alerta: estamos andando pra trás.
Pois é, amiga. A magreza extrema voltou. Agora repaginada, com um toque farmacêutico e um leve gosto de agulha. Não se fala mais em dieta da lua, jejum intermitente ou água com limão – modinhas de outros tempos às quais recorri e não me orgulho. Mas nada se compara ao combo do momento: Ozempic com gelo e Mounjaro no café da manhã. A nova trend é emagrecer sem mastigar — é só aplicar e sumir! E não estamos falando de perder uns quilinhos, mas de desaparecer até virar hashtag no TikTok.
E o body positive? Sumiu junto com os tamanhos GG nas araras
Recentemente, a Bélgica ligou o alerta geral. Vídeos com a legenda “be skinny to the bones” (ser magra até os ossos) estão bombando entre adolescentes. Adivinha o que isso significa? Que as novinhas estão entrando na febre da magreza radical, patrocinada por filtros, algoritmos e o velho desespero por pertencimento. Calma, meu povo!
E o body positive, minha gente? Sumiu junto com os tamanhos GG nas araras. Lembra quando as marcas se diziam “inclusivas” e celebravam corpos reais, com dobrinhas, celulites e barrigas felizes? Pois é. Cadê? Voltamos no tempo e ninguém me avisou?
Hoje você procura uma modelo acima do 42 e encontra… o vazio. Um buraco no feed. Um silêncio nos provadores. Parece que o discurso do amor próprio foi engolido pelo novo hype: o do corpo que desaparece. Algo que se coloca como simples sempre seguido de um: “por que não?”
E o que vem agora? Vitrines com manequins com corpo de Ozempic? Campanhas publicitárias monocromáticas e monocorpóreas? Eu, que tenho curvas e não quero passar vergonha em loja, faço como? É pedir demais conseguir um jeans que caiba na minha autoestima?
E olha, não estamos aqui fazendo apologia à pizza com borda recheada (embora sejamos muito a favor, obrigada), mas é que o mundo parece ter desaprendido a lidar com corpos reais. De novo. A roda da moda girou e voltou a parar no mesmo ponto: o da magreza idealizada, inatingível e agora… medicada.
Tem alguma coisa muito errada quando as roupas não vestem mais pessoas, e sim prescrições. Quando a beleza vem com bula e efeitos colaterais. E quando ser saudável perde pra ser magra — até os ossos.
Enquanto isso, sigo por aqui, tentando encontrar uma calça que me abrace sem julgamento. E me apegando ao resquício de esperança de que o tal do body positive não tenha sido só um post bonito no Instagram.

