A polarização entre mulheres não é tão extrema quanto parece - Mina
 
Nosso Mundo / Textão

Nem tudo é polarização: a discordância entre mulheres é menor do que parece

Uma pesquisa revelou que as mulheres concordam mais do que as tretas nas redes fazem parecer. E isso pode ajudar a curar relações quebradas

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Uma mãe que sofre por não conseguir se comunicar com a filha. Uma sobrinha que cortou relações com a tia querida por conta de comentários preconceituosos. Amigas de longa data que hoje se evitam porque parecem viver em mundos diferentes. Talvez você conheça alguém assim. Talvez até seja você. Eu, com certeza, me encaixo em mais de um desses cenários. E, se só de pensar que vem aí mais um ciclo eleitoral já me sobe um frio na espinha, também começo a me perguntar: não seria hora de tentar reconstruir algumas pontes que queimei? 

Foi assim que cheguei ao relatório “Mulheres em Diálogo”, lançado pelo Instituto Update, que trouxe uma descoberta poderosa — e, de certa forma, reconfortante: apesar dos algoritmos fazerem parecer o contrário, eu, você, minha tia, nossas amigas e sua mãe concordamos muito mais do que imaginamos.

Imagina se fôssemos capazes de nos unir para exigir mudanças no que acreditamos em comum?

Segundo a pesquisa,nem todas as mulheres se sentem à vontade para se identificar como feministas. Ainda assim, há consenso — entre conservadoras e progressistas — sobre pautas fundamentais do movimento que busca igualdade de gênero. Salários iguais para homens e mulheres, combate à violência contra a mulher, aumento da representatividade política e independência financeira são temas que unem mulheres de diferentes idades, classes sociais e visões de mundo. Imagina se fôssemos capazes de nos unir para exigir mudanças em todas essas frentes?

  • 94% das mulheres concordam que homens e mulheres devem receber os mesmos salários para cargos equivalentes.
  • 71% consideram o combate à violência contra a mulher o tema mais importante para as mulheres hoje.
  • 72% concordam plenamente com a necessidade de aumentar a representação feminina em cargos políticos.

É claro que existem temas sensíveis, que dividem opiniões: aborto, direitos trans e a influência da religião na esfera pública são verdadeiros campos minados no diálogo. Mas isso não significa que seja impossível construir pontes. Por exemplo: a maioria das mulheres — incluindo 61% das progressistas e 82% das conservadoras — é contrária à legalização do aborto. Ainda assim, 72% são contra a criminalização da prática e, mesmo as conservadoras, apoiam a legislação atual. 

Sobre o uso do banheiro feminino por mulheres trans, 57% das entrevistadas se sentem desconfortáveis, mas o receio, na prática, está mais associado ao medo de que homens cis usem esses espaços. A maioria, inclusive, nunca se deparou com uma mulher trans no banheiro. E quando falamos de direitos LGBTQIAP+, uma boa notícia: grande parte das mulheres concorda que família é onde há amor. Uma base comum e potente para dialogar sobre diferentes configurações familiares.

A sensação que essa pesquisa transmite é a de que as mulheres brasileiras estão lendo o mesmo livro sobre igualdade de gênero — só que algumas ainda estão na página 10, enquanto outras já chegaram na 100. O desafio é olhar pra trás e buscar quem ficou pelo caminho nessa discussão. E não dá pra fazer isso sem uma enorme disposição para dialogar com quem pensa diferente. Pesquisas mostram que a despolarização acontece na escuta ativa e na vulnerabilidade de dividir histórias e experiências pessoais. É no afeto que as opiniões se transformam.

Apesar da escalada conservadora, as mulheres continuam sendo a principal barreira contra a ascensão da extrema direita. O feminismo, ainda que nem todas queiram chamá-lo assim, segue sendo a maior força política do nosso tempo. Se mães, filhas, tias, sobrinhas, amigas distantes e parentes que brigaram se unirem, não há limite pra transformação que podemos construir. Quem sabe hoje seja o dia de mandar aquela mensagem pra alguém com quem você não fala há um tempo.

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