O movimento body positive não morreu - Mina
 
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O movimento body positive não morreu

Dandara Pagu volta à essência do movimento, fala sobre as canetas que tem ajudado muita gente a emagrecer e dispara: “o problema nunca foi com o corpo gordo, o problema é com o corpo livre”

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Se amar sendo gorda sempre foi um ato político, porque o amor nos foi negado. Negado nas revistas, nos consultórios, nas lojas de roupa, nos relacionamentos, nas rodas de conversa. Negado nas sutilezas do dia a dia e também na violência escancarada. Foi por isso que quando começamos a dizer “eu gosto de mim”, o mundo torceu o nariz como se isso fosse impossível. 

O amor próprio não vem com contrato de permanência

Foi nesse atrito que nasceu o movimento body positive. Mas reparem, ele nunca foi sobre amar ser gorda e sim sobre poder se amar. E, cá entre nós, sendo mulher, se amar do jeitinho que a gente é, já é uma ousadia. Só que quando o corpo é gordo, essa ousadia ganhou ares criminosos disfarçados de preocupação.

E agora que a medicina trouxe uma ferramenta eficaz para o tratamento da obesidade, as canetas que regulam o apetite, que melhoram a compulsão e que podem ser aliadas de quem quer emagrecer, surge uma nova cobrança: se você se ama, por que quer perder peso?

Deixa eu explicar uma coisinha pra vocês: mudar não é trair quem você foi e o amor próprio não vem com contrato de permanência. A gente pode se amar e, ainda sim, querer mudar. Não há traição e nem incongruência aí. 

É nessa hora que a gente percebe as nuances: o problema nunca foi com o corpo gordo. O problema é com o corpo livre. O que incomoda é a mulher que faz o que quer. Que se ama hoje, mas que pode mudar amanhã porque decidiu, porque quis, porque teve acesso.

O que está errado nessa história toda, não são as pessoas que se amaram gordas e agora escolheram usar a tecnologia de forma consciente para perder peso. Errado são os silêncios e as mentiras que surgem em torno disso. Como gente que está usando as canetas mas sai por aí dizendo que foi apenas “alimentação e foco”. Atitudes irresponsáveis que fazem com que o resto de nós nos sintamos comendo prego e tomando refrigerante intravenoso. Isso sim é cruel.

O movimento body positive é sobre poder viver sem ter vergonha de si

É cruel com quem está tentando emagrecer de forma saudável. É cruel com quem está em tratamento e se sentindo fracassada por não “secar” do dia pra noite. É cruel com adolescentes que assistem tudo isso nas redes sociais e passam a achar que o problema está só nelas.

E aqui vale a cutucada: vamos falar a verdade, tem gente que passou a vida dizendo que bastava ter força de vontade pra emagrecer e que hoje está tomando injeção pra perder dois quilos. Cadê a força de vontade agora?

Enquanto isso, mulheres gordas continuam sendo julgadas, agora porque resolveram emagrecer. Como se o corpo gordo tivesse que ser prisão. Como se não tivessem o direito de se transformar sem dar satisfação pra ninguém.

A caneta não é vilã. A mentira, sim.

O movimento body positive foi, e continua sendo, sobre poder viver sem ter vergonha de si. Foi, e continua sendo, sobre a conquista do direito de se amar. E amar-se também é poder mudar. De corpo, de ideia, de direção. O corpo é seu. O caminho também.

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