O auge da felicidade vem depois dos 60 anos - Mina
 
Suas Emoções / Reportagem

O auge da felicidade vem depois dos 60

Estudo global mostra que a felicidade não segue uma linha reta, e seu ponto mais alto está ligado à maturidade, não ao colágeno. Especialistas explicam por quê

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A juventude é celebrada como o auge da liberdade, da beleza e das oportunidades. Mas, quando o assunto é felicidade, talvez o melhor ainda esteja por vir. Segundo a pesquisa Ipsos Happiness Index 2025, realizada com quase 24 mil pessoas de até 75 anos em 30 países, a percepção de felicidade começa alta entre os jovens, mas vai diminuindo com o tempo. O ponto mais baixo ocorre entre os 50 e 59 anos. No entanto, a virada na percepção de bem-estar ocorre por volta dos 60 anos. A partir daí, os níveis de satisfação com a vida aumentam de forma consistente.

Os dados são reveladores: 72% das pessoas entre 20 e 29 anos se consideram felizes. A taxa cai para 70% aos 40–49 e atinge 68% aos 50–59 — o menor índice entre todas as faixas etárias. A guinada acontece aos 60, quando o número volta a crescer (75%) e atinge seu pico entre os maiores de 70 anos: 76%. 

“Permanece o ‘tesão na alma’, uma vitalidade que transcende as limitações físicas”

Para a antropóloga Mirian Goldenberg, autora de “A invenção de uma bela velhice” (Editora Record), esse fenômeno está ligado a um processo de libertação — uma coragem inédita de dizer “não” e de ser quem realmente se é, sem amarras. Nessa fase, especialmente as mulheres deixam de se comparar constantemente com os outros, abandonam a fixação pelo que lhes falta e passam a valorizar genuinamente o que possuem, dedicando mais tempo ao próprio bem-estar. “Mesmo vivendo em uma sociedade velhofóbica, que teme o envelhecimento, essas pessoas conseguem encontrar uma libertação interior. Como bem disse Rita Lee, o que permanece é o ‘tesão na alma’, uma vitalidade que transcende as limitações físicas”, afirma.

Um vale antes da curva

É interessante notar que, apesar dos idosos serem os mais satisfeitos com a vida, para chegar lá, a felicidade passa por um vale. A queda no bem-estar durante a faixa dos 40 e 50 anos coincide com o acúmulo de responsabilidades, frustrações e a sobrecarga emocional que tende a marcar esse período da vida. Contudo, a soma de aprendizados ao longo dos anos — especialmente após perdas, fracassos e decepções — nos faz amadurecer. 

Como destaca Gustavo Arns, idealizador do Congresso da Felicidade, essas vivências transformam nossa forma de enxergar a felicidade. “Aos 60 anos, muitas pessoas já desenvolveram uma bagagem emocional que as afasta da visão idealizada da juventude, baseada em expectativas irreais. Quando somos jovens, é comum perseguir uma promessa de felicidade que raramente se concretiza. Com o tempo, porém, surge uma compreensão mais profunda, verdadeira e saudável do que é, de fato, ser feliz”, diz.

Na juventude, a felicidade costuma estar muito associada a experiências intensas, conquistas, reconhecimento e construção de identidade. “É uma fase marcada por sonhos amplos, desejo de afirmação e uma certa pressa — como se tudo precisasse acontecer logo. A busca é mais externa, movida por realizações e pertencimento”, explica o psicólogo Rossandro Klinjey.

Já na maturidade, há uma mudança de eixo: a felicidade torna-se mais interna, serena e vinculada ao essencial. “Com o tempo, aprendemos a relativizar as exigências sociais, desapegamos da necessidade de agradar e passamos a valorizar mais a saúde, os vínculos afetivos verdadeiros, a simplicidade e o presente. A consciência da finitude nos torna mais seletivos com as pessoas, com os compromissos e com o que realmente importa”, ressalta.

Entre a promessa e a experiência

Embora a juventude ainda carregue um alto índice de felicidade, a pesquisa mostra que ela não garante plenitude, especialmente quando comparada à satisfação mais estável e consciente que surge após os 60 anos. Isso porque, apesar de ser uma fase de liberdade, a juventude também é marcada por inseguranças, pressões e comparações. 

“É uma liberdade cheia de boletos emocionais. Você tem muitas escolhas — o que é ótimo, mas também paralisante. ‘O que eu vou ser?’, ‘Com quem vou estar?’, ‘Onde eu vou morar?’, ‘Por que todo mundo parece estar mais adiantado do que eu?’. É tanta cobrança interna e externa que, muitas vezes, sobra pouco espaço para simplesmente viver”, afirma Rossandro.

Outro fator que favorece a felicidade na maturidade é o fato de a geração mais velha não ter sido formada sob a lógica das redes sociais. “Eles não são nativos digitais e, por isso, não foram capturados pela dinâmica da comparação constante, da busca por visibilidade, aprovação e curtidas — elementos que impactam a saúde emocional dos mais jovens. A vida dessas pessoas foi construída com mais profundidade nas relações, menos distrações e mais presença no cotidiano”, observa.

Esse distanciamento da hiperexposição digital, somado ao acúmulo de experiências e à capacidade de relativizar os problemas, contribui para a percepção de uma vida mais plena e satisfatória.

O próprio Rossandro reconhece que sua vida melhorou com o passar dos anos. “Hoje, me vejo menos refém da opinião dos outros, mais centrado no que realmente importa e com mais clareza sobre o que venho entregar ao mundo”, conta. “Me tornei mais intencional — nas relações, no trabalho, nos afetos. E sigo crescendo, aprendendo, realizando — mas agora com mais equilíbrio. Essa é a chave: maturidade não vem só com o tempo, vem com escolha. E essa escolha está aberta para todos nós. Porque, sinceramente, só ter 60 anos não garante felicidade. Mas escolher amadurecer, sim”, aconselha.

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