Por que a mudança estética de outras mulheres incomoda tanto? - Mina
 
Colunistas

Por que a mudança estética de outras mulheres incomoda tanto?

Quando o assunto é procedimento estético, criticamos quem faz, quem não faz, quem muda ou quem permanece igual — e, no fim, acabamos nos vigiando também. O que explica essa patrulha estética entre mulheres?

Por:
3 minutos |

Não é raro dar aquela rolada no feed e, de repente, se deparar com uma foto ou notícia de alguma mulher famosa (ou nem tanto) e pensar “quem é essa pessoa? O que ela fez?.” Aí você descobre: fez um procedimento estético. Ou dois. Ou sete. E lá vem o pensamento automático “mas por que ela fez isso?”. Eu já pensei. Muitas vezes. Mas, ultimamente, ando pensando sobre  esse pensamento.

Muitos especialistas dizem que estamos vivendo na era da indústria da insatisfação. Ou melhor, não seria a era da juventude eterna, da cara de 20 aos 40, da bunda de blogueira aos 50 e da barriga de lipo LAD até depois da menopausa?

O patriarcado, que nunca caiu, segue aí vigoroso dizendo como devemos parecer ser

Tem também o cargo que o patriarcado gentilmente nos concedeu: fiscal de procedimento alheio. A mulher muda o corpo e a outra corre pra comentar “pra quê tudo isso?”, “estragou o rosto!”, “era tão bonita antes…” Fiscalizamos umas às outras com a régua de um padrão que nem nós mesmas queremos seguir. No fundo, estamos querendo agradar quem? Nós? Ou esse sistema disfarçado de padrão, que dita qual rosto, corpo ou bunda devemos ter?

E o patriarcado, que nunca caiu, segue aí. Vigoroso. Dizendo como devemos ser e, ainda, como devemos parecer ser. Como bem disse Gabi Prioli, “só há patrulha se houver patrulheiros disponíveis”. E, infelizmente, estamos sempre disponíveis. A patrulha é real — e pior, é interna. Porque toda crítica ao corpo do outro começa com uma autocrítica. Por que a mudança do outro me incomoda tanto? E por que o outro muda, afinal?

É curioso ver como as mulheres se sentem pressionadas a parecer mais jovens, mais magras, mais “naturais com filtro”. Mas é igualmente curioso ver como a gente se julga por isso. Critica quem faz, quem não faz, quem muda, quem não muda. Quem emagrece com remédio, quem assume o corpo gordo, quem põe prótese, quem tira. Tá difícil agradar.

Vivemos numa cultura que vende “autoestima”, mas entrega insegurança. Que prega a insatisfação como forma de satisfação. Valoriza a beleza natural, mas impõe um padrão de corpo natural que desvaloriza o que é realmente natural. Exalta os procedimentos estéticos, mas dita quais são os “certos” e deslegitima os outros.

Aplaude corpos grandes e gordos, mas estabelece um limite do que é “aceitável” nesse corpo, desvalorizando os corpos grandes de verdade. Valoriza o emagrecimento com medicamentos, mas determina quais substâncias são “válidas”, desqualificando o ozempic alheio… Viva o corpo livre — desde que ele caiba no Instagram. Viva a autoaceitação — mas com maquiagem pra se olhar no espelho. 

Quando é suficiente ser mulher? Nessa lógica torta… nunca é. Não por acaso, o Brasil foi o campeão mundial em cirurgias plásticas no ano passado. Segundo a International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), foram 2,3 milhões de procedimentos. Lipo, silicone, abdominoplastia, bumbum novo. Tudo isso pra tentar ser alguém que talvez nem a gente saiba quem é.

Enquanto isso, seguimos aqui, tentando nos livrar das patrulhas (inclusive da nossa). Buscando alguma paz na frente do espelho e, quem sabe um dia, perguntando menos “por que ela fez isso?” e mais “será que ela tá feliz?”.

Mais lidas

Veja também