Um chamado à descompressão emocional
Entre pressões externas e cobranças internas, existe um caminho mais gentil com você. A psicóloga Ediane Ribeiro lembra que mesmo as mulheres fortes precisam de descanso – e isso não deveria causar culpa
Você termina o trabalho e está exausta. Mas não é somente um cansaço físico: seus pensamentos apertam o cérebro, os ombros quase tocam as orelhas, os dentes estão cerrados de tensão. Tudo que você queria era se jogar num quarto escuro e não ouvir mais nenhuma voz humana. Mas não é isso que vai fazer. Ainda precisa dar conta da casa, dos filhos, da rotina do dia seguinte, acolher as emoções de todo mundo… e sorrir.
É aí que entra a necessidade urgente de algo que poucas vezes falamos: descompressão emocional. Um tempo para respirar entre a tensão e a próxima cobrança. Um espaço para lembrar que, antes de ser produtiva, você é um corpo que sente.
A sobrecarga silenciosa
A cultura de oferecer o melhor de nós ao trabalho — e nossas sobras para todas as outras áreas da vida — não atinge apenas as mulheres. Mas somos nós que mais caímos no looping infinito de cobranças internas e externas: dar conta de tudo sozinhas, ser multitarefa, forte, sem perder a ternura.
Essa equação não fecha. E nunca vai fechar. A heroína de hoje é, muitas vezes, a mulher adoecida de amanhã. Não à toa, crescem os índices de burnout, crises de ansiedade, depressão e todo tipo de desconexão dolorosa que lança o nosso sistema corpo-mente num pedido silencioso de socorro.
Descomprimir para não implodir
Assim como um mergulhador precisa subir lentamente para não sofrer com a descompressão, nós também precisamos sair desse “oceano de pressões” de forma gentil, gradual e consciente. Estamos há gerações submersas nele.
Muitas de nós aprendemos a medir nosso valor pelo que entregamos no trabalho, ao mesmo tempo em que carregamos, quase sem perceber, a responsabilidade pelo bem-estar de todo mundo à nossa volta. Além de sobrecarregadas, viramos esponjas emocionais: absorvendo o estresse da casa, do trabalho, da vida.
Com isso, vamos afundando cada vez mais no oceano da exaustão física e emocional. E, se não resgatamos a nós mesmas, é provável que ninguém o faça. Afinal, tudo está desenhado para que, inclusive nós, acreditemos que viver nesse limite é normal.
O processo de soltar a pressão acumulada de um dia, de uma semana — ou de uma vida inteira — pode ser desafiador para quem não só se acostumou à sobrecarga, como aprendeu a se sentir valorizada por ela. Nesse estágio, podemos sentir uma certa estranheza quando tudo está calmo ou não conseguir usufruir dos momentos de descanso e relaxamento sem culpa. Descansar agora parece perigoso.
É por isso que a descompressão emocional não tem fórmula pronta. Cada mulher vem de uma profundidade diferente e o caminho precisa respeitar a história de cada uma. Seja qual for, ele passa por distinguir a pressão que não pode ser eliminada (e precisa ser manejada) daquela que você mesma está se infligindo.
Algumas perguntas para respirar
Refletir, ou até escrever, sobre o que se sente pode ajudar a organizar essa diferença.
- O que você sente ao pensar nos próprios limites?
- Como está a divisão de responsabilidades no trabalho? E fora dele?
- Quando pode, você consegue descansar sem culpa?
- Em que momentos pensa no seu bem-estar e não no de outra pessoa?
- Será que você precisa de mais 40 horas no seu dia ou de mais suporte?
- Será que seu trabalho precisa mesmo que você se desgaste tanto?
- Essa preocupação vai importar daqui a um ano? E daqui a uma semana?
- Quando foi a última vez que fez algo só para se divertir ou relaxar?
Essas são algumas das perguntas que podem ajudar a refletir sobre pequenos movimentos de descompressão que precisam ser feitos. Muitas vezes deixamos de agir no possível porque estamos esperando o ideal. Lembre-se: descompressão emocional é uma necessidade, você não precisa esperar as férias ou o colapso para começar a praticá-la.
