Enganados, isolados e culpabilizados: os idosos no centro dos golpes digitais - Mina
 
Nosso Mundo / Reportagem

Enganados, isolados e culpabilizados: os idosos no centro dos golpes digitais

Enquanto os golpes financeiros contra pessoas acima dos 60 anos disparam no Brasil, especialistas alertam: o problema não está na ingenuidade das vítimas, mas na falta de proteção, educação digital e empatia de um sistema que falha com os mais velhos

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Golpes financeiros contra idosos têm se multiplicado nos últimos anos, com um número crescente de vítimas enganadas por criminosos que exploram o medo e a vulnerabilidade digital. O engenheiro aposentado Rubens Martins Nogueira, de 78 anos, é um deles. Desde que caiu em um golpe que lhe tirou R$ 27.431, o número o assombra. “Toda vez que vou ao banco agora, eu lembro que esses desgraçados roubaram meu dinheiro. E sabe o que mais me dá raiva? É que não dá para fazer nada”, desabafa.

Entre os golpes mais frequentes: cartão clonado, pedido de dinheiro e ligações de falsos funcionários

Em outubro de 2022, Rubens recebeu uma ligação desesperadora: golpistas exigiam um pix de R$ 30 mil para liberar sua filha, supostamente sequestrada. A encenação foi tão bem feita que ele reconheceu a voz como sendo a da própria filha e ouviu os nomes das netas e do genro. Em pânico, transferiu o valor sem pensar duas vezes.  A filha, Raquel de Souza Nogueira Tomanezi, de 50 anos, conta que o prejuízo emocional superou o financeiro. Segundo ela, o pai ficou abalado e precisou ir ao hospital. “Até hoje ele fica mal quando precisa fazer alguma transação. Pix mesmo ele nem tem mais.”

Um levantamento da FEBRABAN (Federação Brasileira de Bancos) mostrou que, durante os dois anos da pandemia da Covid-19, houve um aumento de 60% nas tentativas de golpes contra pessoas idosas. E a escalada continua: entre setembro de 2024 e março de 2025, o número de vítimas ou tentativas de golpe cresceu mais 5%. Entre os principais tipos estão a clonagem de cartão, o golpe do WhatsApp — em que alguém se passa por um conhecido pedindo dinheiro — e a ligação de falsos funcionários de banco.

Para Elaine Coimbra, CEO da Foster, agência do grupo WPP especializada em inteligência artificial, a digitalização forçada na pandemia é uma das causas centrais desse aumento. Ela explica que muitos idosos foram empurrados para o mundo digital sem o preparo adequado. “Eles foram jogados num mar de ferramentas complexas sem colete salva-vidas. A verdade é que o digital nunca foi pensado para eles: interfaces difíceis, letras pequenas, excesso de notificações. Tudo isso aumenta o risco de erro — e os criminosos sabem disso.”

Os bancos, por sua vez, investem em média R$ 2 bilhões por ano em departamentos antifraude. Também têm apostado em campanhas educativas, com manuais e vídeos nas redes sociais. Até o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania lançou uma cartilha específica: “Cartilha de Apoio à Pessoa Idosa: Enfrentamento à Violência Patrimonial e Financeira”. 

“O problema é complexo, mas a resposta começa com parar de fingir que os golpes são culpa de quem cai”

Rogério Athayde, chefe de segurança da empresa de cibersegurança Keeggo, afirma que a conscientização continua sendo uma das principais formas de defesa. Ele destaca medidas como autenticação multifator, monitoramento em tempo real, criptografia de ponta a ponta, análise comportamental com inteligência artificial e, sobretudo, educação contínua dos usuários. “É preciso conhecer as armadilhas para não cair nelas”, diz. 

Mas mesmo com tantas iniciativas, a proteção ainda está longe do ideal. “A gente já criou ambientes digitais adaptados para crianças, com controle de conteúdo, horários e alertas de segurança. Mas quando se trata dos nossos pais e avós, o assunto ainda é tabu — como se fosse normal esperar que alguém de 70 anos use o celular com a mesma agilidade de quem cresceu com ele na mão”, pontua Elaine.

Ela defende que a culpa nunca deve ser da vítima. “Não é que os idosos sejam mais ingênuos. Eles apenas estão menos protegidos: pela sociedade, pelos apps, pelos bancos e por nós. O problema é complexo, mas a resposta começa com um princípio simples: parar de fingir que os golpes são culpa de quem cai. E começar a responsabilizar quem projeta sistemas que não consideram os mais velhos. Isso inclui educar, adaptar e proteger. Mas, acima de tudo, respeitar”.

Depois do trauma, Rubens reduziu drasticamente o uso do celular — e reinventou a relação com a tecnologia. “Minha filha me matriculou num curso da igreja que ensina a mexer no celular. Eu não aprendi muita coisa não, mas acabei fazendo amizade lá e arranjei uma namorada. Celular agora é só pra marcar dominó, cervejinha ou tirar foto da minha gatona”, brinca. Histórias como a dele mostram que, apesar dos golpes, ainda é possível retomar a autonomia, criar novos vínculos e redescobrir o prazer de viver, com mais cuidado, mas também com mais leveza.

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