Giulia Costa: “Eu não conseguia comer um chocolate sem me punir” - Mina
 
Seu Corpo / Arquivo Pessoal

Giulia Costa: “Eu não conseguia comer um chocolate sem me punir”

Crescer sob holofotes tornou a convivência com o próprio corpo complicada. Filha da atriz Flávia Alessandra, considerada símbolo sexual, Giulia demorou a encontrar um lugar onde respeitasse suas curvas e sua história

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A atriz, cineasta e apresentadora Giulia Costa cresceu sob os holofotes e mesmo antes de ter a própria carreira, já precisava administrar todo o pacote que a fama envolvia: críticas, assédios e expectativas alheias. Criada em sets de gravação, ela é filha da atriz Flávia Alessandra com o diretor Marcos Paulo e enteada do apresentador Otaviano Costa.

Hoje, aos 25 anos, ela lida com a própria visibilidade com mais tranquilidade e já não sente necessidade de convencer ninguém de que merece estar ali. O rótulo de nepobaby já não é um problema. Prefere usar o seu privilégio e o alcance que conquistou (quase três milhões de seguidores no Instagram) para transformar a vitrine em conversa, seja nas redes ou no “Pé no Sofá”, podcast que apresenta com a mãe.

Mas nem sempre foi assim. Por muito tempo, as cobranças externas — e as internas — deixaram marcas, afetando corpo e mente. Na busca por um ideal de beleza impossível para o seu biotipo, desenvolveu transtornos alimentares que passaram despercebidos até pela família e por médicos. “Achava que era normal ficar tomando laxante diariamente”, diz com a mesma franqueza que hoje leva para o público. É desse lugar direto, sem retoques, que ela conversou com a MINA sobre a sua relação com o corpo e a própria autoestima. 

“Hoje vejo com muita empatia tudo o que minha mãe fez pra me criar”

Giulia Costa aos 7 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Entre as memórias mais antigas, Arraial do Cabo ocupa lugar de destaque — quase sempre ao lado da avó materna, Rachel, de quem herdou o sobrenome “Costa”. “Era onde a família da minha mãe tinha casa”, relembra. Outro cenário constante no seu imaginário é o apartamento no Rio de Janeiro onde vivia com a mãe. Naquele período, Flávia acabara de se separar do pai de Giulia, o diretor Marcos Paulo, e começava a despontar nacionalmente como atriz de sucesso.

“Nós éramos muito próximas. Nos fins de semana, eu acordava antes dela, passeava de bicicleta pelo condomínio, comprava flores e a acordava na cama, com o café pronto”, conta. Ao revisitar essa fase, Giulia faz um paralelo com a trajetória da mãe: “Ela casou com meu pai muito nova e, quando se separou, ainda era jovem, sem tanta independência financeira. Não foi fácil pra ela passar por isso, então hoje reconheço o que ela fez — e não sei se eu conseguiria equilibrar tudo com tanta maestria”, diz, com a empatia e o carinho que sempre surgem quando fala da mãe.

“Dormia abraçada com uma foto em tamanho real da minha mãe para a Playboy”

Se lambuzando de chocolate antes de ser uma questão (Foto: Arquivo pessoal)

Enquanto Flávia conquistava o país como a vilã Cristina, na novela “Alma Gêmea”, Giulia percebia a relação entre mãe e filha mudar. “Eu detestava que ela fosse me buscar na escola. As crianças faziam fila para tirar foto com ela.” A partir dali, os momentos a sós foram ficando cada vez mais raros — mas a saudade, não.

Foi com 6 anos, em 2006, que Giulia encontrou uma maneira “curiosa” de driblar essa distância: “Quando minha mãe posou nua pela primeira vez, ela recebeu um totem em tamanho real de uma das fotos. Eu lembro de vestir esse totem com um pijama e dormir abraçado com ‘ela’, para matar a saudades”. Giulia ri da lembrança: “As pessoas acham doentio, eu acho fofo”.

Foi também nessa época que começou a dividir a atenção de Flávia com Otaviano Costa, que mais tarde se tornaria seu padrasto. “Ele mexeu um pouco com a nossa dinâmica, não dá para negar. Lembro de vê-lo acordado até mais tarde, bebendo refrigerante, falando palavrão, e cobrar minha mãe para me deixar fazer o mesmo.” 

O que Giulia não sabia é que aquele “cara estranho” que virava madrugadas no videogame não sairia tão cedo de sua vida. Hoje, ela o chama de “Tiano” e o considera seu segundo pai. “Desde o começo nos demos bem, ele se acostumou rápido a dividir a vida com uma criança; sempre foi presente, brincalhão e até aprendeu a dar broncas”.  

“A fama dos meus pais me fazia ser excluída na escola”

Com a mãe, o padrasto e a irmã visitando a Disney aos 11 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Foi quando tinha 12 anos, que Giulia mudou a visão que tinha sobre a mãe fazer ensaios sensuais. “Em casa, nudez sempre foi um tema natural, eu não achava aquilo estranho. Mas quando um garoto da minha sala abriu a foto da minha mãe nua na tela do computador de uma aula, aquilo me incomodou”. 

E aquela não seria nem a primeira, nem a última vez, que Giulia receberia tratamento diferenciado por causa da fama dos pais. “Chegou ao ponto de uma professora ter que chamar as meninas da classe para uma conversa: ‘Não é porque ela é filha de alguém que a gente vê na TV que ela não arrota, não solta pum, que ela não tem inseguranças”, conta com bom humor.

Um dos preços da fama da família veio na Disney. Agora, já com a irmã Olívia na história. “Reconheceram minha mãe e o ‘Taviano’ e uma multidão de brasileiros se formou ao redor deles. Tivemos que ser retirados do parque pelo backstage. Tampamos o carrinho da Olívia com um pano para ela não ver o Mickey sem cabeça, a princesa fumando cigarro. Foi um caos”, ri.

“Depois da morte do meu pai, fomos muito atacadas”

Ao lado do pai na infância (Foto: Arquivo pessoal)

Giulia tinha 12 anos quando o pai faleceu em decorrência de uma embolia pulmonar. “Era uma criança quando isso aconteceu. Lembro de postar foto no meu Instagram depois da morte dele e ser xingada por pessoas dizendo que eu não estava triste, que eu era uma péssima filha”. 

Até hoje, o assunto ainda a cerca. “Eu não consigo compreender por que há uma espetacularização da morte de celebridades, como se a família não estivesse ali, sofrendo.” Ela lembra que levou muito tempo para aceitar e falar sobre a perda, agravada pela polêmica em torno da herança do pai – por uma confusão com o testamento, as três filhas de Marcos Paulo brigaram na justiça com Antonia Fontenelle, que vivia uma relação estável com o diretor quando ele faleceu.  

Durante anos, repetia uma resposta pronta quando o tema surgia: “Não falo sobre isso”. O período foi de sofrimento, especialmente para a mãe, que, mesmo sem relação com a história, acabou envolvida por ser sua representante legal, já que Giulia era menor de idade. “Sofremos, fomos muito atacadas”.

“Desde nova, sempre fui namoradeira”

Giulia Costa aos 15 anos (Foto: Arquivo pessoal)

Foi na Globo — emissora onde a mãe construiu boa parte da própria carreira — que Giulia viveu o papel mais marcante até hoje: a personagem Lívia, em Malhação. “Encaixava as gravações entre uma aula e outra. A condição para continuar atuando era ir bem na escola.”

A novela também marcou um ponto de virada pessoal. “Me senti confiante o suficiente para sair de um relacionamento abusivo que mantinha desde os 12 anos. Ele me traía, me ameaçava… não era nada saudável. Mas uma coisa é fato: eu sempre fui namoradeira”, diz, rindo.

Aos 15, ela conta que viveu o melhor momento da vida, mas ele veio misturado com a relação mais difícil: a que tinha com o próprio corpo. “Fazia dietas malucas, ficava horas sem comer, tomava laxante. Foi a época em que meu corpo mais esteve em evidência e, ao mesmo tempo, a fase em que enfrentei mais períodos de estresse.”

“A TV mexe na forma como a gente vê os corpos”, diz. No caso de Giulia, levou tempo para entender que herdou do pai a tendência às variações de peso, engordando e emagrecendo com facilidade. Ainda assim, a comparação com a mãe, considerada símbolo sexual, era inevitável, vinha tanto dela mesma quanto da opinião pública. “Somos seres diferentes, organismos vivos diferentes, com convivências, histórias, traumas e gostos próprios. Demorou para eu amadurecer e entender isso”.

“Levei muito tempo para não relacionar comida com punição”

Nos últimos anos, mais consciente da própria relação com o corpo (Foto: Arquivo pessoal)

Ao sair da adolescência, Giulia entrou em outro relacionamento abusivo, o que agravou seu transtorno alimentar. “Ele comprava tudo o que eu gostava e dizia para eu comer bastante, porque assim engordaria e ninguém mais ia querer ficar comigo”, relembra.

Nessa época, acreditava que tomar laxante quase todos os dias era normal. “Eu não entendia que aquilo era bulimia. Minha mãe começou a suspeitar quando tive princípios de desmaio, mas ela achou que era anemia, algo relacionado a Síndrome dos Ovários Policísticos. Foi conversando com meu psiquiatra que entendi que tomar laxante daquele jeito não era bom. Ali, descobri que minha relação com a comida era a raiz da ansiedade e da insegurança que eu sentia.”

Antes, no auge das crises de transtorno alimentar, Giulia fazia o que acreditava ser jejum intermitente. Só que passava 20 horas sem comer e, depois, descontava a ansiedade em doces, pizzas e outros alimentos que adorava. Via as comidas que gostava como recompensa e a fome como punição. Levou tempo para perceber que não era assim. Foi durante a pandemia que teve contato com conteúdos sobre positividade corporal e começou a ressignificar a forma como se relacionava com o próprio corpo. “Hoje já não me culpo se como um chocolate.” 

Em 2022, formou-se em Cinema com um desejo claro: levar para o campo profissional a parceria que já tinha com a mãe. Em 2024, esse plano ganhou forma com o videocast Pé no Sofá. “Minha mãe diz que quanto mais à vontade eu me sinto, mais aberta fico — e mais me esparramo no sofá”.

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