Ghosting financeiro: quando a amiga some por falta de grana - Mina
 
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Sua amiga sumiu? Pode ser por falta de grana, não de afeto

Quando o bolso aperta, até as amizades sofrem: fenômenos como “ghosting financeiro” e “friendflation” mostram que falar de dinheiro ainda é tabu. A consultora Jana Gomes dá caminhos práticos pra manter os encontros possíveis sem pesar na conta ou na consciência.

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Talvez esse nem seja um cenário que você considere possível. Mas sabe aquela amiga que sumiu do grupo sem maiores explicações? Pois é: pode não ser falta de afeto, mas sim uma questão financeira sobre a qual ela não teve coragem de falar. Esse tipo de afastamento já ganhou até apelido: “ghosting financeiro”. E, quando a pessoa não some, mas começa a inventar desculpas criativas para escapar dos rolês, entra em cena a “friendflation”. Calma, vou explicar melhor. 

Gastar também é um ato social

O economista Presley Vasconcellos usa “ghosting econômico” para descrever o movimento de se afastar dos amigos porque a conta bancária não acompanha a agenda social da turma — e aí o silêncio fala mais alto. Já o Financial Times fala em “friendflation” para nomear aquela sensação de que manter amizades ficou tão caro quanto manter um carro importado: festas, casamentos, aniversários e até o simples café depois do expediente viram fonte de pressão, especialmente pros mais jovens. No fim das contas, alguns vínculos acabam se rompendo – e não é por falta de amor.

Muito mais do que escolhas individuais, gastar é também um ato social. Se a gente não conversa sobre como os programas cabem (ou não) na vida de cada uma, o simples “estar junto” pode virar um fardo financeiro. Isso sem que ninguém perceba. A The Friendship Tab (2025), encomendada pelo Ally Bank nos Estados Unidos, mostrou que 44% das pessoas da Geração Z e Millennials já deixaram de ir a eventos sociais importantes por causa do custo, mas preferiram inventar uma desculpa a admitir que era por falta de dinheiro. Ou seja, se você nunca falou de grana com suas amigas, saiba que não está sozinha. É como diz o antropólogo Michel Alcoforado: a gente conta intimidades sexuais pro vizinho, mas trava quando o assunto é dinheiro. 

A boa notícia é que dá pra virar esse jogo. Se você percebeu que aquela amiga se afastou por causa de grana — ou se é você quem está nesse lugar —, existem formas de reaproximar sem transformar cada encontro em um boletim financeiro. Nada mais injusto do que perder a convivência por um motivo que poderia ser compartilhado e ajustado, certo?

No livro “E se eu parasse de comprar?”, Joanna Moura, criadora de conteúdo que comandava o blog Um Ano Sem Zara, conta como começou a recusar convites para almoçar no restaurante mais caro com os colegas de trabalho. A decisão parecia pequena, mas abriu espaço pra conversas que mostraram que outros estavam no mesmo barco, só não tinham coragem de falar. Aos poucos, até a gestora passou a se juntar ao grupo que levava marmita ou escolhia um restaurante mais em conta. O almoço caro virou ocasião especial, não rotina.

Seja Pollyanna ou realista, gosto de acreditar que ainda temos força pra priorizar a amizade em vez do preço do couvert. Aqui, algumas ideias práticas:

  • Fale sobre dinheiro: não precisa abrir planilha ou confessar dívidas. Perguntar “quanto você tem gastado no mercado?” já é um começo. O importante é colocar o assunto na roda sem achar que é falta de elegância.
  • Ajuste o rolê ao bolso de todas: se a ideia é se ver, tanto faz se é rooftop com DJ ou boteco com pastel. O ponto é que ninguém volte pra casa preocupada com o que restou das finanças pro resto do mês.
  • Varie os programas: uma caminhada no parque, uma noite de jogos em casa ou até cozinhar juntas podem ser tão legais quanto o jantar caro. No fim, o que importa é estar junto e não colecionar comprovantes de débito.

Se todo mundo falar, negociar e se organizar direitinho, dinheiro vira só mais um assunto no grupo do WhatsApp — bem menos tenso que discutir quem esqueceu de pagar o pix do churrasco.

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