O que você vai ser quando envelhecer? - Mina
 
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O que você vai ser quando envelhecer?

Inspirada pelo filme “O Último Azul”, que desafia o silêncio em torno da forma como a sociedade trata a velhice, Letícia Vidica provoca: afinal, como queremos envelhecer, apagados ou reinventando nossos sonhos?

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Quando a gente é criança, todo mundo faz a clássica pergunta: “O que você vai ser quando crescer?”. Engraçado é que ninguém nunca pergunta: “E quando envelhecer, o que você vai ser?”. Pois é. O verbo “crescer” parou na juventude. A gente cresce até um certo ponto e depois, na cabeça da sociedade, o futuro meio que se apaga. Envelhecer? Melhor não falar sobre isso, né? Como se fosse um spoiler indesejado da vida.

A velhice não precisa ser um fim, mas um recomeço

E é justamente esse silêncio que o filme “O Último Azul”, do diretor Gabriel Mascaro, se propõe a romper com elegância e coragem. “O futuro é para todos”. Será mesmo? Situada na Amazônia, a trama nos coloca num Brasil distópico em que o governo decreta: quem chegar aos 75 anos deve ser enviado para colônias onde “desfrutará” seus últimos anos. Um eufemismo cruel para dizer: “você não serve mais”.

Diante desse decreto, Tereza, de 77 anos, embarca numa jornada por rios sinuosos para realizar seu último desejo: voar. E olha, ela voa — no coração e no imaginário. Tereza, interpretada por Denise Weinberg, quebra o estereótipo do idoso como frágil e surge como força viva: ativa, sonhadora, audaciosa. Uma mulher que recusa ser reduzida ao esquecimento.

E é nesse ponto que o filme provoca: quais histórias estamos construindo? Quais desejos estamos realizando? Vivemos num sistema que só valoriza o que rende e, sem “produtividade”, o idoso muitas vezes se torna invisível. É a lógica capitalista: velhos vistos como peso, descartáveis, fora do circuito. Quando, na verdade, a velhice não precisa ser um fim, mas um recomeço.

Assim como Tereza correu atrás do sonho de voar, quantos de nós só lembramos dos desejos esquecidos quando o envelhecimento já bate à porta? Cruel? Sim. Mas se a gente olhar bem, não estamos tão distantes dessa realidade. Quantas vezes você já viu uma pessoa idosa tratada como se fosse um móvel antigo, que vai empoeirando no canto da sala?

A expectativa de vida aumenta, mas o espaço para o idoso na sociedade parece encolher. O velho só ganha holofote se consumir, se viajar, se for “jovem há mais tempo”. Do contrário, a invisibilidade é quase automática. E aí entra a provocação: como você está preparando o seu envelhecer? Porque, spoiler de novo: um dia a gente também chega lá.

Envelhecer também é ter o direito de continuar sonhando

Entre povos indígenas, a maturidade é vista como luz, sabedoria, guia para o futuro. Aqui, insistimos em apagar essa fase sob o culto da juventude eterna, da produtividade, do “faça mais, seja mais”. Como se envelhecer fosse um erro de percurso. Mas olha, não é. Envelhecer é a maior prova de que a vida deu certo. É conquista, é presente, é ato de resistência. É o acúmulo das nossas histórias, marcas, quedas e brilhos.

E talvez a preparação comece na forma como escolhemos olhar para a velhice: com carinho, respeito e curiosidade. Porque envelhecer também é ter o direito de continuar sonhando, reinventando e, sim, voando. Então, que tal mudar a pergunta? Em vez de “o que você vai ser quando crescer?”, começarmos a perguntar: “O que você quer ser quando envelhecer?” Quem sabe, a resposta seja simples: quero ser respeitado, ouvido, lembrado — e não apagado.

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