É preciso valorizar o amadorismo
Quando a gente quer dizer que alguém é ruim em alguma coisa, logo solta um “parece amador”. Luisa Micheletti questiona essa lógica, resgata a origem da palavra e lembra que existe muita beleza fazer coisas se ter um objetivo
Há quanto tempo você não faz uma atividade sem ter nenhum objetivo em mente? Simplesmente para o seu prazer, sem se cobrar ser boa naquilo. Nenhuma expectativa de aprimoramento, nenhuma meta. Mais ou menos como a gente fazia na infância, quando pegava giz de cera e desenhava, sem ter nem ideia do que era a Bienal de Artes. Ou quando dava estrelinhas no gramado sem mirar nos jogos olímpicos. Ou quando cantava em rodas de violão na praia sem ter medo de não cantar bem.
Ser amador é fazer algo apenas por amor. E isso é muita coisa
Não é de hoje que o mundo adotou uma lógica de desempenho. É como se toda e qualquer atividade precisasse ter um porquê. Os motivos são muitos e vão da precarização do trabalho à uma lógica individualizante de existência, entre outros sintomas dos nossos tempos. A palavra “amadorismo” vem de “amar”, algo feito por quem ama. Será que estamos assassinando este tipo de amor querendo ser profissionais demais? Não seria de se espantar. Não só “tempo é dinheiro”, como as fronteiras entre trabalho e descanso estão cada vez mais confusas.
Um dos filósofos mais lidos hoje em dia, o coreano Byung-Chul Han, diz que existe uma grande diferença entre trabalho e desempenho. O trabalho tem começo, e tem fim. Os limites ficam claros e não há dúvidas sobre quando começa o momento de descanso. Já o desempenho, não. Ele invade, disfarçadamente, nossa privacidade, nosso descanso, nossas celebrações. “Como assim, estou deitada numa rede? Eu deveria estar produzindo. Já sei, vou fazer um post no instagram sobre a importância do descanso” – grita a mente viciada em desempenho, arruinando qualquer possibilidade de esvaziamento e de recarga saudável.
Em tempos em que festas se tornaram “eventos”, e colecionam expectativas coletivas que vão muito além de simplesmente estar junto, em comunidade, é raro lembrar de momentos em que estivemos presentes única e exclusivamente para nos divertir e usufruir do agora, sem nenhuma obrigação ou ambição de “ganhar algo com isso”.
Dia desses, fui tentar aprender a surfar, aos 42 anos. Com qual finalidade? Nenhuma. Peguei duas marolas minúsculas e praticamente “insurfáveis” e fiquei em pé na prancha por nove segundos. Não tenho perfil de esportista, e este feito nada vai acrescentar nas minhas ambições artísticas. Mas confesso que fiquei feliz como há tempos não ficava. Ri muito. Uma onda de espontaneidade, alegria, e de uma bobeira sagrada me fez dar risada até doer a barriga. Isso sim foi um grande feito.
O teatro é um ambiente que me lembra constantemente da importância de brincar. Em inglês, “to play”, é o mesmo termo usado para o que chamamos de “peça” de teatro. “Play”. É um jogo. Além da técnica, do texto, da marcação, da trabalheira que é estar em cartaz, existe o principal: o prazer do jogo. Quem não se diverte em cena, geralmente, não diverte o público. Quando estou em cartaz e sinto que estou me levando a sério demais, provavelmente algo não está no lugar certo.
Na vida, há muita beleza em se permitir, de vez em quando, em não ter um objetivo, em desprezar a estratégia, em errar. Os poetas são bons nisso. Fazer uma aquarela sem técnica, jogar tênis sem saber as regras, usar o baralho como dardos para acertar as cartas num chapéu ou inventar uma língua estranha para conversar com crianças pode ser o verdadeiro descanso que procuramos neste mundo tão exigente.