Tatiana Vasconcellos: Por que homens não leem mulheres? - Mina
 
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“É para a minha mulher”

Tatiana Vasconcellos reflete sobre por que tantos homens compram seu recém-lançado livro, “Nem Toda Mulher”, para mulheres, mas quase nunca para si mesmos.

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“É para Marina”.
“Vou dar de presente de aniversário para a minha irmã, o nome dela é Roberta”.
“É para Amanda, minha namorada”. 
“Para Vivian e Tiago, por favor”.
“Acompanho você, vou dar seu livro de presente para uma amiga, Iara”. 
O fenômeno dos homens que dedicam meu livro, “Nem Toda Mulher”, para suas companheiras. Irmãs. Filhas. Mães. Amigas. 

Antes de começar, um adendo amoroso, não quero ser mal-compreendida: comprem o “Nem Toda Mulher” de presente para quem quiserem, para todo mundo, mães, filhas e filhos, pais, noras, genros, tios e tias, amigos etc. É para isso que ele existe: para ser lido, dado como presente, circular e ser levado pra passear por aí. Obrigada! 🙂 É que a recorrência da situação me levou para a tese de que “homens não leem mulheres”. 

O que mulheres escrevem, pasmem, também se chama literatura

Nunca tivemos tantas mulheres autoras publicadas e isso é ótimo, já que passamos a vida lendo majoritariamente (se não apenas) homens e chamando de literatura. Claro, trata-se de literatura, mas não de toda a literatura. Digo isso, porque o “restante”, não faz muito tempo, era chamado de “literatura feminina”, nomenclatura rapidamente questionada, criticada e abolida. Ainda bem. Lembrando que o que mulheres escrevem, pasmem, também se chama literatura. Opa, chega um pouquinho mais pra lá, obrigada.  

E quem lê? De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura, de 2024, 44% dos homens leem – percentual que sobe para 49% entre as mulheres. Na mesma pesquisa, 9% dos leitores disseram que o hábito foi incentivado pela mãe ou responsável do sexo feminino, contra 4% que apontaram o pai ou responsável do sexo masculino. Bem, lemos mais, incentivamos mais a leitura e, agora, temos publicado mais. 

Leitora desde a infância, passei por fases de maior ou menor proximidade com os livros, quase sempre de autores. Há alguns anos, decidi escolher autoras, intencionalmente. O estímulo veio tanto do delicioso (e trabalhoso) ofício de entrevistadora quanto do mercado editorial, que nos entregou maravilhas como Alba de Céspedes, Andrea Del Fuego, Annie Ernaux, Eliana Alvez Cruz, Deborah Levy, Han Kang, Ryane Leão, Liana Ferraz e Natalia Timerman. Desde então, fui enfileirando pilhas de livros de autoras sortidas, ano após ano, e não parei mais.

Ultimamente, temos podido ler o mundo e imaginar histórias a partir do olhar, interpretação e criação de mais e mais mulheres múltiplas e diversas, como deve ser. (Dos 15 autores mais citados na mesma pesquisa, apenas cinco são mulheres: Clarice Lispector, Cecília Meirelles, Zibia Gasparetto, J.K. Rolling e Colleen Hoover.) Existir mulher é diferente de existir homem. A existência masculina, acredite se quiser, não é uma experiência universal, apesar de explorada nos livros como se fosse. 

“Nem toda Mulher” fala de existências de mulheres, inclusive através do passeio por tantos outros livros. Aparentemente tem sido entendido como “coisa de mulher”. Por que “coisa de mulher” não pode ser “para homens”?  Veja, isso não é exatamente uma queixa, é uma hipótese. 

Homens se interessam mesmo por mulheres? 

Você, “nem todo homem” que me lê agora… primeiramente, obrigada pela sua atenção. Agora, liste em voz alta (se estiver em local público, escreva ou fale só dentro da sua cabeça) cinco autoras de cujos livros você goste. 
Cinco mulheres que admira na sua área de atuação profissional. 
Cinco cantoras que costuma ouvir. 
Cinco mulheres que você deseja sexualmente.
Que lista foi mais rápida de ser feita? 

A filósofa norte-americana Marilyn Frye descreve um padrão de homoerotismo masculino que parece fazer sentido nessa conjectura duvidosa: um comportamento cultural entre homens, desvinculado da orientação sexual, segundo o qual eles direcionam interesse, admiração e afeto a outros homens, enquanto as mulheres são vistas e tratadas principalmente como objetos de desejo sexual e de utilidade prática. Esse padrão influencia a forma como os homens se relacionam entre si e com os gêneros, moldando expectativas, hierarquias e normas de comportamento.

O que me leva a outras perguntas e observações práticas: homens se interessam mesmo por mulheres? Prestam atenção, procuram ler, ouvir e considerar suas ideias, seus processos emocionais e físicos, suas impressões a respeito de como as coisas se dão? São curiosos, engajados e capazes de admirar as criações de mulheres? 


Um amigo querido me escreve para dizer que vai comprar o livro para a companheira. Pergunto: “e para você?”. Ele retruca: “Ué, mas não é um livro mais voltado às mulheres?”.

“To escrevendo exatamente sobre esse ponto. O que te faz crer nisso?”, indago e deixo ele responder segundo seu próprio raciocínio nas mensagens, uma após a outra:
— Hmmm… o título, basicamente.
— Imagino que o tema seja mais “feminista”. O que, obviamente, não deveria me excluir da leitura.
— Pelo contrário, na verdade, né?
“Exatamente!”, respondo, já combinando um dia de bebericos para autografar dois livros, um para cada um.

Se o tema é “mais feminista”, aí sim é que deve ser lido por eles. Tenho desejado que o “Nem Toda Mulher” encontre homens dispostos e provoque boas conversas. Conversas estimulam pensamentos, elaboração de conceitos e criticidade, despertam sentimentos, impulsionam ações. Desse movimento, talvez surjam novos padrões de comportamento, relacionamento e convivência mais harmoniosos, redondos e macios. E isso é coisa de todo mundo. 

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