Ela sustenta a casa, mas dizem que não leva jeito pras finanças - Mina
 
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Ela sustenta a casa, mas dizem que não leva jeito pras finanças

Dandara Pagu escreve sobre a contradição de quem sempre fez milagre com pouco, mas ainda precisa provar que sabe lidar com dinheiro em um jogo manipulado contra as mulheres pobres.

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A cena é clássica: a mulher sustenta a casa inteira, paga a conta de luz, a compra do mês, o uniforme da criança, o plano de saúde de todos (quando tem), mas, quando chega no banco para pedir um crédito, parece que está pedindo um favor. A pesquisa da Serasa mostra: 68% das empreendedoras já tiveram crédito negado. Negado, minha gente. Enquanto isso, um homem abre empresa de fachada, pede empréstimo e sai com champanhe na mão. Para quem é mulher e pobre, o jogo é ainda mais duro: minha mãe, por exemplo, sempre vendeu lanche na rua, em shows e festas públicas. Criou sete filhos — de doze que teve — e até hoje enfrenta dificuldades com dinheiro e com a tão sonhada estabilidade.

Quem nasce na falta aprende cedo a fazer milagre com pouco, mas não a planejar a longo prazo. O dinheiro, quando aparece, vira respiro imediato: pagar uma conta atrasada, comprar uma roupa, realizar um pequeno desejo. Educação financeira nunca chegou na periferia. Crescemos sabendo que aquilo que vem logo vai embora, uma maré de sorte passageira. Não é irresponsabilidade, é sobrevivência.

E quando a dívida chega, o julgamento vem junto. A mulher pobre que atrasa conta é logo chamada de desleixada, irresponsável. Já o homem rico pode dever milhões e ainda é celebrado como ousado, visionário, empreendedor. O que em nós vira vergonha e sermão de moral, neles é tratado como estratégia.

É por isso que, mesmo estudando, fazendo cursos, montando planilhas, a mulher pobre segue sem credibilidade. Ela tem que provar três vezes mais que entende, enquanto o homem rico se apoia apenas no gogó e na confiança que já lhe é concedida. A desigualdade não é só de gênero, nem só de classe: é o cruzamento das duas que pesa mais.

Não bastasse sustentar a casa, ainda sobra a faxina, a comida, o cuidado dos filhos. Minha mãe criou os meus irmãos sozinha — nenhum pai quis ajudar em nada. E, ainda assim, a culpa caiu sobre ela: dizem que ela “escolheu mal”, como se o fracasso fosse dela, não do sistema que naturaliza a ausência masculina e sobrecarrega as mulheres.

E o mais absurdo é que, em pleno 2025, ainda tem quem ache que mulher precisa da permissão do marido para mexer com dinheiro. Que mulher é sensível demais, que não leva jeito para finanças. Enquanto isso, somos nós que seguramos a economia doméstica, emprestamos nome para abrir conta e mantemos a roda girando mesmo quando tudo desanda.

Não falta competência, organização ou coragem financeira. O que falta é o sistema admitir que o jogo sempre foi manipulado contra nós: mulheres, especialmente as pobres. Se bancos, empresas e famílias realmente reconhecessem o peso do nosso dinheiro, iam descobrir que o futuro já está nas nossas mãos. 

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