A nova geração de bebidas que trocam álcool por adaptógenos - Mina
 
Seu Corpo / Reportagem

Relaxa e energiza: a nova geração de bebidas que trocam álcool por adaptógenos

Com garrafas elegantes e discurso de equilíbrio, os drinks com ingredientes como jambu e cacau querem ocupar o lugar do champanhe sem deixar a festa acabar.

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Cacau, jambu e valeriana em garrafas elegantes. Essa é a proposta da Lucia, que se apresenta como “o primeiro aperitivo brasileiro sem álcool”. A marca aposta em uma fórmula funcional para quem quer brindar sem álcool, mas com sabor, estilo e alguma brisa. “A Lúcia nasceu do desejo de oferecer uma alternativa sofisticada ao álcool para acompanhar os momentos sociais com bem-estar”, explica Victória Linhares, fundadora da marca.

Os adaptogênicos modulam estresse e trazem sensação de equilíbrio

Segundo a empresa, a bebida “traz um brilho”, isso porque usa plantas adaptogênicas, que – simplificando a definição científica – são substâncias naturais que ajudam o corpo a se adaptar ao estresse, mantendo o equilíbrio sem causar efeitos adversos. “Chamamos de brilho essa sensação de clareza e presença: é relaxar sem perder a energia, uma experiência leve, excitante e consciente”, completa Victória.

Lá fora, a marca De Soi, cofundada por Katy Perry em 2022, vende bebidas com plantas adaptogénicas em cinco opções de sabores que, como eles dizem “colocam a diversão no modo funcional”. Os ingredientes são cogumelo reishi, juba de leão l-teanina. No site a promessa é “mood-boosting”, que podemos traduzir como “um up no humor” ou “uma levantada no astral”. Outras marcas, como Recess e Kin Euphorics, exploram combinações de adaptógenos e nootrópicos (substâncias associadas a ganho de foco, memória e desempenho cognitivo) para induzir relaxamento ou leve estimulação.

A onda não é à toa. Segundo a consultoria IWSR, o mercado global de bebidas sem ou com baixo teor alcoólico já movimenta mais de US$13 bilhões e cresce cerca de 8% ao ano, com previsão de chegar a US$250 bilhões em 2026. E ela conversa diretamente com movimentos culturais como o Dry January (Janeiro Seco) e o sober curious, cada vez mais populares entre millennials e geração Z. Uma pesquisa da Go Magenta revelou que 62% dos consumidores já pensaram em reduzir o consumo de álcool — e 79% de fato conseguiram. Servir sobriedade com charme e a promessa de “um brilho” vem bem a calhar. 

Diferentes dos energéticos

Essas bebidas com adaptógenos se distanciam dos energéticos tradicionais, geralmente carregados de cafeína, taurina e açúcar. Enquanto os energéticos oferecem um “choque” imediato de alerta, os adaptogênicos atuam de forma mais lenta, modulando o estresse e trazendo sensação de equilíbrio. 

“É uma diferença de mecanismo: os energéticos elevam a pressão arterial e podem causar palpitações ou arritmias; já os adaptógenos têm efeitos mais sutis, voltados para foco, relaxamento e energia de forma equilibrada”, explica a nutróloga Marcella Garcez, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia. Victoria pontua: “adaptógenos ajudam o corpo a lidar melhor com o estresse, trazendo equilíbrio entre relaxamento e energia”.

A brisa é real?

A pergunta mais comum é: promessa se sustenta? Segundo Marcella, existem evidências de que as plantas adaptogênicas funcionam, mas as pesquisas ainda são limitadas. “Ashwagandha já foi associada em meta-análises a pequenas reduções de estresse e melhora do sono, possivelmente via modulação do cortisol. A valeriana mostra resultados inconsistentes, mas alguns estudos indicam melhora discreta na qualidade do sono. Já o ginseng pode auxiliar na fadiga e memória, embora os achados em cognição sejam incertos”.

A médica alerta, no entanto, que ser “natural” e ter efeito discreto não faz essas substâncias serem livres de riscos. Existem grupos de risco e isso nem sempre é sabido: a ashwagandha já foi relacionada a casos de lesão hepática em pessoas predispostas; a valeriana pode potencializar o efeito de sedativos; e o ginseng interfere na agregação plaquetária, podendo interagir com anticoagulantes. É importante estar ciente de suas condições e das possíveis reações antes de ingerir qualquer produto. 

Afastados os riscos, os drinks adaptogênicos, ao lado dos mocktails criados em bares e restaurantes, mostram que socializar não precisa estar nem conectado ao álcool, nem à negação do prazer que é balançar um copinho. No fim das contas, brindar deixou de ser apenas sobre o que está no copo. É sobre como a gente quer se sentir depois que ele esvazia.

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