Quando a pressa é regra, desacelerar precisa ser coletivo
Dos áudios acelerados no x2 à culpa de quem consegue parar, Michelle Prazeres, fundadora do Instituto Desacelera, analisa como a lógica da pressa se infiltra no cotidiano e por que o descanso deve ser visto como direito.
Eu ando por aí dando aulas, fazendo palestras e ajudando pessoas, organizações e empresas a pensarem sobre o mundo acelerado e as formas de escaparmos desta sensação de que estamos sendo atropelados pela pressa que se estabeleceu como regra no cotidiano. É comum que as pessoas me perguntem como desacelerar neste mundo em que vivemos. Qual seria a fórmula para desacelerar? Ou ainda me pedirem cinco dicas infalíveis para viver sem pressa.
Sempre dou risada e explico o que, para mim, é o grande paradoxo de trabalhar com esse tema há tantos anos. Não existe uma fórmula mágica da desaceleração. No entanto, é preciso acreditar que é possível mudar as coisas e caminhar rumo a um mundo menos corrido — se eu não acreditasse nisso, não acordaria todos os dias para fazer o que faço.
“Prescrever descanso e desaceleração em contextos desiguais é violento”
Há alguns elementos que precisamos considerar. Um deles é entender que desacelerar não significa ser devagar. É muito comum que as pessoas pensem que uma vida desacelerada é uma vida mais lenta. Na verdade, desacelerar neste mundo que corre é se perguntar quando a velocidade faz sentido e quando não faz. Corremos porque a pressa virou o normal.
Um exemplo que gosto de dar é o dos aplicativos que aceleram conteúdos. Nós começamos acelerando áudios e vídeos com o pretexto de que pouparíamos tempo para o que importa. Na verdade, atendemos a um apelo das empresas de tecnologia para usar esses recursos. Começamos pensando que fazíamos uma escolha; essa escolha se tornou hábito quando deixamos o x2 como padrão; depois, virou regra quando não conseguimos mais escutar os conteúdos em ritmo normal; e, por fim, se torna violência quando deixamos para trás quem não acelera. Esse exemplo simples nos permite enxergar como a velocidade se estabelece como norma e deixamos de questioná-la.
E o que penso ser mais grave: não reconhecemos que, ao fazer isso, estamos vivendo um fenômeno coletivo. Seguimos tratando a velocidade como uma escolha individual, quando, na verdade, ao se tornar questão social, ela deixa de ser escolha para todos.
Se os valores que alicerçam este mundo acelerado são o hiperconsumo, o trabalho 24/7, a produtividade incessante e o hiperindividualismo, o bem viver é o paradigma político que orienta a ideia de que podemos caminhar para um mundo mais desacelerado e para uma vida mais comunitária. Ele pressupõe a ideia radical de que devemos descolonizar a nossa concepção de tempo como recurso que, portanto, pode ser gerenciado e medido. Essa concepção de tempo está na raiz das nossas concepções de desenvolvimento, crescimento, progresso e futuro.
É por isso que eu costumo afirmar que prescrever descanso e desaceleração em contextos desiguais é violento. Quando reforçamos a ideia de que basta a pessoa se organizar para ter cinco minutos de descanso ou de autocuidado, estamos reproduzindo uma lógica meritocrática relacionada ao tempo, o que eu chamei de cronomeritocracia na minha pesquisa.
Por onde começar
Se não temos todos as mesmas 24 horas, fica complicado tratar a desaceleração como escolha possível para todos. Por isso, precisamos afirmar o descanso como direito. Só descansaremos quando a possibilidade da pausa for compreendida a partir da interseccionalidade. A partir da compreensão de que o tempo se tornou — neste mundo — um recurso. E que precisamos garantir que todas as pessoas possam alocar tempo para o cuidado, o bem-estar e a saúde mental.
Enquanto não fizermos isso, qualquer discurso que recomende descanso vai gerar raiva e frustração em quem simplesmente não consegue parar porque não dispõe desse tempo. E vai gerar culpa em quem até pode fazer essa escolha, mas se sente improdutivo ou inadequado ao não fazer nada. Acredite: cada vez mais recebo depoimentos de pessoas que não conseguem descansar, mesmo tendo essa possibilidade.
Mas então, qual seria a saída? Como podemos viver sem pressa em um mundo que corre e nos faz correr? A primeira coisa a ter em mente é não considerar o cuidado e a desaceleração como escolha individual, não caminharemos e nem desaceleraremos se não mobilizarmos as pessoas.
Então, costumo recomendar que pensemos no cotidiano. Quais diálogos sobre tempo precisamos abrir? Aquele prazo é urgente mesmo? A primeira reunião pode começar mais tarde para acolher alguém que demora mais para chegar? Aquela tarefa que você faz enquanto realiza outra é mesmo necessária?
E claro, nos perguntamos quais escolhas não são possíveis, mas valem a pena entrar na conversa para transformar a realidade ao redor? Quais não mudam agora — porque, afinal de contas, temos boletos para pagar — e talvez só mudem com o tempo? O que pode ser feito em grupo para aliviar a sobrecarga? E qual a sua contribuição para as políticas que vão nos ajudar a caminhar rumo ao bem viver?
Sim, são mais perguntas que respostas, mas a desaceleração coletiva começa com questionamentos.