Dismorfia financeira: quando a percepção sobre suas finanças não bate com a realidade - Mina
 
Suas Emoções / Reportagem

Dismorfia financeira: quando a percepção sobre suas finanças não bate com a realidade

Medo de gastar, mesmo tendo reserva, ou impulso de consumir, mesmo no negativo: a forma como enxergamos nossas finanças muitas vezes não bate com a realidade e revela como sentimentos pesam mais que números.

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Você sabe quanto precisa ganhar por mês para pagar as contas, ser feliz (leia-se: fazer algo só por você) e, quando possível, ainda alimentar aquela reserva? Pouca gente sabe. E quando não sabemos, abrimos espaço para um fenômeno cada vez mais comum: a distorção entre o que temos e o que sentimos sobre nossas finanças. Essa sensação — de gastar sem pensar ou de ter medo de gastar mesmo com dinheiro guardado — ganhou nome: dismorfia financeira. E, para driblar isso, nada melhor que um bom planejamento financeiro. 

 “As pessoas não gostam de olhar para dinheiro, assim como gostam de ver suas emoções”

Segundo dados de um estudo realizado pelo banco digital Will Bank com mais de 2 mil pessoas de todas as classes sociais, etnias e regiões do Brasil, 7 em cada 10 brasileiros não usam palavras positivas para descrever sua situação financeira. Em seus atendimentos, a consultora Jana Gomes  já vivenciou casos nos dois extremos: “Tem quem sempre diz sim para si próprio, mesmo vivendo no negativo, mesmo não precisando daquele custo. Enquanto outros não se permitem gastos nunca, nem com uma reserva, nem mesmo com a gente falando que não vai fazer falta, por medo de escassez”.

A especialista em finanças Denise Damiani vê um verdadeiro descompasso hoje em dia: “As pessoas não querem ver o que está acontecendo com seu dinheiro, assim como não querem ver suas emoções. É o que chamamos de finança emocional, em que os gastos  (ou o medo excessivo deles)  são influenciados por sentimentos. Como se não olhar resolvesse as questões”. Ela lembra ainda que as mulheres sofrem mais: “Mesmo hoje, com muita gente falando em finanças e com as mulheres trabalhando e ganhando seu dinheiro, ainda existe um peso maior para elas: como se pensar no tema fosse egoísmo ou ganância”, diz

Mas a dismorfia financeira vai além de um descompasso, porque ela se baseia na falta. Na falta de pertencer a um padrão. E hoje, as redes sociais têm papel importante na disseminação desse “padrão”. As consequências? Fragilidade, insatisfação e deslocamento constantes. “A geração Z está inserida no ambiente digital desde sempre e olha para as redes em busca da forma de vida ideal. Com isso, o sentimento de estar para trás é diário”, fala Jana, que vê as redes como um grande vilão.

Essa busca pelo inatingível custa caro — no bolso e na saúde mental. Ainda com base em dados da pesquisa do Will Bank, 69% dos entrevistados afirmaram que as pessoas que mais bombam nas redes sociais mostram uma realidade muito distante da deles, com nuances diferentes entre classes sociais, mas ainda assim visíveis e relevantes em todas.

Além da sensação de estar sempre correndo atrás de algo que supostamente vai melhorar a vida, as pessoas enfrentam um vazio constante, depressão e estresse diário. Afinal, se comparar 24/7 é para os fortes. E olha esse dado: 99% dos brasileiros sentem algum grau de distorção sobre as próprias finanças.

Para Denise, a única maneira de mudar esse padrão é olhar para dentro. “É fundamental a reflexão. Refletir com alguém é o único jeito de transformação real e efetiva. Não precisa ser um profissional, pode ser um amigo, um parceiro, um familiar, desde que seja uma troca sem julgamentos ou cobranças”. Ela reforça que ser duros demais com nós mesmos também pode ter efeito contrário e que fazer pactos mais amorosos consigo é o melhor caminho. “Se você se tratar mal, no próximo mês vai gastar tudo de novo”.

Já que o papo ficou doce, vale lembrar que entrar em uma consultoria financeira não é só sobre contas, cortes e mudanças de vida: é também sobre sonhos e progressos. “É uma profissão que celebra as conquistas dos outros e ainda dá a chance de realizarem sonhos”, diz Jana. E isso parece bem importante: na pesquisa citada nesta reportagem, 88% dos brasileiros sentem satisfação ao conquistar algo que as pessoas (e até eles mesmos) duvidaram que fosse possível.

No fim das contas, falar de dinheiro não é só sobre números, mas sobre escolhas, autoestima e qualidade de vida. É se permitir olhar para si sem medo, entender seus limites e também seus desejos. Se conhecer financeiramente é, de certa forma, se libertar. E, nesse processo, cada passo — do boleto pago ao sonho realizado — vira uma conquista que merece ser celebrada.

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