Na COP 30, os povos indígenas foram a brisa que fez Belém respirar
A presença indígena se firmou como protagonista na COP 30, atravessando negociações, simbolismos e disputas políticas. Em Belém, a jornalista Juliana Faddul acompanhou de perto esse movimento e traz uma leitura sobre o que realmente trouxe um alívio na cúpula climática.
Cobrir uma Conferência das Partes (COP) pode ser resumido em se dividir entre o pessimismo da razão e o otimismo da vontade. Afinal, se, metade do tempo, você fica aflita com o avanço de ações nocivas ao clima (oi, ansiedade climática!), na outra metade há uma esperança que, acompanhada de indignação e coragem, te motiva a respirar.
“Quem insiste em correr em chão urbano acaba tropeçando em raízes ancestrais”
Sem sombra de dúvida, a presença indígena é o grande legado da COP 30. São 400 indígenas credenciados (360 brasileiros e 40 internacionais) apenas na Blue Zone, onde as decisões são tomadas. Segundo o Ministério dos Povos Indígenas, há mais de 3 mil indígenas na cidade de Belém. E, a cada fala, vemos que não há futuro possível sem quem sempre cuidou do passado. Ou seja: quem insiste em correr em chão urbano acaba tropeçando em raízes ancestrais.
Um dos momentos mais emocionantes foi a barqueata indígena — principalmente na Caravana da Resposta, onde estava o cacique Raoni Metuktire. Aos 93 anos e sentado em uma cadeira de rodas, ele passou uma mensagem de resiliência e, em tempos de muita fala e pouca escuta, exaltou o diálogo. O mais bonito? Até hoje ele não fala uma palavra em português. Para entender as ideias do cacique, é necessário um tradutor de mebêngôkre, língua oficial dos kayapós.
Ele também ofereceu a palavra a Kokonã Metuktire, sua filha e herdeira do legado do pai. Kokonã será a primeira cacica entre os Metuktire, que vivem na Terra Indígena Capoto Jarina, dos Kayapó, no norte do Mato Grosso.
A flecha lançada para o amanhã acertou justamente no aumento de mulheres indígenas na política. Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), houve um aumento de 75% de candidaturas femininas de povos originários, distribuídas em 26 partidos de diferentes correntes ideológicas. As mulheres indígenas são 46% do total (182) de candidaturas indígenas nas eleições de 2022.
Se, a cada negociação, relembramos capitalizações controversas, jabutis escondidos, episódios de corrupção, são esses momentos que trazem frescor. É a brisa batendo no rosto quando o calor se torna sufocante (a umidade está ultrapassando 80%, índice considerado alarmante pela OMS). A cidade parece entender que está acontecendo algo maior que ela mesma, maior que qualquer governo, maior que qualquer cúpula.
E, falando em brisa, é importante dizer que o leque se tornou o queridinho de gringos e brasileiros, que estão sofrendo com a insuficiência do ar-condicionado. Tudo aqui é muito distante, então tênis e água se tornaram objetos indispensáveis, assim como o leque se tornou objeto de desejo em ambas as zonas, azul e verde (o evento é dividido em dois pavilhões: o azul, onde decisões são tomadas, e o verde, que é aberto ao público).
“Eu vejo muita gente aqui se abanando, não aguentando o calor que está fazendo mesmo em ambiente fechado com ar-condicionado”, disse Margareth Maytapu, liderança indígena do Baixo Tapajós, no Pará. “Agora eu digo: imagina a gente, que muitas vezes nem ventilador temos. É bom que vejam a nossa realidade, que sintam o que estamos sentindo.”
Fato é: seja em ministérios, instituições, Judiciário, protestos, os indígenas vêm resistindo e se adaptando às mudanças desde a chegada dos europeus ao Brasil. Resta saber agora se o homem branco tem a mesma resiliência.