Feminicídio: entre o luto e o medo
Escalada de feminicídio exige que olhemos com firmeza para o discurso de ódio online. Não podemos permitir que o assassinato de mulheres siga o caminho dos atentados em escolas, criando heróis para comunidades sedentas por validação
A cada nova manchete sobre um feminicídio, o Brasil confirma o que as mulheres já sabem de cor: a violência contra nós não é um acaso trágico, é um projeto – ele está em franca escalada. Um projeto que ganha força quando encontra, na internet, um terreno fértil de discursos de ódio, masculinidades feridas e algoritmos que premiam quem late mais alto. O crescimento da violência física acontece no mesmo ritmo e, muitas vezes, impulsionado pelo crescimento da violência simbólica. Não é coincidência. É correlação. E é perigosa.
“A equação é sempre para que o homem nunca tenha responsabilidade sobre nada”
Nos últimos anos, vimos brotar e se espalhar um ecossistema de influenciadores que defendem abertamente a submissão feminina como solução mágica para todos os males masculinos. A lógica é simples e assustadora: se as mulheres não querem alguns homens, a culpa é delas. Se estão mais independentes, são arrogantes. Se são seletivas, são ingratas. Se denunciam, são exageradas. A equação é sempre a mesma, recalculada para que o homem nunca tenha responsabilidade sobre nada. E quanto mais esses discursos circulam, mais normalizada fica a ideia de que controlar mulheres é legítimo, que humilhar mulheres é compreensível e que matar mulheres é um desfecho possível.
Os indícios do que sustenta esse cenário estão dados. As pesquisas internacionais mostram um abismo crescente entre mulheres e homens jovens, e esse abismo não é apenas ideológico. Ele é estrutural. De acordo com o levantamento do Financial Times, mulheres entre 18 e 30 anos são 25 pontos percentuais mais progressistas do que os homens no Reino Unido. Na Alemanha e nos Estados Unidos, essa diferença chega a 30 pontos. Outra pesquisa, do Change Research, mostrou que 58% das mulheres americanas entre 18 e 34 anos se identificam como progressistas ou liberais, contra apenas 37% dos homens. As mulheres avançam e os homens recuam. As mulheres se politizam e os homens se ressentem. As mulheres querem autonomia e os homens querem garantias emocionais que nunca foram prometidas.
A violência se espreita na rotina e é importante dizer que não acaba no tapa. O impacto marca mulheres e, talvez possamos dizer, as conduz a um pensamento mais progressista que tenta criar ferramentas para protegê-las. A 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado e pela Nexus, e que entrevistou mais de 20 mil mulheres do país, mostra que 27% já sofreram violência doméstica ou familiar provocada por um homem ao longo da vida. Dessas, 69% relataram que tiveram sua rotina alterada depois das agressões. São mais de 24 milhões de vidas pautadas pelo medo e pelo trauma. Mais de 40% foram impactadas no trabalho ou nos estudos.
Espetacularização
Enquanto isso, os crimes se tornam cada vez mais espetacularizados. A crueldade ganha detalhes que não podem passar despercebidos. Cada caso de feminicídio vira uma novela de horror, que ao mesmo tempo que nos espanta ganha espaço, clique, mídia. E é preciso dizer isso com todas as letras: quando a violência vira espetáculo, o assassino ganha palco. A história recente mostra que até massacres em escolas criaram figuras cultuadas por grupos específicos. Não podemos permitir que o assassinato de mulheres siga o mesmo caminho, criando heróis perversos para comunidades online sedentas por validação. É preciso estarmos atentas. E atentos, afinal é imprescindível que os homens participem dessa transformação.
É fundamental falar também que o ódio não nasce no momento do crime. Ele é construído. Ele é reforçado. Ele é treinado em comunidades digitais que transformam frustração masculina em doutrina política. E enquanto isso, nós seguimos pedindo o básico: o direito de existir sem medo.
Há quem diga que vivemos tempos polarizados. Mas, para as mulheres, esse termo é quase gentil. O que existe hoje é um choque entre dois projetos de mundo. De um lado, mulheres que avançam, estudam, trabalham, refletem e se organizam. Do outro, um grupo de homens sente ameaçado por essa autonomia e parte para a violência – simbólica ou física.
“A misoginia não pode seguir crescendo sob a desculpa da liberdade de expressão”
A violência contra a mulher não é um fenômeno isolado. Ela é o sintoma mais brutal de uma disputa por narrativas, por espaço e por futuro. E se não estivermos atentas, os números vão seguir subindo enquanto a sociedade se pergunta porque ela estava lá, porque se envolveu com esse tipo ou porque não se separou antes. A história é velha, mas de alguma maneira agora ela tem um palco.
A misoginia não pode seguir crescendo sob a desculpa da liberdade de expressão. É preciso mobilização para conter esse tipo de discurso na base, porque quando mais ele se cria, mais nós morremos.
É hora de olhar para esse cenário sem suavizar. Se a violência cresce junto com o ódio, combater o ódio é essencial para combater o feminicídio. Antes de nos matarem no corpo, tentam nos matar no discurso. E não podemos permitir. Acreditem nas mulheres, acreditem no medo. Em nenhum fórum, grupo ou rede nossas mortes podem virar celebração. E talvez, isso já esteja acontecendo.

