Do fetiche ao desejo compartilhado: uma nova ética para filmar corpos femininos
A diretora Marcela Lordy revisita a história da nudez feminina no cinema brasileiro e analisa como a presença de mulheres atrás da câmera muda a ética, a estética e o imaginário sobre nossos corpos.
A nudez feminina no cinema brasileiro sempre chamou a minha atenção. O corpo da mulher, explorado de forma sensual e quase sempre filtrado por um olhar masculino, marcou minha adolescência — lembro de assistir escondida com uma amiga o “Sala Especial”, programa de pornochanchadas dos anos 80 que saiu do ar por ser tabu até mesmo para adultos. A nudez como fetiche e proibição, quando até 1500 andávamos todos pelados. Um erro de português, como disse Oswald de Andrade, mas também uma construção social da qual fazemos parte e ainda reproduzimos.
Foi observando esse tipo de representação apelativa que decidi fazer cinema. Não eram todos esses corpos nus — sempre femininos, sempre desejáveis, sempre disciplinados pela câmera — reflexo de um país atravessado pelo patriarcado e pelos altos índices de feminicídio?
O prazer tradicionalmente é um tema tabu para as mulheres, escrever ou falar sobre isso ainda hoje é problemático. Acostumadas a ler sobre o próprio corpo sob uma ótica masculina, até o final dos anos sessenta o erotismo feminino parecia sublimado, incapaz de se expandir em direção a um crescimento individual.
Ao revisitar a história, percebemos como isso se estendeu para o cinema, onde a nudez feminina foi protagonista e também prisioneira de narrativas limitantes. A “Boca do Lixo”, por exemplo, desafiava a censura e lotava salas de cinema durante a ditadura. Era a válvula de escape e o ponto de convergência de toda uma geração. Quanto maior a repressão, maior o público. Foram as musas dessa época que trouxeram o protagonismo feminino para o cinema brasileiro, arrombando portas, casamentos e bilheterias. Mais tarde, atrizes como Helena Ignez e Maria Gladys trouxeram autoralidade e liberdade aos papéis femininos. Mas o quanto isso mudou de fato? Até hoje seguimos reféns da mesma chave da objetificação?
É desse questionamento que nasce o documentário “Quem está olhando agora?”, obra que começou como investigação acadêmica e hoje se desdobra como filme. Minha pesquisa parte da constatação de que, por décadas, houve um olhar profundamente masculino — da direção ao roteiro, da câmera à produção — moldando estereótipos e definindo o que seria o “prazer feminino”, quando, na verdade, tratava-se de uma fantasia masculina. Mesmo o imaginário supostamente libertário dos anos 70 era atravessado por uma perspectiva patriarcal: a figura da mulher “livre” e “louca” daquela década não representava uma liberdade feminina real, de emancipação, mas a liberdade que os homens projetavam sobre nossos corpos. A de um desejo sempre exacerbado, exposto sem amarras, num contexto por vezes violento, ligado à desigualdade de gênero.
A essência da violência contra a mulher neste país precisa ser vista dentro da posição social assimétrica entre homens e mulheres. Sob uma relação de poder que traz o contexto de submissão feminina e dominação masculina, e cria um terreno propício para que o homem use a violência para o exercício de um domínio, que ele acredita ter direito.
Então me pergunto, o que alimenta essa cultura misógena que cresce cada vez mais no nosso país? E o que muda, afinal, na direção cinematográfica das mulheres brasileiras hoje, quando passamos a integrar com mais frequência a criação dos filmes e a câmera age como instrumento de liberdade e de poder?
Durante muito tempo, os corpos femininos foram retalhados na tela: em detalhes que percorriam as nossas curvas de forma fetichizada, enquadramentos que cortavam cabeças, luzes difusas que transformavam atrizes em figuras idílicas, travellings que perscrutavam mais do que narravam. Era uma beleza artificial, construída para excitar um olhar masculino. Uma cadeia inteira de pensamento masculino determinando quem éramos na tela. Mas que mulher era essa? Certamente não a que conhecemos na vida real — e não a que nós, mulheres, criadoras e narradoras, vivemos e gostaríamos de ver projetada.
“Quem está olhando agora?” mergulha nessa revisão histórica ao mesmo tempo que observa as mudanças recentes da linguagem. Com mais mulheres atrás da câmera, surgem novos tipos de corpos e sexualidades, novos enquadramentos, outras éticas de filmar o corpo e o prazer. No meu último longa, “O Livro Dos Prazeres”, as cenas de sexo são filmadas em plano-sequência e os corpos gozam juntos e por inteiro na cara do espectador. Essa escolha estética traduz uma mudança política.
Quando passamos a dirigir e escrever nossos filmes, outra perspectiva do prazer emerge — um prazer compartilhado, de igual para igual, e não mais um desejo unilateral projetado sobre nós. Gosto de pensar nisso como a construção de um “desejo compartilhado”, conceito que atravessa o documentário e aparece em obras de diretoras contemporâneas que estão abrindo caminhos muito diferentes daqueles que herdamos.
Este filme celebra um novo lugar de voz e potência, onde as mulheres deixam de ser apenas portadoras de significado e passam a ser produtoras, investigando juntas em que medida esta reação, por meio do cinema, é capaz de romper com os estereótipos e as expectativas do olhar viciado dos espectadores.
Para compreender as transformações dessa representação e a possibilidade de retratar o prazer mútuo, o filme oferece escuta às atrizes que protagonizaram as cenas de nudez mais emblemáticas da nossa história. Ele se organiza em várias camadas:
• atrizes revisitam cenas icônicas, refletindo sobre como foram filmadas e como gostariam de ter sido;
• interagem com as cenas projetadas que, relidas, deixam de ser passado e se tornam matéria viva;
• refletimos sobre como o nosso olhar constrói imaginários — e como esses imaginários legitimam ou desarmam violências
• uma genealogia ética e estética da nudez feminina, da pintura ao cinema brasileiro hoje.
Dessa forma, entrelaço a minha trajetória pessoal e profissional, a de uma cineasta mulher tentando fazer cinema num meio politicamente instável e sexista, com a do cinema brasileiro, num diálogo aberto e reflexivo com quem faz cinema hoje. Uma investigação junto com as musas que finalmente se tornam sujeitos e protagonistas de suas próprias histórias.
Nós, mulheres, escrevemos outras mulheres. Criamos outras narrativas. Inventamos novos imaginários e somos capazes de falar sobre o nosso desejo. E isso é profundamente poderoso.
Num país em que um estupro é registrado a cada 6 minutos e uma mulher é morta por feminicídio a cada 7 horas, criar novas narrativas é algo urgente e necessário. O cinema precisa deixar de ser uma vitrine para fantasias masculinas e se tornar um espaço de reflexão, disputa de sentidos, transformação e poder.
É emocionante testemunhar essa mudança de perspectiva e perceber que o corpo feminino na tela já não precisa corresponder a um imaginário perverso, mas pode finalmente nascer de uma experiência em comum, da vivência de um prazer mútuo, consentido. No fim, “Quem está olhando agora?” abre uma fresta para imaginar um corpo novo, político, multirracial e plural. Um corpo que não se curva ao olhar de fora, mas se afirma pela troca com os homens, entre as próprias mulheres — e pelas histórias que, enfim, nos autorizamos a contar.