Quantas versões de você já morreram para que um novo eu pudesse existir? - Mina
 
Suas Emoções / Reportagem

Quantas versões de você já morreram para que um novo eu pudesse existir?

Mudar não é trair quem você foi, mas honrar as versões que te trouxeram até aqui. Ediane Ribeiro, Ingrid Gerolimich, Magda Burity e Mirian Goldenberg refletem sobre a complexidade e a beleza de escrever novos capítulos de nós mesmas

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Entre soltar o que já não faz mais sentido e cuidar daquilo que ainda funciona, a nossa transformação se mostra, durante toda a vida, pelo que é: um processo cheio de paradoxos que pede coragem, desapego e amor-próprio.

Um estudo recente feito pela psicóloga Shannon Sauer-Zavala, da Universidade de Kentucky, e publicado pela BBC News Brasil, revelou que pensamentos e comportamentos intencionais podem remodelar traços pessoais em poucas semanas, e não em décadas. Ou seja, a personalidade pode ser muito mais flexível do que costumávamos acreditar.

Existe uma grande diferença entre mudar de ideia e mudar de personalidade

“Minha pesquisa confirma o que vi em meu próprio desenvolvimento e no dos meus pacientes: as pessoas podem moldar intencionalmente as características de que precisam para ter sucesso na vida que desejam. Isso vai contra a crença popular de que seu tipo de personalidade o coloca em uma caixa, determinando que você escolha parceiros, atividades e carreiras de acordo com suas características”, escreveu Shannon.

É importante ressaltar que existe uma grande diferença entre mudar de ideia e mudar de personalidade. Mudar de ideia é rever opiniões e fazer novas escolhas, enquanto mudar de personalidade é transformar o modo de viver, de sentir e de se impor no mundo, e cada pessoa tem seu próprio tempo e sua maneira de atravessar o rio.

Ediane Ribeiro, psicóloga

“Nós não precisamos ser assassinas cruéis das nossas versões anteriores. Podemos ser jardineiras: podar para florescer. A mudança não é uma série de mortes, mas um aumento de florescimentos.”

Para a psicóloga Ediane Ribeiro, a dificuldade em mudar está ligada à forma como aprendemos a buscar segurança no pertencimento. “Construímos histórias sobre nós e essas histórias nos dão uma sensação de continuidade. Muito cedo aprendemos que segurança emocional vem de aprovação, não de autenticidade.”

Por isso, quando mudamos, parece que rompemos o fio dessa narrativa. “A sociedade valoriza a consistência mais do que a complexidade. Somos incentivadas o tempo todo a sermos mais do mesmo”, diz. Segundo Ediane, resistimos à mudança porque desperta o conflito entre quem somos e quem aprendemos a ser para sermos amadas. “Muitas vezes, essa culpa é um eco das expectativas herdadas da família, da cultura e da religião.”

Ingrid Gerolimich, psicanalista

“Mudar é perder uma forma de se reconhecer na vida. Toda mudança ameaça o equilíbrio simbólico que o sujeito construiu para se manter de pé.”

Para Freud, o sujeito é feito de traços que se perdem, de identificações que morrem. Crescer é, de certo modo, elaborar pequenos lutos de si o tempo todo. “Morre a mulher que agradava, a filha obediente, a que fingia não saber o que queria”, observa a psicanalista Ingrid Gerolimich

Morte, nesse caso, não é o oposto da vida, mas o que permite o renascimento. Ingrid lembra que buscamos estabilidade porque ela nos dá a ilusão de segurança, mas é justamente no intervalo entre o que éramos e o que ainda não sabemos ser que a vida acontece. “Gostar das novas versões é reconciliar-se com o fato inexorável de que a vida é pura impermanência e de que não há garantias de nada, só do agora”, reflete ela.

Magda Burity, antropóloga

“Mudar de ideia pode ser difícil porque as crenças estão ligadas à identidade, à memória coletiva e à pertença social.”

A antropóloga Magda Burity explica que resistimos à transformação porque ela desafia o que nos conecta ao grupo. “A mudança não rompe laços, apenas revela novas formas de pertencer.” Ela comenta que, em muitas culturas, o ato de mudar é visto como parte do ciclo da vida, um processo natural de renovação. “Viver é transformar-se, e cada transformação exige uma pequena morte.”

Mirian Goldenberg, antropóloga

“O que chamam de transformação, eu chamaria de libertação. Libertação desses personagens ou dessas personasque querem sair do armário e percebem que não têm muito mais tempo para desperdiçar.”

Em suas pesquisas, a antropóloga Mirian Goldenberg tem notado que, em qualquer cultura, coexistem duas forças: a vontade de pertencer e o desejo de se distinguir. “Com o tempo, muitas pessoas passam a se libertar das máscaras sociais e a viver de forma mais autêntica.”

Para Mirian, “não é bem sobre reinventar-se, mas sobre permitir que venha à tona o que sempre existiu. É quando o que estava reprimido pode, enfim, florescer”.  O processo de transformação envolve reconhecer o que precisa ser deixado para trás e o que ainda merece nosso cuidado. Não se trata de romper com o passado, mas de ampliar a própria narrativa, como quem escreve um novo capítulo da mesma história.

Crescer é isso: compreender que mudar não é perder, é um gesto de amor-próprio. Às vezes, é preciso deixar parte de nós ir embora para abrir espaço e seguir mais leve na busca pela nossa melhor versão do ser.

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