Quando meu corpo virou crime, nasceu um Bloco de carnaval - Mina
 
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Quando meu corpo virou crime, nasceu um Bloco de carnaval

Dandara Pagu conta a história do Bloco Vaca Profana, que faz 10 anos celebrando a liberdade feminina e ocupando as ruas com os mamilos que as redes, o conservadorismo e a história tentam insistentemente apagar

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Há 10 anos criei um bloco de carnaval, mas ele não nasceu de uma ideia bonitinha nem de um delírio carnavalesco. O Bloco Vaca Profana nasceu no dia em que meu corpo foi tratado como crime. Nasceu para criar resistência onde houve violência.

Explico. No Carnaval de 2014, em Olinda, eu estava fantasiada de Vaca Profana, em homenagem à Gal Costa. A fantasia era malhada de vaca e os seios estavam à mostra. A polícia não gostou e quis me prender. Sim, prender uma mulher porque ela estava com os seios de fora no carnaval. Ali ficou claro: o problema nunca foi o Carnaval em si, mas o corpo da mulher quando ele não pede licença.

Cada saída do Bloco exige uma negociação silenciosa entre coragem e medo

Só que, em vez de me cobrir, no ano seguinte eu dobrei a aposta. Voltei pra rua com os seios de fora e convoquei uma legião de indignadas desnudas. Nascia ali o Bloco Vaca Profana, onde todas as mulheres (que querem, claro) desfilam com os seios à mostra. Desde então, o Bloco passou a reunir centenas de mulheres em Olinda e, em seguida, começou a marcar presença significativa em São Paulo.

Mas botar esse Bloco na rua nunca foi fácil. Ano após ano, cada saída exige uma negociação silenciosa entre coragem e medo. E, com o aumento do conservadorismo nos últimos anos, resistir exige muito peito.

Teve deputada fundamentalista ameaçando impedir o desfile. E, numa pequena reparação ao ato violento que criou o Bloco, recebemos escolta da polícia feminina para desfilar em segurança.

Teve ataque vindo de feministas radicais que decidiram que o corpo livre de mulheres trans precisava de autorização. Teve dedo em riste, denúncia vazia e inúmeras tentativas de silenciamento. De todos os lados.

Porque quando uma mulher ocupa a rua com o próprio corpo, ninguém fica confortável. E ainda assim, o Vaca saiu. Sempre saiu. Saiu porque a rua também é nossa. Saiu porque liberdade não é consenso. Saiu porque, para certos corpos, existir já é um ato político.

Ao mesmo tempo em que tudo isso doeu, também foi profundamente alegre. Porque nada se compara à potência de milhares de mulheres caminhando juntas, rindo, dançando, suando, tocando, olhando umas pras outras e reconhecendo: eu não estou sozinha.

Este ano tem mais. Ao completar 10 anos, o Vaca Profana homenageia as pessoas trans. Porque, se tem algo que esse Bloco aprendeu, é que o corpo sempre será o primeiro território de disputa. E os corpos trans seguem sendo os mais violentados, os mais questionados, os mais perseguidos. Homenagear pessoas trans, pra nós, é coerência.

Seguimos também com uma orquestra 100% feminina, ocupando um espaço historicamente masculino, hierárquico e excludente. São mais de vinte mulheres tocando, regendo, sustentando o som e o cortejo. Fazendo barulho onde sempre tentaram nos manter em silêncio.

Bateu um estranhamento? Normal. O Vaca Profana não é um bloco confortável. Ele não nasceu para agradar. Nasceu para existir. E existir com verdade costuma incomodar.

São 10 anos colocando o corpo na rua mesmo quando tudo dizia para nos recolhermos. 10 anos provando que alegria e enfrentamento podem caminhar juntos. 10 anos entendendo que liberdade não é ausência de conflito e, sim, a coragem de atravessá-lo.

Se hoje o Vaca segue vivo, é porque muitas mãos, muitos corpos e muitas histórias sustentaram esse caminho. E porque, quando a resistência é feita com alegria e festa, não há espaço para a desistência.

Que venham os próximos anos. Com mais corpos livres, mais música, mais rua e menos medo. Porque o Vaca Profana segue fazendo o que sempre fez: ocupando, resistindo e celebrando.

E se tu quer se juntar a nós no bloco neste ano de 2026 se liga:

? SP

?️ Sáb • 07/02/26
⏰ Concentração 14h | sai 16:20
? Rua Ministro Sinésio Rocha, 48 — Pompéia
? Orquestra Frevo Capibaribe
? After no Boteco Pra Toda Dia

? Olinda
?️ Seg • 16/02/26
⏰ Concentração 14h | sai 16:20
? Fortim do Queijo → Praia dos Milagres
? Orquestra só de mulheres (Maestrina Lurdinha)

Feliz carnaval! Se proteja e proteja os seus, evoé!

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