Quando foi a última vez que você riu?
A ciência comprova os muitos benefícios do riso para todo o nosso organismo, mas normas sociais ainda ditam quem pode rir alto, livremente e quando bem entender
É provável que você conheça alguém com uma risada inesquecível. Barulhenta, alta e espalhafatosa. Talvez, você seja essa pessoa. Eu, por exemplo, tenho um riso fácil assim. Posso dizer que é uma marca minha, embora nem sempre compreendida. Há quem se sinta contagiado e há quem se assuste, quem rejeite. Para alguns, ela é exagerada demais, sem vergonha demais e não é em qualquer lugar que cabe. Em rodas de amigos, já ouvi: “Ri mais baixo, tá parecendo louca”.
Essa conta não bate. Por que diminuir algo que cientificamente nos faz bem? Um estudo realizado por pesquisadores do Hospital das Clínicas de Porto Alegre aponta que rir traz efeitos positivos para o coração e é um aliado para a melhora da capacidade física de pessoas com entupimento de artéria, somado aos exercícios físicos. Outra pesquisa, realizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Yamagata, destaca que aqueles que riem pelo menos uma vez por semana têm menores chances de desenvolver problemas cardiovasculares.
“Rir nada mais é do que uma ginástica do rosto, do corpo e da mente”
E não para por aí. Nesses momentos em que rimos até a barriga doer, até chorar ou até fazer xixi nas calças (acreditem, isso acontece), nosso corpo libera os famosos hormônios do bem-estar, como dopamina, endorfina e serotonina. Ou seja, reduz o estresse e a ansiedade, melhora o humor e traz alívio. É quando o nosso corpo entende que está em um lugar seguro, sem medo ou tensão.
Rir nada mais é do que fazer uma ginástica do rosto, do corpo e da mente. Movimentamos em torno de 80 músculos ao gargalhar. Isso inclui garganta, coração, tórax, pés e o rosto, claro. E o pós você já conhece: aquela sensação de relaxamento que, segundo pesquisas, pode durar até 45 minutos.
Quem é você quando ri?
No entanto, nem o riso está ileso às convenções sociais. Ao longo do processo civilizatório, tudo aquilo que parece involuntário passa a ser visto como excesso, desvio ou falta de controle. Aprendemos, desde cedo, o que deve ser contido, como falar ou rir alto. E, se a risada é lida como um descontrole do corpo e um signo do que não é civilizado, ela passa a ser tolhida.
As principais vítimas dessa ode ao controle e à perfeição são as mulheres. Somos sufocadas por essas expectativas e é esperado que mantenhamos tudo no lugar: o corpo, o comportamento e até como gargalhamos e sorrimos por aí.
“Falo sempre sobre o riso das princesas, das bruxas e, agora, incluo o riso das faveladas. Como as princesas riem? De forma discreta, sem chamar atenção. Quem gargalha? As bruxas, as mulheres de cabaré, as faveladas e as pombagiras, na visão da sociedade. E não estou dizendo que as bruxas são superiores; estou apenas relatando como a sociedade as enxerga. São julgadas por não possuírem os mesmos padrões de comportamento”, destaca Karla Concá, atriz, palhaça e fundadora do pioneiro grupo de palhaçaria feminista Marias da Graça.
Diante disso, ouvem-se com frequência frases como ‘Do que você está rindo?’ ou ‘Está querendo chamar a atenção?’. Essas palavras são direcionadas geralmente por pais, maridos, irmãos e até outras mulheres. Em paralelo, a pesquisa ‘O gênero da risada’, realizada pela antropóloga, Mirian Goldenberg e o psicólogo, Bernardo Jablonski, aponta que 84% dos homens afirmaram que riem muito, enquanto 60% das mulheres disseram que gostariam de rir mais.
Pesquisa aponta: pessoas que sorriem com facilidade são vistas como confiantes e confiáveis
Os momentos de descontração com os amigos são os que mais contagiam os homens, já as mulheres afirmaram estar sempre preocupadas com a casa, os filhos, a carreira e aparência. Além disso, ainda segundo a pesquisa, “as mulheres sentem a necessidade de provar que são sérias, responsáveis e competentes. Querem passar uma imagem pessoal e profissional de equilíbrio, confiança e maturidade”.
Essa lógica é compreensível dentro do contexto em que estamos inseridas. Ainda assim, não se sustenta. Confiança e credibilidade não deveriam ter como única medida a seriedade. Inclusive, uma pesquisa recente da Universidade SWPS aponta que pessoas que sorriem com mais facilidade são percebidas como mais confiantes, confiáveis e atraentes.
É por esse contexto que o riso também assume um caráter político. “Na palhaçaria, buscamos questionar e desconstruir esses padrões, incentivando as mulheres a entenderem a origem e a importância do seu próprio riso, desvinculando-o das expectativas sociais. A expressão do riso é uma forma de resistência, um ato de libertação. É justamente nesse ponto que precisamos refletir sobre a necessidade de nos darmos permissão para sermos alegres. Permitir-nos sorrir”, explica Karla.
Ria hoje, sempre, mesmo sem motivo
Não por acaso, práticas têm surgido para reafirmar o riso como uma experiência de vida, de presença e de reconexão com o corpo. Um exemplo é a Yoga do Riso, criada em 1995 pelo médico indiano Madan Kataria, que nasce justamente do desejo de criar espaços onde o riso não precisa ser explicado ou contido.
Ao desenvolver o método, o pesquisador se debruçou sobre a relação entre corpo e emoções. Sua principal descoberta parte da seguinte premissa: o cérebro humano não diferencia uma emoção simulada de uma emoção genuína. Aquilo ensaiado pelo corpo é sentido como real. Este é um dos princípios centrais da Yoga do Riso: o cérebro não consegue diferenciar a gargalhada simulada da gargalhada espontânea. Portanto, os benefícios do riso são alcançados independentemente da autenticidade da risada.
Karla, por exemplo, nos relatou uma experiência pessoal com o riso exercitado. Ela conta que, quando sua mãe estava no hospital lutando contra um câncer, passava muito tempo ao seu lado, em um ambiente sempre pesado. Em alguns momentos ia ao banheiro e praticava o riso, sem motivo específico. Chorava e, então, vinha o riso. Aquilo funcionava como forma de liberar os hormônios do prazer e encontrar forças para seguir em frente.
Fabiane Aguiar, psicóloga, atriz e líder de Yoga do Riso, explica que a prática integra elementos do yoga tradicional. O método se baseia em exercícios lúdicos de riso e dinâmicas que estimulam a descontração e a integração do grupo, ajudando a quebrar barreiras sociais e a facilitar o relaxamento.
Entre os exercícios estão simulações de riso, como o “riso do cachorro”, em que os participantes imitam um cachorro, e o “riso do precipício”, que simula a sensação de uma queda. A proposta é induzir o riso de forma provocada, sem que ele esteja necessariamente ligado a algo considerado engraçado ou que exponha o outro ao ridículo. Segundo Fabiane, a repetição da ação de rir, mesmo sem motivo aparente, pode levar a uma risada mais natural.
“O riso demonstra grande potencial para fortalecer laços, pois propicia maior abertura no relacionamento interpessoal. Ao rir, a pessoa se torna mais receptiva a sentimentos positivos, quebrando barreiras de julgamento e censura que podem prejudicar as relações. O riso, portanto, é um convite ao encontro e à alegria compartilhada”, diz.
É o que também destaca Mirian e Bernardo, ao afirmar que a risada é uma troca, que envolve os termos dar, receber e retribuir. Segundo eles, é uma forma privilegiada de comunicação, capaz de desenvolver uma entrega emocional e amorosa.
Fabiane defende que o riso funciona como uma válvula de escape, um respiro que vai na contramão da lógica da sobrevivência, especialmente em um mundo conturbado, marcado pelo ódio, pela raiva, pela impaciência no trânsito e pela falta de tempo no dia a dia.
“Tirar um tempo para rir é um ato revolucionário. É oferecer ao mundo algo diferente: uma quebra de padrão, uma mudança de comportamento, uma abertura para uma convivência mais alegre e saudável. As crianças estão aí para nos ensinar isso. Elas fazem o tempo inteiro. Nem precisam forçar a gargalhada, simplesmente riem.”