Para todas as mulheres que cansaram de ser ‘boazinhas demais’ - Mina
 
Suas Emoções / Reportagem

Para todas as mulheres que cansaram de ser ‘boazinhas demais’

Socializadas para evitar o conflito e manter o clima sempre agradável, as mulheres aprendem desde cedo a engolir incômodos. Especialistas explicam qual preço disso a longo prazo

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Vamos lá: quantas vezes você já ouviu uma piada nada engraçada ou um comentário inconveniente, mas não conseguiu responder? Preferiu ficar quieta e ainda esboçou um sorriso amarelo para não “pesar o clima”? Não é nenhuma novidade pra nós: culturalmente, espera-se que as mulheres sejam comedidas. Não devem sentir raiva e, muito menos, demonstrá-la. Se levantarem a voz, serão chamadas de descontroladas, nervosinhas, loucas. 

Em um movimento natural – e quase de sobrevivência, eu diria –, grande parte de nós segue optando pelo caminho do silêncio e da concordância. Não exatamente porque assim é mais fácil, mas porque, então? Já não passou da hora de quebrarmos essa condescendência incômoda?

Você não precisa ser ‘boazinha’ para ser boa

Dá para agir com respeito e educação enquanto impõe seus próprios limites. E deles, só você sabe. Um ótimo primeiro passo é conhecer a fundo o que de fato te irrita, te aborrece e o que você não tolera. 

A grande questão da ‘boazinha’ é querer satisfazer e agradar os outros sempre e a qualquer custo, mesmo que isso prejudique seu próprio bem-estar. A psicóloga Giulianna Barros, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, aponta alguns sinais comuns de quem se comporta dessa forma:
– Sentir dificuldade em falar ‘não’
– Não saber como colocar limites
– Medo de ser abandonada/rejeitada
– Evitar diálogos difíceis/conflitos
Se identificou aí?

Calada (não) vence 

Muitas vezes, essa necessidade de agradar é fruto de um medo de acabar sozinha. Cria-se uma performance para conquistar amor, atenção e, principalmente, pertencimento. O problema é que esse movimento é cansativo e nada autêntico – e mais, ele cobra alto lá na frente. No final, sobra frustração e pouca conexão verdadeira com o outro.

“O Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não-Violenta, falava que isso tem prazo de validade. A gente fica atendendo à necessidade do outro, até que chega um momento em que a gente explode e fica ranzinza”, comenta Carolina Nalon, especialista em CNV e criadora do Instituto Tiê.

É preciso comunicar os nossos limites antes de chegar ao nosso próprio limite — não só emocional, mas também físico. Giulianna explica que, quando isso não acontece, muitas pessoas passam a sofrer com fadiga, irritabilidade, tensão muscular, alergias e insônia.

Não devolva o desconforto, fale sobre ele

Em vez de sair do extremo ‘boazinha demais’ e ir para o modo ‘agressiva sem papas na língua’, vale tentar um caminho moderado através de um diálogo sincero. “É falando sobre o desconforto que a gente tem a chance de resolvê-lo”, lembra Carol. E a Comunicação Não-Violenta entra como uma ferramenta superpoderosa para ajudar as ‘boazinhas demais’. Ela se baseia em 4 pilares essenciais: observação, sentimento, necessidade e pedido.

E a ideia é usar esses quatro ‘passos’ em suas conversas. Exemplo: em vez de ficar quieta ou responder seu tio inconveniente com “Você é muito sem noção, seu babaca”, dá para tentar aplicar a CNV e dizer: “Tio, você fez um comentário sobre o meu corpo [observação] e eu me senti desconfortável [sentimento]. Eu não me sinto à vontade em falar sobre isso aqui [necessidade de privacidade]. Por favor, não toque mais nesse assunto nos próximos encontros de família [pedido]”.

Nem sempre a outra pessoa vai receber bem, mas o mais importante é reconhecer quando um limite foi ultrapassado e conseguir comunicar esse incômodo. “Se a gente não fala das nossas necessidades, a gente não dá a chance de o outro nos conhecer. E não existe relacionamento saudável a longo prazo sem limite”, reforça a especialista em CNV.

Descubra quem você é (para além de uma boazinha)

Depois de passar a vida toda dizendo ‘sim’ para o pedido dos outros, será que você realmente se conhece? Além de indicar a Comunicação Não-Violenta, a psicóloga explica a importância de procurar ferramentas de autoconhecimento, seja através da terapia ou de outras práticas, como a escrita. Ao se conhecer mais, descobrir o que gosta, quais são seus valores, o que você não tolera, fica mais fácil se posicionar.

Aos poucos, acontece o que ela chama de “dessensibilização”. Você passa a reagir com menos medo ao desconforto de desagradar, percebe ser capaz de lidar com as consequências e ganha mais segurança para se comunicar melhor. “Muitas das vezes, a pessoa consegue até se libertar de relações, seja com namorado, marido, ou até mesmo pais”, comenta Giulianna. Por fim, as especialistas indicam dois livros para ajudar a se desvencilhar desse desejo de agradar: “Ser Bom Não é Ser Bonzinho”, de Cláudio Thebas e “A Síndrome da Boazinha”, de Harriet B. Braiker.

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