Até onde um diagnóstico define quem somos?
Com mais pessoas buscando — e recebendo — diagnósticos de saúde mental, cresce também a pergunta: até que ponto o nome do que sentimos ajuda, e quando pode começar a nos limitar?
Nunca se falou tanto sobre saúde mental quanto hoje. Parte desse movimento é reflexo da pandemia da covid-19, vivida no Brasil a partir de 2020, mas também das mais recentes discussões sobre saúde, bem-estar e adoecimento no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, cresce o número de pessoas que passam a se reconhecer e a se apresentar a partir de um diagnóstico: os afastamentos por transtornos mentais no país vêm subindo acentuadamente. Entre 2021 e 2024, as licenças por burnout cresceram 493%, e os auxílios-doença por transtornos mentais ultrapassaram 472 mil concessões em 2024, recorde da série histórica, segundo dados do Ministério da Previdência Social.
Se os números revelam a dimensão coletiva do fenômeno, no plano individual o diagnóstico passa a ocupar um lugar central na forma como as pessoas se definem: “eu sou ansiosa”, “eu sou depressivo”, “eu tenho TDAH”. Mas o que fica de fora quando o diagnóstico deixa de ser um ponto de partida para o cuidado e passa a ocupar o lugar da identidade?
O diagnóstico pode gerar pertencimento, mas também reduzir a complexidade humana a um rótulo
Primeiro, é preciso compreender que há diferentes caminhos que levam alguém a um diagnóstico. Entre eles, a busca por pertencimento e a experiência concreta de sofrimento ocupam lugar central. Nomear aquilo que aflige pode produzir alívio, inclusive no plano moral.
“O diagnóstico desloca a narrativa da culpa individual (‘sou fraco’, ‘não dou conta’) para a legitimidade clínica (‘tenho uma condição’). Quando um trabalhador esgotado recebe um laudo de burnout ou um estudante disperso é enquadrado como TDAH, há uma sensação de reconhecimento: suas dificuldades passam a ser validadas por uma autoridade científica. Isso pode abrir portas para acolhimento, tratamento e, em determinados contextos, acesso a direitos”, explica a psicóloga Flávia Albuquerque.
O ponto central não está na pessoa que busca alívio, mas no contexto e na estrutura que transformaram o diagnóstico em uma das principais formas de narrar o sofrimento contemporâneo. Como consequência, diz Flávia, em alguns casos pode surgir o risco de que ele se torne uma explicação totalizante da própria história, reduzindo a margem de agência e criando também uma dinâmica de desresponsabilização, inclusive de atos que têm dimensão ética.
Há uma linha tênue entre o diagnóstico como fonte de pertencimento e o risco de que ele se transforme em um lugar de acomodação ou limitação, uma vez que o discurso “não é sua culpa, é seu cérebro”, está posto. O diagnóstico pode gerar pertencimento, mas também reduzir a complexidade humana a um rótulo patológico. Além disso, os impactos se estendem às relações, ao trabalho e à vida cotidiana.
“Nas relações, o laço social pode se medicalizar, e a pessoa passa a filtrar suas interações a partir do diagnóstico (‘não consigo socializar porque tenho ansiedade social”). No trabalho, pode internalizar a lógica da incapacidade, fazendo com que a pessoa se veja como alguém com limitações técnicas fixas (“não consigo cumprir prazos porque tenho TDAH’). A espontaneidade e a ambiguidade da experiência humana são sufocadas pela necessidade de interpretar tudo através do código patológico”, exemplifica Flávia.
O psicanalista Kalyton Resende alerta que a questão reside na utilização do problema em si, em detrimento da sua resolução. É preciso observar que existe uma motivação inconsciente subjacente a esse uso. “O indivíduo precisará confrontar essa realidade se desejar aprofundar o autoconhecimento, questionando: “Por que ajo dessa forma? O que estou ocultando? Por que utilizo isso como suporte?”, pontua.
A lógica neoliberal e a gestão do sofrimento
Segundo o psicólogo, há uma tendência crescente de buscar um diagnóstico como forma de identificação. Ao se consolidar como identidade, o diagnóstico passa a operar a favor de uma estrutura que organiza, monetiza e administra o sofrimento psíquico. Dentro dessa lógica, comportamentos, oscilações e experiências humanas passam a ser progressivamente patologizados.
“A lógica neoliberal, somada à indústria farmacêutica e às dinâmicas contemporâneas de mercado, cria essa armadilha. O saber médico passa a diagnosticar fenômenos, e uma certa psicologia, comportamentos. Este é um ponto crucial. Quando fenômenos e comportamentos são tratados como patologias, o campo se desorganiza”, explica Kalyton.
Para ele, há uma dialética entre indivíduos que se apropriam do diagnóstico como identidade e a indústria que oferece esse rótulo. “É uma questão de oferta e demanda, onde a pressão se manifesta tanto internamente quanto externamente. A busca por diagnósticos, por vezes, é influenciada pela expectativa de encontrar uma resposta, mesmo que isso implique em múltiplas consultas”, completa.
Precisamos de gramáticas menos psiquiatrizantes para nomear nosso sofrimento
Afirma, ainda, que o sistema neoliberal não busca sujeitos, mas problemas, produtos e mercadorias. Essa lógica se intensifica diante da sobreposição de sintomas entre diferentes transtornos. Ao incluir diversas condições em um mesmo espectro, aumenta-se o risco de distorções, levando o indivíduo a performar a doença como forma de legitimar seu diagnóstico. “A pessoa passa a reproduzir as características descritas no laudo e, quando não se reconhece nelas, sente-se surpresa, passando a questionar a própria identidade”, diz.
Em paralelo, Flávia também faz uma crítica à psiquiatria hegemônica orientada pela American Psychiatric Association (APA) e pelo modelo do DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais). Para ela, a centralidade desse modelo levanta uma questão fundamental: não seriam necessários esforços coletivos para criarmos gramáticas menos psiquiatrizantes para nomear nosso sofrimento e nossas diferenças?
Essa crítica não se restringe apenas ao campo institucional da psiquiatria. Nos últimos anos, testemunhamos uma inundação de conteúdos de “psicoeducação” digital, como nomeia Flávia. Em formatos rápidos e atraentes, psicólogos e psiquiatras começaram a divulgar listas genéricas de “sintomas” de transtornos mentais. Assim, as pessoas não estão se autodiagnosticando à toa; foram ensinadas a fazê-lo por vozes que carregam autoridade psicológica.
“Hoje é comum que pessoas cheguem aos consultórios não para investigar o sofrimento, mas para confirmar um diagnóstico que já carregam consigo, muitas vezes pressionando o profissional. O autodiagnóstico surge, assim, como um sintoma de uma medicalização que saiu dos consultórios e se tornou cultura,” afirma a psicóloga.
É preciso despatologizar
Reconhecer os riscos da cristalização identitária não significa negar a importância do diagnóstico ou do acesso ao tratamento. Em muitos casos, ele é fundamental para garantir cuidado e direitos. Nesse processo, o que frequentemente fica de fora é aquilo que nos constitui como seres políticos. Para a psicóloga, uma identidade reduzida ao diagnóstico é uma identidade espoliada de sua história, de seu contexto e de seu poder de ação no mundo.
É nesse ponto que emerge a discussão sobre a despatologização. “A busca por uma vida melhor não pode ser encarada como uma patologia. Psicólogos e psicanalistas podem desempenhar um papel crucial na desconstrução de diagnósticos precipitados e na valorização da humanidade”, conclui Kalyton.
Já Flávia destaca que a tarefa da despatologização é, justamente, abrir brechas nessa totalização, para que a vida possa transbordar os limites do laudo. “Nosso desafio é recuperar essas narrativas apagadas, lembrando que por trás de todo ‘sintoma’ há uma vida concreta, inserida num tempo e num lugar que a explica infinitamente mais do que qualquer código do DSM.”