A ausência dos homens dentro das próprias famílias conecta os filmes do Oscar
No cinema e fora dele, um mesmo roteiro se repete. Tatiana Vasconcellos parte dos indicados ao Oscar para falar de homens ausentes, sobrecarga feminina e das consequências que escapam da ficção.
Como seguir vivendo normalmente em contato constante com notícias e fatos de assassinatos, espancamentos, tiros e estupros de meninas e mulheres? Que masculinidade frágil é essa, de baixíssima tolerância à frustração, que não suporta ouvir um “não”? Como se a existência feminina estivesse à serviço dos desejos de dominação dos homens, desde garotos. Como se não fossem seres humanos de direitos e quereres. Como se não tivessem autonomia sobre suas vidas e destinos.
Contaminada/impactada/afetada, me enfiei no cinema em busca de ficção escapista e alienante. Fui assistir aos filmes do Oscar. (Talvez tenham alguns spoilers a seguir, mas nada que vá prejudicar a sua experiência) Você que também se aventurou nessa missão, notou em quantos dos filmes os homens faltam? Pais e maridos que não estão. Negligentes, desimplicados de suas questões familiares, mais ou menos evidenciados nos enredos.
Fui ver “Hamnet” pronta pra detonar o pacote de lenços que levei na bolsa. Morri com a interpretação de Jessie Buckley, daquela mãe estraçalhada pela perda abrupta de um filho pequeno. E o pai? “O pai era o Shakespeare!”, argumenta um interlocutor, como se a genialidade artística lhe desse salvo-conduto para qualquer coisa. No filme, ele só se torna “o Shakespeare” porque uma mulher, a mãe, lidou sozinha com todo desajuste emocional familiar que a morte repentina de um filho causa para que ele pudesse partir e transformar o próprio luto em arte. Uma belíssima arte, claro.
E é bem verdade que os tempos eram outros, mortes por doenças como a peste bubônica não eram evitáveis no século 16, mas: reconhece essa dinâmica real hoje, em 2026? Homens que se vão em nome de algo “maior” (em geral, o trabalho), enquanto suas companheiras seguem tocando a vida, a família, o cuidado dos filhos, o dia a dia profissional, a rotina de casa, mas agora sem um adulto responsável para assumir metade deste… trabalho. É, chama trabalho também.
Em “Valor Sentimental” o drama do pai ausente com dificuldade de expressar emoções me fez virar os olhos muitas vezes, pois é bem familiar pra mim. Saí do cinema me achando meio coração peludo por não ter sido super tocada pelas questões dele. Sim, também há outros prismas complexos no enredo das irmãs. O entremeado de relação humana e arte, o simbolismo da casa, a linguagem, gosto de tudo. E também está lá mais um drama de negligenciamento paterno que tantas mulheres conhecem tão bem (e homens também, claro). Tem tanto poder de identificação que ganhou Oscar.
Timothée Chalamet dá tudo de si no protagonista insuportavelmente excelente de “Marty Supreme”, que, entre uma confusão e um trambique para conseguir o que quer — ser o melhor do mundo no tênis de mesa —, não tem tempo pra acompanhar o nascimento do filho (ainda que Hollywood não resista a uma redençãozinha).
Em “Se eu tivesse pernas, eu te chutaria”, o pai é tão nulo que mal aparece na história da mulher à beira de um colapso. Ela equilibra os cuidados incessantes com a saúde de uma filha pequena com sua ocupação de terapeuta (portanto lidando com emoções alheias também), e tendo de lidar e resolver um acidente doméstico. Sobrecarga, esgotamento e culpa, essencialmente. O pai da criança, sumido, está sempre trabalhando. Quando aparece, em vez de ajudar a resolver a confusão, ele culpa a mulher pelo caos. Parceirão!
A arte não prescinde da realidade. Em tempos de acontecimentos gritantes, violentos, urgentes, ela pula na nossa cara onde quer que seja. Em formatos diversos, discutindo questões que até outro dia eram “coisa de mulher”. Ou problematizando comportamentos que finalmente vão deixando de ser considerados aceitáveis. E saltando aos olhos quando tratados como parte da paisagem.
Parece ótimo. E é. Mas também é sintoma. Porque, ao mesmo tempo em que essas histórias chegam às telas, seguimos lidando com a possibilidade aterrorizante de nossos filhos serem cooptados por masculinistas que enriquecem capturando a frustração e o ressentimento de garotos imaturos — e transformando esses afetos em ódio direcionado a mulheres. Com a absoluta anuência e substancial lucro das Big Techs, que nada fazem para frear a circulação desse tipo de conteúdo. A cultura expõe, mas não resolve. E o que aparece nos filmes, de formas mais ou menos sutis, transborda para a vida real: violência, mortes, estupros. Que levam às notícias do início desse texto.
Tchau, vou ao cinema.