Primeiro encontro à vista? Estes apps ajudam a reduzir ciladas
O ideal seria não precisar virar detetive antes de um encontro. Mas, enquanto a realidade não muda, mulheres estão recorrendo à tecnologia para pesquisar antecedentes, compartilhar localização e criar redes de segurança.
A estudante de design Antonia*, 23 anos, tem um ritual para primeiros encontros com caras que conheceu em aplicativos de namoro: hidratação no cabelo, unhas pintadas, localização compartilhada com as amigas e uma pesquisa básica no Google. “Eu fico de olho pra ver se o nome dele não aparece no JusBrasil (plataforma com informações jurídicas) por ter cometido algum crime. Pode me chamar de louca, eu chamo de precavida”, conta.
“Apareceu que existia uma medida protetiva contra ele. Meu sangue gelou”
Foi essa cautela que a impediu de ir num encontro que poderia ter dado muito errado. Há alguns meses, estava empolgada com um match: conversas engraçadas, interesses em comum, duas semanas de mensagens até marcarem de se ver pessoalmente. “Eu já estava escolhendo roupa, aquela empolgação toda”, relembra, quando seguiu o ritual de checar o nome completo do pretendente.
Dessa vez, usou o Plinq, plataforma criada para mulheres que permite consultar antecedentes criminais. “Apareceu que existia uma medida protetiva contra ele. Meu sangue gelou”, relembra Antonia. A estudante cancelou o date alegando um imprevisto, bloqueou o contato e seguiu em frente. “Fiquei aliviada, mas também irritada. Por que preciso virar detetive só para conhecer alguém?”, questiona.
Num país em que quatro mulheres são assassinadas por dia, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, Antonia não é a única que busca estratégias de proteção – ou que as cria.
A solução criada por quem entende o problema
Enquanto assistia a mais uma reportagem sobre o feminicídio de uma mulher, uma informação chamou a atenção da empreendedora Sabrina Matos, de 28 anos: o autor tinha antecedentes criminais por violência e a vítima desconhecia. “Não acredito que a mulher não sabia disso. Como é que não é fácil de achar?”, lembra. Trabalhando com tecnologia há anos, começou a desenvolver uma solução para esse furo. O Plinq teve início em abril de 2024 e, em junho, já estava no ar.
A ferramenta é capaz de consultar registros públicos, bancos de dados criminais e outras fontes oficiais para entregar um relatório completo. Basta inserir nome completo, CPF ou até mesmo o telefone da pessoa. Diferente do JusBrasil, onde é “praticamente impossível achar o processo de alguém sem ter o número”, como explica Sabrina, o Plinq facilita a busca e garante anonimato total, o pesquisado não sabe que foi consultado. A consulta é paga: uma busca avulsa custa R$27 e o plano anual, com pesquisas ilimitadas, sai por R$97.
Desde o lançamento, a plataforma já registrou mais de 160 mil usuárias e catalogou mais de 1.200 relatos de mulheres que evitaram situações de risco. “Tem desde ‘eu ia sair com esse cara, olhei na Plinq, fiquei salva’ até casos mais complexos”, conta. Um dos relatos mais impactantes foi o de uma usuária que descobriu que o namorado tinha sido condenado por um crime de agressão a sua ex-companheira. “Ela me mandou mensagem furiosa dizendo que ia me processar porque a informação estava errada. Só que o processo estava lá, era real. Ela ficou em estado de negação”, relembra Sabrina.
Ela reconhece que a plataforma tem limitações, já que processos em segredo de justiça, como muitos de violência sexual e da Lei Maria da Penha, por exemplo, não aparecem nos resultados. Ainda assim, o Plinq aparece como uma opção para complementar uma série de outros cuidados necessários. “Hoje, a mulher nem sabe que esse processo existe. Então a gente mostra pra ela. É o que conseguimos fazer por agora, mas queremos fazer muito mais”, diz Matos.
Entre o alívio e a indignação
“Eu recebo muitos relatos de mulheres falando de situações que aconteceram com elas, desde dentro de casa com pessoas conhecidas até com desconhecidos nas ruas”, conta a influenciadora Ju Infante, especialista em segurança digital que se tornou referência no tema.
Para ela, ferramentas como o Plinq são importantes, mas não suficientes. “Não é porque uma pessoa não tem passagem na polícia que ela é confiável. É muito importante usar isso como apoio, mas não confiar 100%.” Ju recomenda compartilhar localização em tempo real, marcar encontros em locais públicos movimentados e avisar pessoas próximas.
Outra alternativa tecnológica, que protege durante o encontro, é o Camdom. O aplicativo alemão, desenvolvido pela marca de preservativos Billy Boy, bloqueia câmeras e microfones de smartphones durante momentos íntimos. Apelidado de “preservativo digital”, funciona quando ambas as pessoas instalam o app e o ativam simultaneamente, aproximando os celulares. A partir daí, qualquer tentativa de gravação é alertada.
A solução responde a um problema crescente: a exposição não consensual de conteúdo íntimo. No Brasil, onde a violação digital é uma das formas mais recorrentes de violência de gênero, ferramentas como essa ganham relevância. Segundo pesquisa da ONU Mulheres de 2021, 28,9% das brasileiras, quase uma em cada três, relataram ter sofrido algum tipo de violência ou assédio nos 12 meses anteriores.
Para Ju, o desafio é equilibrar proteção sem culpabilizar. “A sociedade coloca essa responsabilidade sobre nós, o que é muito chato. Mas nem por isso a gente deixa de tomar cuidados. No fim, é a nossa vida.”
Empreendedorismo que responde a uma urgência
Sabrina tentou captar investimento apenas de mulheres na primeira rodada da Plinq, mas esbarrou na realidade do mercado. “Não consegui. Quando falo com investidores, são dez homens para uma ou duas mulheres. E muitas vezes essa mulher não tem a palavra final.” Ainda assim, conseguiu recursos com investidores brasileiros e estrangeiros que reconheceram o potencial do negócio.
Antonia, que hoje recomenda o Plinq para todas as amigas, resume bem o sentimento. “Eu falo pra todo mundo: usem. A gente não pode confiar cegamente em ninguém hoje em dia.” Sabrina reconhece a tristeza por trás dessa necessidade. “Meu sonho seria que isso se tornasse 100% desnecessário. Eu não queria ter motivos para criar um produto desse”.
Para Ju, o estado de alerta não pode se tornar a identidade permanente das mulheres. “Ele precisa ser temporário até que o cenário mude. A gente precisa se revoltar mais. Esse tanto de feminicídio, de assédio, não pode continuar.” Enquanto a mudança estrutural não vem, mulheres como Antonia e Sabrina seguem criando e usando as ferramentas que têm à disposição, transformando tecnologia em autonomia e, quem sabe, em um pouco mais de paz.
*Nome fictício para preservar a identidade