O contato constante com plástico pode estar afetando a sua fertilidade
Presente por todos os lados, o plástico contém substâncias que vem sendo investigadas por possíveis impactos hormonais, reprodutivos e ambientais.
Olhe a sua volta. Quantas coisas ao seu redor são feitas de plástico? Da camiseta esportiva ao pote de sorvete, dos (mil) cosméticos ao chiclete que mascamos, ele está em toda parte. De tão presente, muitas vezes passa despercebido, mas seu uso intensivo levanta discussões não só sobre o meio ambiente, como também sobre possíveis impactos na nossa saúde. Sabia que componentes do plástico vêm sendo investigados por sua capacidade de interferir em processos básicos do nosso corpo, como a fertilidade?
É esse o ponto de partida do recém-lançado documentário “The Plastic Detox”, da Netflix. Nele, seis casais que enfrentam dificuldade para engravidar são apresentados à Dra. Shanna Swan, epidemiologista reprodutiva de Nova York conhecida por suas pesquisas sobre fertilidade. Sem nenhum indício claro de problemas genéticos ou biológicos entre eles, surge uma hipótese: a presença constante de substâncias químicas — incluindo as associadas ao plástico — pode estar contribuindo para esse cenário. Ao longo do doc, os casais entram numa jornada para reduzir ao máximo essa exposição e observar possíveis efeitos no corpo.
Ao final do experimento, metade dos casais consegue engravidar. Além disso, mesmo entre os que não engravidam, há melhora em indicadores biológicos relevantes, como redução de substâncias químicas no organismo e melhora na qualidade do esperma.
O próprio documentário pondera que esses resultados não devem ser interpretados como prova definitiva de causa e efeito. Trata-se de um experimento com poucos participantes, sem controle científico rigoroso, que aponta uma possível relação entre exposição a químicos do plástico e fertilidade, mas não estabelece uma garantia de resultado. Ainda assim, fica o alerta e a necessidade de se estudar o assunto mais a fundo.
Mulheres em risco
Derivado do petróleo, o plástico se popularizou na década de 1950 por sua flexibilidade, transparência e praticidade. Para atingir essas características, são adicionados diversos compostos químicos, como ftalatos e bisfenol (incluindo o BPA), que vêm sendo estudados pela comunidade científica desde a década de 1990 por seu potencial de atuar como disruptores endócrinos — ou seja, interferir no funcionamento hormonal. A própria Dra. Swan lançou um estudo recente com sua investigação como esses compostos podem se relacionar com a fertilidade, embora esse seja um campo ainda em desenvolvimento.
Nós, mulheres, somos as mais afetadas pelo plástico. Segundo dados do IPEN, uma rede global pela eliminação de ingredientes tóxicos, isso acontece tanto por fatores biológicos quanto comportamentais. Nossa maior proporção de gordura corporal pode favorecer o acúmulo de substâncias lipossolúveis, como alguns desses compostos. Mas não só. O comportamento também tem influência direta nesse impacto: muitas mulheres fazem uso diário de produtos de beleza como shampoo, sabonete, hidratante, maquiagem entre outros, que podem conter plástico ou ingredientes derivados desse material.
Outro ponto crítico é o uso de absorventes descartáveis durante o período menstrual ao longo da vida. Segundo o Atlas do Plástico, documento publicado em 2020, a maioria desses absorventes inclui plástico em sua composição. Faça as contas, são quase 10 mil absorventes usados pela mulher em cerca de 4 décadas. E tem mais: a sobrecarga de tarefas domésticas sobre as mulheres faz com que aumente a exposição à produtos de limpeza, que podem conter microplásticos e outras substâncias químicas.
As crianças também podem ser especialmente afetadas pelo contato intenso com brinquedos de plástico. Segundo a pesquisa “Infância Plastificada”, realizada pelo Instituto Alana junto ao Grupo de Estudos e Pesquisa em Química Verde, Sustentabilidade e Educação (GPQV) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e apresentada em 2020, cerca de 90% dos brinquedos produzidos mundialmente são feitos com algum tipo de plástico, que pode conter substâncias como ftalatos e bisfenóis, levantando preocupações sobre possíveis efeitos na saúde infantil. Um exemplo que chama atenção é um colarzinho de plástico, em formato de gargantilha, que está na moda entre muitas meninas. Ele fica colado ao pescoço, região próxima à tireóide, e a maioria das meninas não tira nem para dormir.
Alternativas para reduzir o plástico
Buscar alternativas ao plástico olhando para tudo, de roupas à alimentação, cosméticos, e outros possíveis contatos, foi o que os seis casais do início da reportagem fizeram. Essa é uma jornada possível, mas com uma dose extra de desafios.
No âmbito individual, já existem alternativas mais seguras para muitos produtos. Absorventes de pano, calcinhas menstruais e coletores (copinhos) de silicone, que reduzem o uso de plástico e o volume de lixo durante o período menstrual. Cosméticos naturais também são uma realidade, com produtos em barra em embalagens de papel e opções de escova de dente feitas de bambu.
Quando o tema é moda, vale ficar de olho na etiqueta e priorizar peças de algodão, linho e outros materiais naturais, reduzindo o uso de poliéster. Já os produtos de limpeza menos agressivos são viáveis através de receitas caseiras simples e ao alcance do bolso usando sabão de coco, bicarbonato de sódio e vinagre, que permitem maior controle sobre o que entra na nossa casa ou oferecidos por marcas mais limpas.
No entanto, evitar o plástico não é uma tarefa fácil e, em alguns casos, pode ser onerosa, uma vez que ele é com frequência a opção mais barata e acessível tanto para quem produz quanto para quem o consome. A indústria não dá sinais de que o cenário vá mudar no curto prazo e segundo matéria do Valor Econômico “a produção global de plástico segue crescendo e deve dobrar até 2060”.
Toda essa produção nos coloca, segundo dados de 2019 da World Wide Fund (WWF), como um dos maiores produtores de lixo plástico do mundo, com cerca de 11 milhões de toneladas por ano e reciclagem abaixo de 2%. Para endereçar o assunto, está em discussão no mundo um Tratado Global contra poluição plástica, que busca limitar a produção e o descarte de plásticos, mas ainda depende que países se engajem – entre eles o Brasil – para oferecer alternativas acessíveis e viáveis a todos.
O que nos mobiliza sobre esse debate é que o plástico ainda é economicamente imbatível. E ele é tão barato porque seu custo real, ambiental e de saúde, não aparece no preço. Desta forma, a escolha individual – as microrrevoluções como chamamos – são importantes, mas serão sempre limitadas. Reduzir a exposição no nível individual pode ter efeitos, mas não altera a lógica que mantém o problema. O que está em jogo agora é a capacidade de transformar evidência científica em regulação, de reprecificar materiais com base em seus impactos reais e de acelerar alternativas que hoje ainda são nicho. Até lá, a convivência com o plástico segue sendo uma condição amplamente presente — ainda que cada vez mais questionada.