Será que seu cansaço mental vem de precisar tomar decisões demais? - Mina
 
Suas Emoções / Reportagem

Será que seu cansaço mental vem de precisar tomar decisões demais?

Quanto mais escolhas fazemos ao longo do dia, pior tende a ficar nossa capacidade de avaliar cenários, regular impulsos e sustentar a atenção, um desgaste silencioso que pode explicar por que tanta gente termina o dia exausta sem ter feito nada extraordinário.

Por:
3 minutos |

Qual filme ver entre quatro streamings diferentes? Será que vou estar com pique no sábado para confirmar esse compromisso agora? Meu filho precisa de limite ou de colo? Peço delivery, cozinho ou encaro o resto da geladeira? Quando chega à noite, o dia passou rápido, você não fez nada extraordinário e, ainda assim, está exausta. Nem sempre é só o trabalho: muitas vezes, é o acúmulo de pequenas escolhas tomadas ao longo das horas, o que vem sendo chamado de fadiga de decisão.

“Quando precisamos decidir o tempo todo, nosso cérebro entra em um estado de sobrecarga”

Um estudo americano estimou que um adulto toma cerca de 35 mil decisões por dia — algo próximo de uma escolha a cada poucos segundos. Nem todas exigem grande esforço, claro. Mas, somadas, elas têm custo mental. O psicólogo Roy Baumeister, conhecido por pesquisas sobre autocontrole, ajudou a popularizar a ideia de que decidir consome energia psíquica. Em outras palavras: escolher cansa.

Para as mulheres, esse desgaste costuma vir turbinado. Pesquisas recentes mostram que, dentro de casa, as mães concentram 71% da carga mental do lar — ou seja, são elas que fazem boa parte das escolhas invisíveis do cotidiano, do produto de limpeza à hora de colocar as crianças para dormir. E isso se estende até ao lazer: levantamentos indicam que mulheres respondem por 82% das decisões na hora de organizar viagens. Nem na folga descansamos totalmente.

“Quando precisamos decidir o tempo todo, nosso cérebro entra em um estado de sobrecarga. Chegam o cansaço e a perda de foco, e passamos a sentir que estamos sempre reagindo às demandas, e não escolhendo de forma consciente”, explica Fátima Macedo, psicóloga e CEO da Mental Clean. Em vez de analisar com calma, passa a buscar atalhos: adiar escolhas, agir no automático, topar qualquer opção para encerrar logo o assunto ou decidir no impulso. 

Opções em exagero

E há um agravante tipicamente contemporâneo: além de decidir demais, também precisamos decidir entre opções demais. Não basta escolher algo para assistir, comer, vestir ou comprar — é preciso navegar por infinitas possibilidades. Foi esse fenômeno que o psicólogo Barry Schwartz chamou de paradoxo da escolha. Segundo ele, mais opções nem sempre trazem mais liberdade. Muitas vezes, trazem ansiedade, paralisia e a sensação persistente de que talvez houvesse algo melhor.

Por isso, fadiga de decisão e paradoxo da escolha caminham juntos. De um lado, o excesso de decisões esgota. Do outro, o excesso de alternativas embaralha. Resultado: ficamos cansadas e insatisfeitas ao mesmo tempo.

Do amoroso ao profissional, passando pela vida doméstica, não é raro que isso apareça como indecisão crônica, irritabilidade, procrastinação de tarefas simples, dificuldade de foco ou compras impulsivas só para “resolver logo”. Às vezes, o problema não é falta de disciplina nem incapacidade de organização. É exaustão mental.

Como solucionar?

Infelizmente, não dá para tirar férias das escolhas. Mas dá para repensar como escolhemos. O psicólogo comportamental Bruno Farias orienta: “Quando um paciente chega nesse estado, eu sugiro duas técnicas:  hierarquizar a importância das decisões e alinhar os valores da pessoa com as decisões que ela precisa tomar. Assim o processo de tomada de decisão pode ficar mais fácil e menos custoso emocionalmente”.

Também ajuda reduzir voluntariamente algumas alternativas, criar filtros prévios e automatizar o que for possível — da roupa da semana ao cardápio básico, dos horários fixos às rotinas repetidas. Aceitar que toda escolha implica renúncia  e que nenhuma será perfeita também poupa energia. Experimente, vai te fazer bem.

Mais lidas

Veja também