O meme virou idioma e dominar essa linguagem é uma forma de poder
Memes já não são apenas entretenimento. Hoje, eles moldam comportamentos e sustentam narrativas sem parecer que estão fazendo isso. Especialistas apontam a necessidade de se apropriar dessa linguagem e mostram as frestas por onde ela pode manipular a opinião pública
Os memes viraram linguagem cotidiana. Servem para flertar, aliviar tensão, comentar notícias, encerrar discussões e criar senso de pertencimento. Mas, quando tudo cabe em uma imagem pronta, vale perguntar: o que se perde no caminho?
Para o psicanalista André Alves, pesquisador e fundador da Floatvibes, o consumo constante de memes está moldando uma comunicação cada vez mais condensada. “Você responde tudo com um meme — o que sente, o que pensa — e isso é, ao mesmo tempo, potente e limitador”, explica. No lugar de elaborar um pensamento, recorremos a um atalho. O risco é esvaziar ideias e perder, aos poucos, a capacidade de dizer o que pensamos sem o filtro da ironia alheia.
Ideias criminosas não nascem dos memes, mas passam a circular com aparência mais leve
Essa lógica fica mais séria quando a estética do “engraçadinho” entra na política. Para Giovanna Marquesano, cientista social e analista do NOPPE (Fundação Perseu Abramo), o meme se tornou uma ferramenta de soft power: uma estratégia que banaliza temas sensíveis e os reinsere no debate público de forma diluída. “Essa linguagem acaba seduzindo e banalizando questões sérias envolvendo, por exemplo, o abuso de menores e a misoginia na machosfera. Também opera como cortina de fumaça”, avalia.
Nesse contexto, o humor pode atuar como mecanismo de dessensibilização. Ideias antidemocráticas ou criminosas não nascem dos memes, mas passam a circular com aparência mais leve, mais palatável e mais fácil de replicar — especialmente entre os mais jovens.
Já IA acreditando
O avanço da Inteligência Artificial generativa intensifica esse cenário ao transformar memes em conteúdos cada vez mais sofisticados e, muitas vezes, difíceis de distinguir da realidade. Animações envolvendo Jeffrey Epstein, financista norte-americano condenado por crimes sexuais e acusado de comandar uma rede de exploração sexual de menores, circularam amplamente no TikTok. Até Melania Trump, primeira-dama dos Estados Unidos e esposa de Donald Trump, entrou na dança, literalmente, em vídeos manipulados.
Enquanto linguagem, especialistas defendem que o meme, por si só, é neutro. O problema está na velocidade com que circula. A comunicação se torna tão mínima e instantânea que quase não sobra tempo para refletir sobre o que está sendo replicado. “Por isso muitos riem de um meme racista, misógino ou LGBTfóbico sem se dar conta”, alerta André.
Em um texto analítico, o jornal britânico The Observer expôs a estratégia por trás da massiva circulação dos memes Jeffrey Epstein que acabaram se espalhando pelo mundo. “Piadas” onde violência, estupro e misoginia se tornam compartilháveis. “Isso não é um acidente; tornar-se um meme é tornar-se irreal. Memes achatam a realidade em ironia e desintegram as consequências. Quando Epstein vira piada, os crimes associados a ele e a seus amigos poderosos são abstraídos. A ironia cria distância do horror”, escreve Lily Isaacs, no artigo Epstein se tornou um meme, não um monstro.
Conflito de gerações
Essa disputa de poder pela comunicação memética tem um alvo claro: os jovens. Segundo Giovanna, há uma cisão entre a Geração Z e a Geração Alpha. Hoje, o “politicamente incorreto” é a nova moeda de valor entre os mais novos. O que antes era necessário para questionar estruturas agora é visto como “brega” pela Gen A.
“Desde 2016, com a ascensão de plataformas como o TikTok, há uma retomada de discursos preconceituosos pelos mais jovens, que não querem fazer conteúdo político, mas acabam se alinhando com ideias conservadoras.” Para Giovanna, sociedade, escolas e instituições precisam disputar esse espaço simbólico usando a mesma linguagem que circula entre os jovens: a memética — justamente para reduzir os riscos de conteúdos que parecem apenas vazios ou engraçados, mas carregam mensagens criminosas ou violentas.
De acordo com uma pesquisa de 2024 do InstitutoZ/Trope com a Gen Z brasileira, 46% dizem usar memes em conversas pessoais, 38% em mensagens de texto e 9% até em ambientes acadêmicos e profissionais. Quando pessoas mais velhas resistem a reconhecer o meme como linguagem, abre-se um ruído entre gerações — e é justamente nesse intervalo que discursos problemáticos encontram espaço para se fortalecer.
Admirável mundo novo
Embora pareça um fenômeno de agora, a memética tem raízes teóricas. O termo foi cunhado por Richard Dawkins em 1976 para descrever a transmissão de cultura por imitação. Esse poder de replicação é o que faz celebridades como Anitta apostarem na linguagem, ainda que isso gere impasses jurídicos, como a recente multa pelo uso indevido de memes em sua divulgação.
Segundo Sofia Azevedo, pesquisadora de cultura e comportamento no ambiente digital, a pandemia foi um start para agrupar movimentos, sociais ou políticos, a partir dos memes — ainda que já existam rastreios de sua existência desde a época dos blogs.
Um estudo da International Journal of Environmental Research and Public Health mostra que o interesse por memes da Covid-19 “explodiu” no lockdown. “Foi o alívio cômico necessário, mas que consolidou o meme como o principal fator de identificação coletiva da nossa era”, defende Sofia.
A lógica da internet é comunicar o máximo com o mínimo de esforço. O risco, contudo, é o esvaziamento total da ideia — um vácuo que é facilmente instrumentalizado por quem deseja manipular a opinião pública.
Por isso, saber o que você quis dizer com um meme é tão importante quanto o meme em si. “Em um mundo onde a imagem circula com mais força que o discurso estruturado, a comunicação deixa de ser apenas transmissão de mensagem para ser transmissão de emoção. Resta saber qual emoção estamos escolhendo propagar”, conclui André.