Paola Stornebrink: “Hoje valorizo mais minhas ideias do que a minha aparência”
Entre escoliose, construção da própria feminilidade, solitude e redes sociais, Paola Stornebrink construiu uma comunidade ao falar de corpo e autoestima, ajudando milhares de mulheres a questionarem os padrões que as fazem se enxergar como inadequadas e a encontrarem beleza na própria naturalidade.
Tem gente que chega às redes sociais para sustentar versões polidas de si. A mineira Paola Stornebrink, de 28 anos, escolheu outro caminho: usar esse espaço para tensionar o que costumamos chamar de beleza. Em vez de reforçar padrões prontos, ela expõe inseguranças, questiona exigências surreais que hoje são normalizadas e amplia o olhar sobre o que pode ser admirado.
“Talvez eu seja, agora, a adolescente descolada que eu queria ter sido”
“Corpos naturais estão por toda parte, mesmo que as redes sociais façam parecer que não. Eles têm celulite, cicatrizes, dobras, marcas. Peitos que não são redondos, grandes, empinados e simétricos. Estrias, costelas saltadas, pochetinha”, escreveu em um dos posts mais bombados do seu Instagram. “Condições específicas: escoliose, no meu caso. Meu biquíni sempre está torto. Garotas normais, com corpos normais, estão sendo felizes por aí. Vá curtir.”
Publicitária de formação, roteirista por vocação e criadora de conteúdo por trajetória quase involuntária, ela construiu uma audiência fiel ao falar de corpo e autoestima com uma honestidade rara para mais de 328 mil seguidores no Instagram e TikTok, além do podcast “Tá tudo beleza”. A cirurgia de coluna aos 12 anos, os anos de se sentir esquisita na escola e o fim de um relacionamento de nove anos aos 25 pavimentaram o jeito como conversa hoje com as mulheres que a acompanham: celebrando traços muitas vezes classificados como “feios” e mostrando como essas mesmas características também podem carregar presença, encanto e singularidade.
“É um sopro de algodão doce no meio do caos”, definiu uma seguidora em um comentário. Em conversa com a Mina, Paola fala sobre reconstrução, desejo, aparência e o esforço de aprender a olhar para si — e para outras mulheres — com mais gentileza.
“As crianças apontam coisas em você que, até então, nem pareciam um problema”

Filha única e criada entre adultos, Paola cresceu mais próxima da avó e de primos muito mais velhos do que de outras crianças da idade dela. A avó materna, nascida em 1925 no interior de Minas Gerais, teve a mãe de Paola aos 37 anos. “Minha mãe foi a última das filhas e eu, consequentemente, fui a última das netas”, conta. Foi nesse ambiente que ela desenvolveu o olhar observador, sensível, atento a detalhes, que marca seu trabalho hoje.
Gostava de arte, moda vintage e outras coisas que escapavam dos interesses das outras crianças. E sofria por isso. “Eu era uma criança muito precoce e me sentia muito desajustada. Quando ia pro ambiente mais infantil, sofria. As crianças apontam coisas em você que, até então, nem pareciam um problema.” Introvertida, não se via nas meninas consideradas bonitinhas do colégio, e essa sensação de estar fora do lugar carrega hoje uma ironia que ela enxerga com carinho: “Eu olho com olhos de adulta e acho que aquela menininha é linda, superincrível, mega inteligente.” Foi a psicóloga quem ofereceu uma chave que ficou com ela: às vezes, a pessoa em que nos tornamos corresponde à imagem que nossa versão mais nova admirava. “Talvez eu seja, agora, a adolescente descolada que eu queria ter sido.”
“Prefiro falar em normalizar ao invés de aceitar”

Aos 12 anos, Paola precisou operar uma escoliose. Vieram o pós-operatório, o colete por baixo da roupa e um ano inteiro de exposição a uma diferença que não dava para esconder. “Eu era muito nova, não entendi, odiei. Me senti amaldiçoada.” Era ouvir diariamente comentários cruéis dos colegas e perceber que aquilo não era algo que ela pudesse simplesmente mudar. “Não era ‘não gosto do meu cabelo e vou mudar’. Era uma característica que não tinha o que eu pudesse fazer.”
Foi justamente essa imutabilidade, por mais estranho que pareça, que começou a desmontar a lógica que ela carregava sobre o próprio corpo. Se não havia o que mudar, talvez não fosse o caso de querer mudar. “A autoaceitação tem esse peso de que não tem nada que você possa fazer, que tudo está ruim e você tem que engolir. Eu prefiro falar em normalizar o que eu tenho.” E foi naquela época que surgiu uma pergunta que continua impactanto o que ela publica hoje: “Como é que eu posso criticar um corpo que é tão funcional, com tanta coisa que eu já vivi?”.
“Cresci com mulheres, é natural para mim”

Se Paola fala hoje sobre desconstrução de padrão com naturalidade, parte disso vem do que ela viu dentro de casa. A avó, que ela ainda descreve como “ponto fora da curva”, saiu sozinha de Santa Bárbara para Belo Horizonte, trabalhou na Receita Federal, criou os filhos quando enviuvou cedo e nunca quis casar de novo. “Ela achava que casamento era um incômodo na vida dela.” Já aos 70 anos, começou a viajar pelo mundo sozinha. Morreu em 2020, mas segue como uma presença forte na vida de Paola.
A mãe, arquiteta e profundamente ligada à arte, foi quem apresentou a ela um repertório feminino que ainda sustenta muito do seu olhar estético. “Sempre foi minha maior incentivadora. Lembro quando ela compartilhou uma foto da Jane Birkin no Facebook. Eu fiquei: meu Deus, quem é essa mulher? Quero ser ela.”
Daí vieram os anos de Tumblr (microblog que marcou uma geração de adolescentes dos anos 2010 com referências de moda, fotografia, música e estética indie), o gosto por brechó, por maquiagem artística, o armário onde convivem vestidos comprados aos 15 com peças garimpadas na semana passada. O padrasto, presente desde a infância, completou o cenário doméstico — mas a régua afetiva foi sempre feminina. “Tem uma frase da Monica Bellucci que eu adoro: quando ela vai assistir um filme e não tem mulheres bem desenvolvidas, ela fica entediada. Eu cresci com mulheres. É natural pra mim.”
“A gente coloca na cabeça que precisa de uma relação pra ser realizada”

A grande virada veio aos 25 anos. Paola começou a namorar aos 16 um homem um pouco mais velho, e os dois ficaram juntos por nove anos. Quando o relacionamento terminou, ela se viu diante de uma dúvida que nunca tinha precisado responder antes: “Aquele relacionamento sempre tinha estado ali, na minha vida adulta. Fiquei pensando: quem é a Paola pra além dele?”
A solidão que veio depois não chegou como vazio, e ela faz questão de marcar essa diferença: “Para você entender a autoestima em todos os níveis dela, não só da aparência, é necessário ter essa solitude, estar sozinha pra poder se entender.” Foi também nesse período que ela começou a perceber o quanto certas ideias sobre realização afetiva continuam influenciando mulheres, mesmo aquelas que enxergam a própria vida como autônoma. “Sempre me considerei feminista, tive meu próprio dinheiro, sou estudada. Mas a gente coloca na cabeça que, pra ser uma realizada, precisa ter alguém ali. Isso gera uma dependência mesmo que você não pense sobre ela.”
“Valorizo muito mais meu cérebro que a minha aparência”

As redes, paradoxalmente, foram onde Paola encontrou a parte de si que estava mais escondida — não a estética, mas a confiança nas próprias ideias. “Eu tinha uma insegurança intelectual. Não que me achasse burra, mas não confiava nas minhas opiniões. Tinha medo de falar bobagem.” Postar foi uma forma de descobrir que tinha o que dizer e que outras mulheres queriam ouvir. Ela continua gostando de maquiagem, de roupa, de construir imagens de si — mas sem colocar tudo isso no centro da própria identidade.
“Hoje, valorizo muito mais a minha cabeça, meu cérebro, minhas opiniões, meu universo mental, do que minha aparência”/ É dessa Paola — a que confia no próprio repertório, enxerga beleza em formatos que o feed costuma apagar e ainda guarda vestidos comprados aos 15 anos — que parte a relação construída com quem a acompanha. Sem respostas prontas ou discurso professoral, ela conversa do mesmo lugar em que ainda está tentando entender as coisas. “É isso que uma mulher precisa querer desenvolver. O seu mental. A sua cabeça. A sua inteligência. O seu repertório.”