Enquanto procurarem culpados em vez de transformação, os homens seguirão amargurados
Em um momento em que muitas mulheres questionam modelos antigos de poder e afeto, parte dos homens responde com ressentimento, defensiva e sensação de perda. Tati Vasconcellos reflete sobre caminhos pra mudar isso, recorrendo, inclusive, ao chat GPT
7 minutos |Pego um táxi no Rio de Janeiro, na porta do prédio onde trabalho. Entro no carro, o motorista pergunta se sou jornalista, engatamos uma conversa. Eu, calejada e ciente das dificuldades de diálogo nos tempos atuais, mais ouço do que falo. Roberto dispara críticas ao jornalismo profissional, eu contemporizo e arrisco um pensamento sobre fake news: digo que as pessoas exigem o direito aos seus próprios fatos, e não mais só às suas próprias opiniões; que parece haver interpretações muito diferentes a partir dos mesmos acontecimentos, baseadas em experiências e autopercepções muito particulares que, apesar de legítimas, não alteram os fatos.
Formado em Direito, me conta que dirige o táxi por falta de opção, o que não faz do trabalho dele menos digno. Eu concordo. Me conta de algumas vezes que foi diminuído por gente sentada no banco de trás que julgava saber mais do que ele, que insistia que ele estava errado e deveria se informar. “Eu não sou um idiota. É que tudo agora é ‘lugar de fala’, e isso é usado para nos calar. Só porque não sou negro ou gay não posso dar a minha opinião?” Emito um grunhido e gentilmente arrisco uma comparação com gênero. Foi meu erro. Sem querer, abri um novo tópico que começou com “parece que é pecado ser homem hoje em dia”. E ainda estávamos na metade da corrida até o Jardim Botânico.
Enquanto ele enfileirava clichês descabidos no mesmo tom que acabara de condenar, eu pensava em maneiras de sustentar aquela conversa sem interditá-la, e de evitar uma síncope nervosa ou uma crise de ansiedade.
Roberto se sente injustiçado por ter sido hostilizado quando ignorou uma norma coletiva e entrou em um vagão exclusivamente feminino. “Eu não estava me esfregando em ninguém, olhando para ninguém e ia descer dali a duas estações. Precisava disso?”. Ele claramente não se vê como um homem mau e, portanto, julga que pode ignorar uma regra que não foi feita para ele: um homem bom que não oferece risco às mulheres. Repreendido pelo coletivo, sua fala é invalidada, ele reage e é acusado de machismo e misoginia. Ou de estar errado.
Simpática, já chegando ao meu destino, arrematei: “Para terminar concordando: você infringiu uma regra, não importa se é um homem bom. Certo?” Ele sorriu, resmungou e concordou. Eu desci do táxi, uma sobrevivente.
Impossível não me lembrar do debate já exaustivamente comentado na Globonews, em que a psicanalista Vera Iaconelli e o ator Juliano Cazarré pareciam falar idiomas diferentes ao tratar de masculinidades. Vera, intelectualmente preparadíssima, tentava explicar o quanto de toxicidade existe na estrutura desta masculinidade falida, que não poupa nem os que ingenuamente se consideram bons, e mata quatro mulheres por dia. Cazarré, em outra frequência, negava a realidade e falava de frustração, incompreensão e falta de acolhimento a partir de conceitos superados, mas muito latentes nos homens amargurados pelos avanços comportamentais e sociais das mulheres.
A perda do controle sobre os nossos desejos e nosso comportamento emancipado têm causado um profundo ressentimento neles (e aqui resisto à tentação de trazer trechos de “Como curar o ressentimento”, de Cynthia Fleury, cuja leitura recomendo muitíssimo). Ressentimentos mal elaborados podem facilmente se transformar em raiva, ódio, ímpeto de vingança diante do que ameaça a identidade masculina.
E ei-nos aqui: mulheres letradas e libertas, debatendo os valores que forjam um jeito de ser homem que não deu certo e com o que se tornou quase impossível se relacionar, empurrando a transformação. E eles, os caras, esperneando, perdidos em um mar de angústia que despedaça o que eles entendem por ser homem. Poucos parecem dispostos a mergulhar no duro trabalho de assumir essa amargura e reconstruir os alicerces fincados pelo patriarcado. Preferem, bem mais fácil, se refugiar na confortável e autoelogiosa denominação de “homem bom”, como se o título os eximisse da responsabilidade de combater a estrutura.
A jornalista Mariliz Pereira Jorge, com quem nem sempre concordo, foi bastante precisa no diagnóstico nesse vídeo. Mulheres e homens progressistas não abraçam, não acolhem e nem falam a mesma língua desses homens. Eu mesma, mulher feminista e comunicadora há 25 anos, acho bastante dificil. Mas também não acredito que toda mulher seja obrigada a compreender e/ou a letrar homens. Não é possível mais uma tarefa atribuída a nós.
Atenta a comportamentos e dinâmicas de relacionamentos, cansada porém interessada em homens, estudiosa e leitora voraz de pensamentos e teorias sobre o tema, fiz o que toda mulher deste tempo faria: fui ao chat gpt, na busca afoita por ideias revolucionárias. Pergunto a Gepeto, alcunha pela qual minha IA responde, como começar a destruir o patriarcado em uma resposta curta.
“O patriarcado começa a ruir quando homens aceitam trocar privilégio por responsabilidade. Destruir o patriarcado começa quando a mudança deixa de ser discurso e vira renúncia de conforto.”
Achei o recado claro, mas perguntei como começar a fazer isso na prática, pois as mulheres estamos exaustas e muitos homens estão pagando caro por cursos de masculinistas. A resposta foi direta: “Sem colocar mais uma tarefa no colo das mulheres”.
E em seguida, mandou um tutorial em poucas atitudes:

Mas o que vai fazer com que eles se mexam e iniciem esse processo, Gê?
“Muitos homens se mexem quando alguma coisa deixa de funcionar: um casamento entra em colapso, um filho nasce, uma solidão pesa, uma mulher vai embora, uma amizade mostra outro modelo, uma geração mais nova muda a régua do aceitável. Mas também acho que precisa haver custo para não mudar. Enquanto o patriarcado continuar oferecendo conforto, status, desculpas e terceirização do cuidado a baixo custo, muita gente vai permanecer imóvel”.
E o que eles ganham com isso?
“Boa. Porque sem responder isso, fica parecendo só um pacote de perdas. Minha opinião? Eles ganham humanidade — mas eu sei que isso soa abstrato pra burro. Então vou traduzir. Podem ganhar: relações mais íntimas, menos solidão, paternidade mais rica, menos prisão performática (“homem não chora”, “homem aguenta”), amizades menos rasas, sexualidade menos baseada em prova de virilidade, menos medo constante de fracassar como homem. Mas acho importante não vender isso como propaganda de bem-estar. Porque há perdas reais também: privilégio, centralidade, conforto, certas formas automáticas de autoridade. Talvez a formulação honesta seja: eles não ganham necessariamente uma vida mais fácil; podem ganhar uma vida mais inteira.”
Pergunto se Gepeto tem algo a acrescentar ou se quer manter alguma afirmação em off. Minha IA agênero me surpreende no adendo:

Penso em bell hooks e “A vontade de mudar – homens, masculinidades e amor”, em que ela diz que “os homens foram obrigados a renunciar ao direito de sentir, de amar, para assumir seu lugar como homem patriarcal” e que nós mulheres “podemos guiar, instruir, observar, compartilhar informações e habilidades, mas não podemos fazer por homens e meninos o que eles devem fazer por si mesmos”.
Comportamentos estúpidos e violentos como performance de hombridade os afastam do amor. Ideais ultrapassados que submetem a mulher a uma categoria menor de ser humano, que invalidam seus desejos e desrespeitam seus limites, os afastam do amor. Os modelos de comportamento vendidos por masculinistas que oferecem pertencimento, certezas e hierarquia é falido e produz violência. E só vai se transformar o homem que se dispuser verdadeiramente a inaugurar outros jeitos de amar, a partir do exame incômodo e profundo do que os faz homens. E isso só eles podem fazer.

Para ler:
Como Curar o Ressentimento, Cynthia Fleury, Ed Bazar do Tempo
A Vontade de Mudar, bell hooks, Ed. Elefante.