O homem provedor é a maior lenda urbana que existe
Relatório “Elas pagam a conta”, divulgado recentemente pela Think Eva e Think Olga, revela esse e outros mitos sobre finanças e mulheres
O homem é provedor. A mulher apoia, multiplica, cuida da casa. Essa ideia parece existir desde que o mundo é mundo, mas não é bem assim. Prover vem do latim providere: pro (antes, à frente) + videre (ver). Prover é, então, ver com antecedência, antecipar necessidades, garantir o que virá. Antes da Revolução Industrial, a ideia de provimento era fiel à sua etimologia: prover era sustentar a vida doméstica e homens e mulheres proviam, ainda que de formas diferentes. Com a industrialização, o que era considerado trabalho passou a ser medido pelo dinheiro. Criou-se a ideia de que o que não é pago não é trabalho. Prover abandonou seu sentido de cuidar para assumir o de dispôr de recursos financeiros. Quem provê é quem paga a conta.
“Mulheres são as grandes gestoras das finanças do cotidiano“
Se na cultura essa ideia já estava disseminada, foi o Código Civil de 1916 que entregou aos homens o título oficial de provedores e chefes de família. A eles, a esfera pública, a autoridade e o acesso ao capital. Às mulheres, a esfera doméstica, o cuidado e a tutela econômica. O acesso ao trabalho remunerado, à conta bancária, ao crédito e à herança foi sendo conquistado pelas mulheres nas últimas décadas com muita luta. Os avanços são inegáveis: hoje somos maioria nas universidades, responsáveis financeiramente por mais da metade dos lares brasileiros e temos crescido rapidamente entre os investidores no país. Mas o acesso delas ao dinheiro ainda é dificultado e a brecha salarial de 21% é só a pontinha do iceberg.
Em junho, a Think Eva e a Think Olga lançaram o relatório “Elas Pagam a Conta”, que investiga muitas dessas barreiras e desfaz mitos sobre a relação das mulheres com o dinheiro. Um deles é o de que elas não sabem lidar com grana. Na verdade, mulheres são as grandes gestoras das finanças do cotidiano: mantêm os gastos controlados, fazem mais com menos e realizam o impossível para fazer o orçamento render até o fim do mês. Transformam dinheiro em alimentação, saúde, segurança e lazer. Esse conhecimento não é reconhecido como legítimo, nem pelas instituições nem pelas próprias mulheres.
A ideia de que elas são consumistas descontroladas também cai por terra: 89% das dívidas femininas são no cartão de crédito e estão vinculadas a compras em farmácia (42%) e supermercado (59%). Mulheres são melhores pagadoras do que homens, com maior quantidade de acordos no feirão Limpa Nome do Serasa, por exemplo. Ao contrário do que o senso comum aponta, elas não estão endividadas por causa das blusinhas ou do delivery, mas sim por sustentar a vida. Elas também são responsáveis pelo “PIX invisível”. O termo, cunhado no relatório, diz respeito aos pequenos gastos do cotidiano no cuidado dos filhos e família que ficam sistematicamente ao encargo delas e fora das planilhas. A roupa do filho que ficou pequena, o presentinho do colega da escola, o remédio dos pais, a corrida de aplicativo até o pronto-socorro consomem parte importante dos recursos delas. São, na prática, um investimento significativo na família que as afasta da construção de segurança e autonomia financeira.
Provedoras dos sonhos (deles)
As mulheres também são provedoras dos sonhos dos homens, ao fazer renúncias pessoais e de carreira quando se dedicam às estruturas domésticas para que eles possam trabalhar fora ou realizar o que desejam. Um exemplo é o de Gabriel García Márquez e Mercedes Barcha, casados no momento em que ele decidiu escrever sua obra-prima, “Cem Anos de Solidão”. Durante um ano e meio, o autor permaneceu trancado em um quarto para produzir o texto enquanto sua esposa sustentava sozinha a vida doméstica e a criação dos filhos. Ela negociou dívidas com credores, penhorou as próprias joias e manteve a família funcionando. Enquanto o mundo romantiza a dedicação e a abnegação da esposa, é necessário evocar Mercedes pelo nome que ela merece: investidora. Com seu corpo, tempo, recursos financeiros e gestão do cotidiano, financiou uma das mais importantes obras literárias do mundo.
Entre outras descobertas, o que “Elas Pagam a Conta” revela, afinal, é que a figura do provedor como conhecemos hoje não se sustenta na prática. Na definição ancestral, elas sempre foram provedoras e, na definição contemporânea, serão cada vez mais. Não existe o homem provedor sem a mulher dependente e é por isso que a autonomia financeira feminina ameaça de forma tão profunda a ordem social. O dinheiro é uma ferramenta concreta de proteção, dignidade, sobrevivência e de escolhas independentes, as quais as mulheres têm perseguido durante séculos e não devem abrir mão.