Névoa mental nem sempre é sinal de menopausa
Relatos de dificuldade de concentração, lapsos de memória e sensação de “névoa mental” têm se tornado frequentes entre mulheres. Nem sempre é a perimenopausa batendo na porta ou alguma doença neurológica.
Tem dia em que você entra na cozinha e esquece o que foi fazer ali. Relê a mesma mensagem três vezes. Perde a linha do raciocínio no meio de uma reunião. E, junto com isso, vem o medo: “o que está acontecendo comigo?” A sensação virou queixa recorrente entre mulheres, especialmente a partir dos 35 anos, tanto que ganhou nome popular: névoa mental.
Não se trata de um diagnóstico médico formal, mas descreve algo real: uma combinação de dificuldade de concentração, lapsos de memória recente, lentidão no pensamento e cansaço mental persistente. Acontece que com a quebra do tabu da menopausa – que colocou na roda e nas reportagens sintomas do inevitável declínio hormonal – as conversas sobre o tema fazem muita gente se perguntar: “será que minha névoa mental já é sinal do climatério?”. A questão é que, apesar de ser um sintoma comum desse período, ela não é exclusiva dele. A sobrecarga feminina também pode trazer essa queixa.
“Nem toda névoa mental é sinal de perimenopausa ou menopausa. As alterações hormonais podem contribuir para o quadro, mas ele costuma ser multifatorial. É importante não atribuir tudo automaticamente ao climatério e investigar cada caso”, diz Rebeka Cavalcanti, uroginecologista, membro da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) e da International Urogynecological Association (IUGA)
O que exatamente é névoa mental?
A névoa mental afeta funções que usamos o tempo todo sem perceber, dando a sensação de que o cérebro está mais lento ou “embaçado”. São elas:
- Atenção sustentada – permanecer concentrada em uma tarefa até concluí-la
- Memória de trabalho – que nos permite segurar uma informação por alguns segundos para agir
- Funções executivas – responsáveis por planejar, organizar e tomar decisões com clareza
“Na maioria das vezes, a paciente quer dizer que está com dificuldade de manter a atenção, se distrai com facilidade e sente que tarefas simples passaram a exigir mais esforço mental”, explica Helder Picarelli, neurocirurgião do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) e pós-doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Geralmente isso indica um funcionamento impactado por estresse, privação de sono ou sobrecarga persistente, explica.
Por que isso acontece?
O estresse crônico mantém o organismo em estado de alerta constante. O cortisol, hormônio liberado nesse processo, é essencial para reagirmos a ameaças. O problema é quando ele permanece elevado por semanas ou meses.
Uma revisão clássica publicada na Nature Reviews Neuroscience (McEwen, 2007) mostrou que o estresse prolongado pode afetar o hipocampo e o córtex pré-frontal — áreas ligadas à memória e ao planejamento. O resultado pode ser uma redução temporária da eficiência cognitiva. Em termos simples: o cérebro prioriza sobreviver ao estresse. E deixa tarefas complexas em segundo plano.
A sobrecarga feminina ajuda a explicar o fenômeno. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2022, mulheres brasileiras dedicam quase o dobro de horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados em comparação aos homens, mesmo quando trabalham fora.
“Mulheres frequentemente relatam essa experiência ligada à dupla jornada e à responsabilidade organizacional e emocional”, afirma Edwiges Parra, conselheira em Gestão de Pessoas, psicóloga e professora dos programas de Educação Executiva da FGV SP e da pós-graduação em Dependências Digitais da PUCPR com a PósArtMed.
O sono também pesa nessa equação. Estudos publicados na Science e em revisões da Nature Reviews Neuroscience mostram que a falta de qualidade dele compromete a memória, atenção e tomada de decisões. “Dormir pouco ou mal pode gerar sintomas cognitivos mesmo em pessoas jovens e sem doenças neurológicas”, afirma Picarelli. Inclusive, em mulheres, distúrbios de sono são mais frequentes ao longo da vida, especialmente no pós-parto e na perimenopausa.
É claro que os hormônios também podem contribuir. Durante a transição para a menopausa, a queda do estrogênio pode afetar a memória e concentração e a investigação é necessária. Mas, como lembra Rebeka Cavalcanti, “estresse crônico, privação de sono, sobrecarga mental e até deficiências de vitaminas podem causar ou agravar esses sintomas de névoa mental. É importante não atribuir tudo automaticamente ao climatério e investigar cada caso”. Ela ainda diz que mesmo quando está ligada ao declínio hormonal, a névoa mental não é uma sentença e costuma ser transitória.
Quando vale investigar?
A principal diferença entre a névoa mental e degenerativas ou doenças mentais está no padrão. Quando relacionada à sobrecarga, ela oscila: há dias melhores e piores, costuma piorar com estresse e noites mal dormidas e melhora quando a rotina desacelera.
Na depressão, por exemplo, a dificuldade cognitiva vem acompanhada de humor deprimido persistente e perda de interesse. No burnout, o esgotamento está diretamente ligado ao trabalho. O TDAH não surge de repente na vida adulta — os sintomas costumam estar presentes desde a infância. Já as demências têm evolução progressiva e comprometem cada vez mais a autonomia.
O sinal de alerta aparece quando há declínio constante e impacto importante na vida cotidiana. Na maior parte dos casos relatados por mulheres, porém, o padrão é flutuante e ligado ao contexto.
O erro mais comum, segundo especialistas, é cair em um dos dois extremos: normalizar a queixa como “cansaço da vida moderna” ou partir imediatamente para estimulantes, suplementos e fórmulas milagrosas. Picarelli observa que é frequente encontrar pacientes usando múltiplas vitaminas e medicações sem benefício consistente.
Na maior parte dos casos, a base do tratamento é menos espetacular e mais eficaz: regular o sono, reduzir a carga de estresse, reorganizar prioridades, manter atividade física e investigar possíveis deficiências hormonais ou vitamínicas quando houver indicação clínica.
“A névoa mental funciona como um marcador de sobrecarga acumulada”, resume Picarelli. “O cérebro pode começar a falhar não por perda de capacidade, mas por excesso de responsabilidade. Reduzir o peso costuma ser mais eficaz do que tentar forçar mais desempenho.”